
Crnicas 06

Rubem Alves




NDICE RUBEM ALVES 6


Livros que do alegria .............................................................................................  2
Vestibulares: Inteis e Perniciosos..........................................................................   4
Tempus fugit; Carpe Diem * ....................................................................................   6
Sobre Transar e Ensinar ..........................................................................................   9
So Lus do Maranho ...........................................................................................  11
Sou Religioso ..........................................................................................................  13
Escola e Sofrimento ................................................................................................ 15
Pssaro Encantado ................................................................................................. 16
O Sol Ama a Lua ...................................................................................................... 17
O Sermo das rvores ............................................................................................ 19
O Sapo ................................................................................................................... 21
Memrias ............................................................................................................... 22
"Bem-aventurados os que esto fartos porque eles tero fome de novo!" .................. 24
Escutatria, de novo... ............................................................................................ 26
Em defesa das rvores ............................................................................................ 28
Conchas ou Asas? .................................................................................................. 30
Asas para quem quer voar... ................................................................................... 32
As Razes do Amor  ................................................................................................ 34
Aos Velhos... .......................................................................................................... 35
Aos apaixonados .................................................................................................... 37
"Antes que eles cresam..."  .................................................................................... 39
Coitado do corpo...  ................................................................................................ 40
A aula e o Seminrio ............................................................................................... 42
Entrevista: Uma Escola dos Sonhos .............................................................. 44
Revista Crescer: No Reino dos Porqus ......................................................... 49
As Vrias Mortes  ......................................................................................... 51
O Prespio .................................................................................................... 54
Os Pssaros e os Urubus 0 Uma Parbola Ecumnica .................................... 56
Receita Para Milagre ...................................................................................... 58
Sobre os Perigos da Leitura ........................................................................... 60
A Arte de Saber Ler  ....................................................................................... 63
Como Ensinar o Prazer de Ler ......................................................................... 65
Interpretar  Compreender ............................................................................. 66
Baguna ........................................................................................................ 68
Diploma no  Soluo  ................................................................................... 69
Site RA - 11/09/2004 .................................................................................... 70
Sobre Cincia e Sapincia .............................................................................. 72
Revista Nova Escola, maio/2002  .....................................................................73
Onde Mora o Amor .......................................................................................... 77
Veja Como Esto Agradecidas .......................................................................... 78
A Complicada Arte de Ver ................................................................................ 79
Nelson Freire .................................................................................................. 81
Daiane dos Santos  ......................................................................................... 83
RA Entrevista Max Numa Cervejaria ............................................................... 85
RA Entrevista Nietzsche tocando Flauta .......................................................... 90
Baixou o Esprito do Drummond  .....................................................................96
Nossas Verdades So S Palpites .................................................................... 99

LIVROS QUE SO ALEGRIA

As Sagradas Escrituras so como uma minerao de diamantes: em meio  ganga sem valor encontram-se pedras preciosas, que so inesquecveis. O calendrio me fez voltar
a um salmo que aprendi de cor quando era menino: "Nossos dias passam como um suspiro... Setenta anos  o tempo de nossa vida. E se alguns, por sua robustez, chegam
aos oitenta, o melhor deles desses anos  canseira e enfado... Ensina-nos a contar os nossos dias para que venhamos a ter um corao sbio..." (Salmo 90.9-10 ).

Pois eu estou atentamente contando os meus dias. No os que j se foram, mas aqueles que me restam, cujo nmero no sei. Em breve vou atingir o limite estabelecido
pelo salmista: 70 anos! Nunca imaginei que esse dia iria chegar! O problema est no descompasso que existe entre a minha idade cronolgica e a idade da minha alma
- que est fora do tempo. Na alma, o tempo no passa. Sou ainda menino. Como Alberto Caeiro, "sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do Mundo." H 
tanta coisa por se fazer! Ravel, antevendo o momento da sua partida, dizia: "Mas h tantas msicas a serem escritas!". Que pena que Ravel morreu. Se no tivesse 
morrido, ele teria tido tempo para escrever as msicas que se ouviam na sua alma.

A idade me coloca diante do abismo. Sei que ele est prximo e sinto calafrios. O bruxo D. Juan dizia que  essa condio - comum a todos os homens mas s percebida 
pelos enfermos de morte e os velhos - que nos faz viver verdadeiramente a vida. "H uma estranha, devoradora felicidade quando agimos com a total convico de que, 
qualquer que seja a coisa que estamos fazendo, esta pode muito bem ser a nossa ltima batalha sobre a terra!" (Essa crnica que estou escrevendo: ser ela minha 
ltima batalha?)

Aprendi, na emocionante leitura de Shogun, que os antigos guerreiros japoneses, os samurais, quando o dever os compelia ao suicdio ritual chamado sepuku - ou harakiri 
- antes do ltimo ato, escreviam seu ltimo hai-kai. Um hai-kai  um poema minsculo, menor no pode haver. Pequenos, mas de uma densidade absurda. Leminski os denominou 
de mnimos objetos poticos de peso insuportvel. De fato: um poema que se escreve antes de morrer tem de ter um peso insuportvel, o peso de toda uma vida. 

No tenho planos de cometer sepuku. Desejo viver muitos anos mais, a despeito dos desencantos da velhice. A verdade  que a velhice tem tambm os seus encantos. 
So encantos crepusculares, mansos, belos, tristes e efmeros... Mas o belo efmero, at as crianas se encantam com ele! Tanto assim que gostam de soprar bolhas 
de sabo. Tambm quero soprar bolhas de sabo, escrever o meu hai-kai porque o tempo foge cada vez mais rpido.  comum que mes me peam para autografar livros 
de estrias para seus filhos. Pergunto sempre sobre a idade, porque dedicatrias para crianas de 5 anos so diferentes de dedicatrias para adolescentes de 12. 
E elas me respondem: "6 aninhos..." Eu as corrijo: "Na infncia o tempo  comprido. Meses levam anos para passar. Assim, crianas no tm 'aninhos'. Elas tm 'anes'. 
J na velhice os anos passam em semanas. Por isso quem tem 'aninhos' so os velhos..."
Meu hai-kai seria menor que um hai-kai. O que tenho a dizer se resume num nico verso que o Chico comps para sua filha: "Que seja da alegria sempre um aprendiz..." 
Descobri, na minha prtica de terapeuta, que por detrs de todas as queixas daqueles que me procuravam em busca de alvio havia um nico pedido: "Quero alegria!" 
Alegria  a orao universal de todos os seres. H receitas para os prazeres. Mas no h receitas para a alegria. Assim, o que posso fazer  simplesmente falar aos 
meus amigos sobre coisas que me do alegria na esperana de que, se do alegria para mim, pode ser que dem alegria para eles.
Comeo com os livros. Livros h muitos. Mas so poucos os que do alegria. Desconfie dos devoradores de livros. Livros em excesso no fazem bem, da mesma forma como 
comida em excesso no faz bem. Schopenhauer disse conhecer muitos eruditos que leram at ficar estpidos, acrescentando que nove dcimos de toda literatura do seu 
tempo no tinha outra finalidade a no ser a de tirar alguns centavos do bolso do pblico. " por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de no ler 
 sumamente importante porque a vida  curta e o tempo e a energia escassos." 

Seguindo o conselho de Schopenhauer, faz alguns anos dei mais da metade da minha biblioteca. Percebi que no teria tempo de ler todos aqueles livros e que eram poucos 
os que me davam alegria. Fernando Pessoa e Nietzsche tambm encontravam sua alegria em poucos livros. Livros que do prazer se parecem com anedotas. Uma anedota 
s tem graa na primeira vez que se ouve. Tambm os livros que do prazer s do prazer na primeira leitura. Lidos, podemos d-los de presente. Mas a marca dos livros 
que do alegria  que se parecem com poemas: voltamos sempre a eles, para l-los de novo. Livros que do prazer raspam a pele. Livros que do alegria entram no sangue.

Como sou escritor, o que desejo  que os livros que escrevi dem alegria. Quero que sejam lidos e degustados. Mas tenho de falar sobre outros livros que me fazem 
sorrir s de pensar neles. Livros de leitura fcil que dariam alegria a qualquer leitor. Cito, em primeiro lugar, Zorba, de Nikos Kazantsakis. Acho que gostaria 
de viver e morrer como Zorba. "Um homem como eu deveria viver 1.000 anos!" Essas foram suas ltimas palavras. 

De Joo Guimares Rosa, Miguilim, um menininho que tinha olhos de crepsculo: "O tempo no cabia. Toda manh j era tarde. Todo dia tomava um golinho de velhice." 
Me vi Miguilim. Grande Serto-Veredas, a Bblia de Joo, como a Adlia o chama. L no tem antes nem depois. Qualquer pgina  inspirada. Fala o Riobaldo... De Albert 
Camus, Primeiros cadernos, pensamentos no momento do seu nascimento: "Deus precisa de almas agarradas ao mundo. O que lhe agrada  a nossa alegria.". Histria sem 
fim, de Michael Ende, estria da viagem do menino Bastian Baltazar Bux no Reino da Fantasia, viagem assombrosa pelo inconsciente sem que se use uma nica palavra 
da psicanlise. Tambm do mesmo autor o livrinho O teatro de sombras de Oflia. 

Quando terminei de ler Amor nos tempos do clera, de Gabriel Garca Mrquez, eu disse para mim mesmo, em meio ao riso e s lgrimas: "Se eu fosse Deus todo poderoso, 
nesse momento eu proclamaria: A obra da Criao est por fim terminada..." De Hermann Hesse, Sidarta, especialmente o dilogo com Vaseduva, o barqueiro: "O rio me 
ensinou a escutar", Vaseduva disse a Sidarta. "'O rio sabe todas as coisas. Dele pode-se aprender todas as coisas. As vozes de todas as criaturas vivas podem ser 
ouvidas na sua voz.' E assim eles se assentavam juntos, no tronco de rvores, ao cair da noite. Ouviam a gua em silncio, gua que para eles no era s gua, mas 
a voz da vida, a voz do Ser, da Transformao eterna..." 

A potica do espao e A potica do devaneio, de Bachelard: "Ergo suavemente um galho; o pssaro est ali chocando os ovos. No levanta vo. Somente estremece um 
pouco. Tremo por faz-lo tremer. Tenho medo de que o pssaro que choca saiba que sou um homem, o ser que deixou de ter a confiana dos pssaros. Fico imvel. Lentamente 
se acalmam o medo do pssaro e o meu medo de causar medo. Deixo o galho voltar ao seu lugar. Voltarei amanh. Hoje trago comigo uma alegria: os pssaros fizeram 
um ninho no meu jardim...". De Jorge Amado, Quincas Berro-D'gua, uma das estrias mais deliciosas que j li. De Bernardo Soares, o Livro do Desassossego, viagem 
pela subjetividade do autor, em mincias e detalhes assombrosos. Se a arte, como ele diz,  comunicar aos outros nossa identidade ntima com eles mesmos, quem l 
esse livro anda por dentro de si mesmo. 

De Saramago, Memorial do convento, que  a histria inventada da construo do convento de Mafra, em Portugal. Mas o que mais me comoveu no foi a construo do 
convento. Foi a subestria do Padre Voador, Bartolomeu de Gusmo, que queria construir uma passarola voadora e descobriu, com os alquimistas holandeses, que a nica 
coisa que tinha poder para fazer o pesado voar era a vontade dos homens. A entra a Blimunda, vidente, que saiu pelos campos de batalha a engarrafar a vontade que 
saa pelas ventas dos moribundos, vontades essas que, engarrafadas e ajuntadas, fizeram voar a passarola... E, tambm de Saramago, O evangelho segundo Jesus Cristo: 
qualquer jeito de amar vale a pena! O Filho de Deus sabe disto! E de Nietzsche, Ecce Homo, onde se encontram as chaves para o labirinto da sua alma. Esses livros 
so meus companheiros de solido. Quem os ler com alegria estar na minha confraria...




VESTIBULARES: Inteis e perniciosos

Resumindo: os vestibulares so, em primeiro lugar, inteis. Um leitor, assustado com minha sugesto inslita de que os vestibulares sejam substitudos por um sorteio, 
enviou-me um e-mail em que me acusava de estar trocando um critrio baseado na competncia -critrio racional, portanto- por um critrio baseado na sorte, coisa 
irracional. Mas eu pergunto a voc que conseguiu sobreviver  cmara de torturas: o vestibular os tornou competentes em qu?
Competncia tem a ver com a capacidade de resolver problemas reais, situaes tais como elas aparecem na vida. Em que o preparo para os vestibulares o tornou competente? 
Eu me arrisco a dizer que a nica competncia que o preparo para os vestibulares desenvolve ... a efmera capacidade de passar nos vestibulares...

Efmera, que dura apenas um dia. Tanto esforo, tanto sofrimento, para nada. Pois, como j demonstramos, essa capacidade logo desaparece no buraco negro do esquecimento. 
A memria  uma funo da vida, do corpo. E o corpo no  bobo. Aquilo que no  instrumental para a vida  logo esquecido.

Pense na memria como um escorredor de macarro. Um escorredor de macarro  uma bacia cheia de furos. A gente pe o macarro na gua fervente para amolecer. Amolecido 
o macarro,  preciso livrar-se da gua. Jogam-se, ento, macarro e gua no escorredor de macarro. A gua escorre pelos buracos, e o macarro fica. A memria  
assim: ela se livra do que no tem serventia por meio do esquecimento. E o que  que tem serventia? Duas coisas, apenas. Primeiro, coisas que so teis, conhecimentos-ferramentas, 
conhecimentos que nos ajudam a entender e a fazer coisas.

(Note, por favor, que a utilidade  varivel. Para os esquims,  conhecimento instrumental a arte de fazer iglus. Mas esse conhecimento  intil para bedunos no 
deserto. Para eles, o instrumental  fazer tendas. Conhecimentos que so teis para as crianas das praias de Alagoas so totalmente inteis para as crianas que 
vivem nas montanhas de Minas. Da o absurdo dos programas que ensinam as mesmas ferramentas, como os nossos.)

A outra coisa que tem serventia so os prazeres. Prazeres no so ferramentas. No tm uma funo prtica. Mas do alegria. Do sentido  vida. O corpo no se esquece 
dos prazeres. Educar, assim, tem a ver com as duas caixas que o corpo carrega: a caixa das ferramentas e a caixa dos brinquedos. Na caixa das ferramentas, esto 
os conhecimentos que so meios para viver. Na caixa dos brinquedos, os conhecimentos que nos do razes para viver.

E eu pergunto: que ferramentas o preparo para os vestibulares lhe deu? Que prazeres? Ao final, o escorredor de macarro fica vazio -no havia macarro, s havia 
gua.

Mas, alm de serem inteis, os vestibulares so perniciosos, por deformar a nossa capacidade de pensar. Eu lhe pergunto: o que  mais importante: saber as respostas 
ou saber fazer as perguntas? Se voc me disser que o mais importante  saber as respostas, eu lhe digo: voc j est obsoleto ou est a caminho da obsolescncia. 
Porque uma das caractersticas do nosso momento histrico  o carter efmero das respostas. Quem sabe as respostas logo fica sabendo nada.

Pensar no  saber as respostas. Pensar  saber fazer perguntas. Sobre esse assunto, aconselho a leitura do prefcio  "Crtica da Razo Pura", de Kant, em que ele 
diz precisamente isso -que o conhecimento se inicia com as perguntas que fazemos  natureza. Mas essas perguntas surgem quando ns, contemplando a natureza, nos 
sentimos provocados por seus assombros.

O incio do pensamento se encontra nos olhos que tm a capacidade de se assombrarem com o que vem. Mas  precisamente isso, os olhos assombrados, que o preparo 
para os vestibulares destri. Vestibulares so cega-olhos...

Schopenhauer tem um curto e delicioso texto sobre livros e leitura em que ele diz o seguinte: "Quando lemos, outra pessoa pensa por ns: s repetimos o seu processo 
mental". Segue-se que "aquele que l muito ou quase o dia inteiro (...) perde paulatinamente a capacidade de pensar por conta prpria" -o que  o caso de muito eruditos, 
que "leram at ficar estpidos".

Coisa semelhante acontece com aqueles que se preparam para os vestibulares: de tanto serem treinados para dar as respostas certas, acabam por perder a capacidade
de fazer perguntas, a essncia do pensamento inteligente. O preparo para os vestibulares, assim,  um processo estupidificador, um mecanismo pernicioso para a inteligncia.
Acrescente-se a isso o fato de que, devido  fria da competio, os candidatos, no seu preparo, so forados a abandonar tudo aquilo que tem a ver com a "caixa
dos brinquedos", o que provoca um embrutecimento da sua sensibilidade.

O maior benefcio da abolio dos vestibulares seria este: as escolas estariam finalmente livres dessa guilhotina horrenda no horizonte e poderiam se dedicar  tarefa
de educar, de desenvolver a arte de pensar, que nada tem a ver com o preparo para os vestibulares.

Rubem Alves, 69,  psicanalista e educador. Sobre suas idias sobre os exames vestibulares, recomenda o livro que escreveu para crianas "No Pas dos Dedos Gordos"
(Edies Loyola).














Tempus fugit; Carpe diem *

"O tempo passa,/ No nos diz nada./ Envelhecemos./ Saibamos, quase maliciosos,/ Sentir-nos ir,/ Tendo as crianas/ Por nossas mestras/ E os olhos cheios/ De natureza..."
Alberto Caeiro

Kierkegaard diz, em suas meditaes por nome Pureza de corao,  que "a pessoa que fala sobre a vida humana, que muda com o decorrer dos anos, deve ter o cuidado 
de declarar a sua prpria  idade aos seus ouvintes". Trata-se de um conselho estranho para  aqueles que vem a vida com os olhos da cincia, porque, para eles, os 
olhos permanecem os mesmos, no so afetados pela passagem do tempo. Um bom par de culos pode resolver o problema  da viso diminuda.

Kierkegaard sabia o que os oftalmologistas no sabem: com a idade,  os olhos no ficam mais fracos. Eles ficam diferentes. Sob a luz  do sol a pino eles vem coisas 
luminosas. Sob a luz do crepsculo  eles comeam a ver as criaturas delicadas que no suportam luz em  excesso. O amor prefere a luz das velas. Gaston Bachelard, 
em seu  lindo livro A chama de uma vela, diz que "parece existir em ns cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um corao  sensvel gosta de valores 
frgeis. As fantasias da pequena luz nos  levam de volta ao reduto da familiaridade..."

"Assim esto os meus olhos, assim estou eu, pois sou a luz que meus olhos emitem". No foi isso que Jesus disse (Mateus 6.22)?  Penso que ele aprovaria se me ouvisse 
dizendo: "Os olhos so as  lmpadas do corpo. Se teus olhos forem crepusculares, crepuscular 
tambm ser o teu corpo..." Quando se vive sob a luz da manh,  ainda h muito tempo pela frente, e se pensa que a vida comear a ser vivida depois de havermos 
colocado a casa em ordem. H tanta coisa para ser feita! Felizmente sabemos que as nossas mos 
transformaro o mundo! Marx nos ensinou que  isso o que importa.  E a boca se enche de palavras de ordem e de imperativos ticos e  polticos. Ser cristo  fazer! 
Quando se vive sob a luz crepuscular - a hora do Angelus -,  sabe-se que o trabalho ficou inacabado, o trabalho fica sempre inacabado, o tempo se encarrega de desfazer 
o que fizemos, as mos ficam diferentes, deixam de lado as ferramentas, retorna-se ao lar, corpo e alma "voltam ao reduto da familiaridade". Ao meio-dia se fazem 
trabalho e poltica. Ao  crepsculo se faz poesia. Ao crepsculo se sabe que no seremos salvos pelas obras. Ao 
 crepsculo se retorna  verdade evanglica e protestante que afirma que somente a Palavra nos salvar. Ao crepsculo comemos  palavras:  a hora sacramental, a 
hora da poesia. Ao crepsculo se sabe que o que importa e "ser", simplesmente "ser"...
              
No, o interesse pelos sofrimentos dos homens no foi perdido.  que na hora crepuscular se compreende que "mundos melhores no so feitos; eles simplesmente nascem" 
(e.e. Cummings). H uma  revoluo que se faz com poesia e alegria.  Neruda que o diz: a Reforma Protestante foi feita com msica, cantando. Caminhando e       
cantando...

O ser diante da chama da vela: s olhos, s fantasia; ou diante de uma sonata de Beethoven (Ah! Lenin dizia que poderia ficar ouvindo  a Appassionata o dia inteiro, 
e se alegrava de que aos homens esse poder tivesse sido dado de produzir a beleza, e ficava com vontade de sair  rua e comear a abraar as pessoas - o que  muito 
perigoso para quem est vivendo sob as iluses do meio-dia...); ou como diante de um poema de Alberto Caeiro: "Sejamos simples e calmos,/ Como os regatos e as rvores,/ 
E Deus amar-nos- fazendo de ns/ Belos como as rvores e os regatos/ E dar-nos- verdor na sua  primavera/ E um rio aonde ir ter quando acabemos..."

Os deuses do meio-dia no so os mesmos do crepsculo. Interessante notar que o dia bblico comea com o crepsculo, quando o sol se pe... Talvez essa seja a maneira 
certa (j que Deus faz tudo ao contrrio): tomar como incio aquilo que nossa v  sabedoria sempre achou que fosse o fim. Comear do fim... Alis,  este o conselho 
que o matemtico polons Polya d queles que querem aprender a resolver problemas de matemtica: "Comece sempre pelo fim!" Se ainda tivssemos Pitgoras por nosso 
mestre, 
diramos que o que  verdade para a matemtica tem de ser verdade tambm para a alma. Comear pelo fim! Ver a vida inteira sob a luz crepuscular! Ao meio-dia o cu 
 um imenso mar azul. O tempo est parado, imobilizado. Ao crepsculo tudo se altera: o mar imvel se transforma em rio, as guas correm cada vez mais rpidas, as 
cores se  sucedem, o azul passando ao amarelo, ao rosa, ao vermelho, ao  roxo, para, finalmente, mergulhar na noite. "Especialmente na medida em que se vai ficando 
mais velho", diz Alan Watts em seu livro sobre o taosmo, "vai-se tornando bvio que as coisas no  tm substncia, pois o tempo passa cada vez mais rapidamente, 
de forma que nos tornamos conscientes da liquidez dos slidos; as pessoas e as coisas se transformam em reflexos e rugas na superfcie da gua".

Kierkegaard estava certo.  preciso dizer a idade. Os olhos crepusculares no so olhos que vem menos: so olhos que vem diferente. Eles vem sob a perspectiva 
da morte. Pois  ela, a morte, que se nos aparece ao crepsculo.  s ela que nos permite  ver o crepsculo. "As nuvens que se ajuntam ao redor do sol que se pe/ 
ganham suas cores solenes de um olho/ que tem atentamente vigiado a mortalidade dos homens..." Estes so versos de William  Wordsworth. No, no so as cores l 
fora que so belas e tristes. So as cores crepusculares que moram dentro do olhar...

Talvez voc tenha-se assustado, quando me referi  morte.   compreensvel. A vida inteira ouvimos falar mal dela. E as religies at fazem tudo para matar a morte, 
para que no haja crepsculos no mundo, para que o sol esteja permanentemente a  pino. "Mas ao matar a morte a religio nos tira a vida", diz  Octvio Paz. "A eternidade 
despovoa o instante. Porque a vida e a morte so inseparveis. Tirando-nos o morrer a religio nos tira a vida. Em nome da vida eterna a religio afirma a morte 
desta vida". O crepsculo  belo por causa do rio, o fluir do tempo que faz as  cores mudarem... Ouo, de Holst, o poema sinfnico Os Planetas. Neste momento,  
Vnus: o que traz a alegria. Tambm a sua beleza  depende do tempo que passa - os acordes se vo para dar lugar aos que vm, at que chegaro ao fim e eu direi: 
"Que lindo! Pena que acabou!" A vida e a beleza s existem por causa da morte, que torna possvel que elas dancem. D. Juan, o bruxo do livro de  Castareda, Viagem 
a Ixtlan, chama a Morte de "conselheira". Ela nos torna mais sbios. No  por acaso que a sabedoria est associada  velhice. Hegel dizia que a coruja de Minerva 
s abre  suas asas no crepsculo. E Roland Barthes, ao ficar velho (mas era             bem mais moo do que eu), afirmava que naquele momento ele se  entregava 
ao esquecimento de tudo o que aprendera a fim de poder chegar  sabedoria.

Que sabedoria nos ensina a morte?  simples. Ela s diz duas coisas. Primeiro, nos aponta o crepsculo, a chama da vela, o rio,  e nos diz: Tempus Fugit - o tempo 
passa e no h forma de segur-lo. E, logo a seguir, conclui: Carpe Diem - colha o dia como quem colhe um fruto delicioso, pois esse fruto  a ddiva de Deus. Os 
poetas e artistas tm sabido sempre disso. Porque a arte  isso, pegar o eterno que cintila por um instante no rio do tempo. Como est escrito neste lindo poema 
de Paul Bouget que Debussy musicou e a Barbra Streisand gravou no maravilhoso CD Classical Barbra: "Quando, ao sol que se pe,/ os rios ficam cor rosa,/ e um leve 
tremor percorre/ os campos de trigo,/ parece das 
coisas surgir uma splica de felicidade/ que sobe at o corao perturbado./ Uma splica de beber o encanto de se estar no mundo/ enquanto se  jovem e a noite  
bela./ Pois ns nos vamos,/ como se vai esta onda:/ Ela, para o mar,/ ns para a sepultura..."
              
Num dos cadernos de Camus encontra-se o seguinte pargrafo: "Os pssaros, durante o dia, voam em todas as direes. Ao cair da  noite, entretanto, dir-se-ia que 
eles voam para um mesmo lugar. Assim, talvez, ao cair da noite da vida..." Eu me sinto assim: ao  chegar o crepsculo, as muitas palavras que escrevi em todas as 
direes, reduzem-se a algo extremamente simples. Aconteceu assim tambm com Jorge Luis Borges, j bem mais velho do que eu. 

"Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na prxima trataria de cometer mais erros. No tentaria ser to perfeito. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que 
tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a srio. Seria at menos higinico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,  subiria 
mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a lugares onde  nunca fui, tomaria mais sorvete e menos sopa. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginrios. Eu 
fui uma destas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida. Claro que tive momentos de alegria mas, se pudesse voltar a viver, trataria de 
ter somente bons momentos. Porque, se no o sabem, disso  feita a vida, s de momentos. No percam o agora. Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um 
termmetro, uma bolsa de gua quente, um guarda-chuva e um pra-quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve. Se eu pudesse voltar a viver, comearia a andar 
descalo no comeo da primavera e continuaria assim at o 
fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianas, se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, j viram, 
tenho oitenta e cinco anos, e sei que estou morrendo..." (Jorge Luis Borges) Ricardo Reis disse a mesma coisa num poema mais curto: "Dia em que no gozaste no foi 
teu:/ Foi s durares nele. Quanto vivas/ Sem que o gozes, no vives./ No pesa que amas, bebas ou sorrias:/ Basta o reflexo do sol ido na gua/ De um charco, se 
te  grato./ Feliz o a quem, por ter em coisas mnimas/ Seu prazer posto,  nenhum dia nega/ A natural ventura". Beber o encanto de estar no mundo! No importa que 
ele nos venha em pequenos fragmentos de alegria, de riso, de compaixo, de amizade, de silncio, arroz e feijo, o abrao de amor, a poesia, as coisas do dia-a-dia. 
Se voc no sabe sobre que estou falando, por favor, leia a poesia de  Adlia Prado. So sacramentos, fragmentos de uma felicidade que nos toca de leve, para logo 
se ir. A felicidade  assim, no  coisa grande que vem para ficar. Sabe disso Guimares Rosa, que dizia que ela s acontece em raros momentos de distrao. Mas 
  justo assim que Deus vem, quando estamos distrados, eternidade num gro de areia, reflexo do sol ido na gua de um charco.
              
Tudo  um grande brinquedo. Brinquedo: coisa mais alegre e efmera haver? E  isso que nos ensina a morte, que a vida  brinquedo, no pode ser levada a srio - 
o que nos torna humildes e livres das alucinaes de importncia e de poder. Desenhos de conchas na areia, como aquele imenso cavalo-marinho de caracis que a menina, 
do filme O Piano, fez na praia, enquanto sua me tocava... Coisas que uma criana faz na praia, casas, castelos, tneis, caminhos... 

"E assim, num dia de tempo calmo,/ embora estando em ilha distante,/ contemplamos o mar imortal/ que nos trouxe at aqui,/ e vemos na praia as crianas brincando/ 
e ouvimos as fortes guas eternamente/ rolando..." (e.e. Cummings, citando W. Wordsworth)
              
Logo a mar, durante a noite, apagar tudo, e pela manh a praia estar maravilhosamente lisa, todas as cicatrizes saradas, como se nada tivesse acontecido. Haver 
metfora mais bela para o perdo? E o brinquedo poder comear de novo. Aquilo que foi amado deve  ser repetido. Por isso afirmamos: "Creio na ressurreio do corpo": 
o que foi, voltar. 

"O que aconteceu acontecer de novo,/ o que j foi feito ser  feito de novo,/ nada de novo h debaixo do sol" (Eclesiastes 1.9) Tempus Fugit.

"Vai, portanto, come a tua comida e alegra-te com ela,/ bebe o teu vinho com um corao feliz./ Veste-te sempre de branco/ e que no falte leo perfumado nos teus 
cabelos./ Goza a vida com quem amas todos os dias da tua vida.../ Pois Deus j aceitou o que fizeste..."
(Eclesiastes 9.7) * O tempo foge; Curta o dia





SOBRE TRANSAR E ENSINAR

Nietzsche diz que para se aprender a pensar  preciso aprender a danar. O pensamento so as idias danando. H danas dos tipos mais variados, desde a marcha militar 
at o bal. A analogia  um passo da dana do pensamento. Pela analogia o pensamento pula de uma coisa que ele conhece para uma coisa que ele no conhece. Aquilo 
que desconheo  "como" isso que conheo. "Como" no  a mesma coisa que "igual". Na anologia eu no afirmo que aquilo  "igual" a isso. Digo que  "como".  s 
parecido. A analogia no d conhecimento preciso sobre o desconhecido - mas o torna familiar. Quando se conhece mesmo, de verdade, no  preciso fazer uso de analogias. 
Se conheo uma ma eu digo "ma" e pronto. 

No vou dizer que ela  "como" uma pera redonda vermelha. Imagine agora o que deve ter acontecido com os brancos quando eles pela primeira vez se encontraram com 
os esquims. Os esquims no conheciam frutas. L  tudo gelo. Conversar sobre peixes era fcil. Os esquims eram especialistas em peixes. Mas, e se um branco resolvesse 
contar a estria da Branca de Neve - aquele pedao onde a madrasta envenenou a ma? O que  ma? Acho que se fosse comigo eu diria que ma  algo que, por fora, 
 como o corao de uma foca, vermelho, e por dentro  como a neve fresca. Mas eu no teria como falar-lhes do cheiro e do gosto. 

As analogias, assim, no nos do conhecimento exato. Elas nos introduzem no campo da familiaridade. Por isso os cientistas que acham que cincia  conhecimento exato 
desprezam o uso das analogias. Mas o fato  que h uma infinidade de experincias que no podem ser comunicadas de forma cientfica - aquelas que no podem ser medidas 
e submetidas  estatstica. Como comunicar, por meio de palavras precisas, o cheiro da ma, a ternura de um olhar, a tristeza de um crepsculo, o medo de morrer, 
o mistrio da floresta, o fascnio do mar? As coisas impossveis de serem comunicadas diretamente s podem ser comunicadas por meio das analogias. E  a que surge 
a poesia, a linguagem das coisas que no podem ser ditas diretamente. 

As coisas do amor podem ser ditas de forma cientfica, sem o uso de analogias? Master & Johnson, um famoso casal de sexlogos, tentaram dizer na linguagem cientfica, 
sem analogias, o que acontecia quando um homem e uma mulher faziam amor. Para isso ligaram aos corpos de um homem e de uma mulher transando todos os tipos de fios 
e aparelhos eltricos, para que assim, por meio de medies, o ato do amor pudesse ser conhecido de forma precisa. Posso imaginar a reao dos cientistas diante 
dos grficos, mesmo aqueles que nunca tinham transado. Sorridentes e extasiados, ele diziam: "Finalmente sabemos com preciso o que  fazer amor. J no mais necessitamos 
das analogias dos poetas..." 

As coisas da educao podem ser ditas de forma cientfica, sem o uso de analogias? A mesma doidice de Master & Johnson se apossou de certos pedagogos que, envergonhados 
pela imprecisa e inferior linguagem potico-analgica de alguns educadores - como  o caso absurdo de Roland Barthes, que se referia  educao como "maternagem", 
analogia romntica que liga o educador  me! - tratam de definir a educao como um saber cientfico e preciso. 

No  o meu caso. No acredito que o amor possa ser dito com os grficos cientficos de Master & Johnson. No acredito que o ato de educar possa ser dito na precisa 
linguagem das "cincias da educao". 

Conheo melhor o amor e a educao atravs das analogias poticas. 

As Sagradas Escrituras, que nada sabiam de cincia do amor e da cincia da educao, fazem uso de uma analogia inslita que liga a experincia fundamental da educao, 
o ato de conhecer, ao ato de fazer amor. Diz ela: "E Ado conheceu a sua mulher, e ela concebeu e pariu um filho..." 

Uma feminista protestaria logo: "Analogia machista. No texto o homem  o sujeito do conhecimento.  ele que conhece. A mulher  objeto do conhecimento, passiva. 
Assim, o ato de conhecer fica sendo um ato masculino." 

Parece machista mas no . De fato, a analogia diz que o ato de conhecer  masculino. Mas "masculino" no quer dizer " de homem". O "masculino"  uma funo que 
pode ser executada tanto por homens quanto por mulheres. Como tambm h funes femininas que podem ser executadas tanto por mulheres quanto por homens. As feministas 
vivem dizendo que minha escritura  feminina, o que simplesmente me d alegria. Mas o texto bblico sugere uma outra coisa: conhecer  funo masculina; conceber 
e parir so funes femininas. Brincando com a analogia: ser que o ato de conhecer  anlogo ao pnis e os atos de conceber e parir so anlogos ao tero? 

Essa analogia, ento, nos introduz na familiaridade do mundo em que conhecer e fazer amor se misturam. Se Nietzsche disse que para pensar  preciso saber danar, 
digo eu que para ensinar  preciso saber fazer amor. Fazer amor  como conhecer; conhecer  como fazer amor. Assim dizem as Escrituras Sagradas. Assim diz a psicanlise. 

Aristteles, na primeira frase com que abre sua metafsica, diz o seguinte: "Todos os homens tm, naturalmente, um impulso para adquirir conhecimento." Entre as 
crianas, acho que a primeira manifestao desse impulso se encontra no dedinho que quer enfiar em todo buraco que v: buraco de tomada eltrica, buraco de gargalo 
de garrafa, buraco de nariz. 

O ato de enfiar o dedo  mais que expresso do desejo de conhecer.  gostoso enfiar o dedo. Todo mundo sabe da funo ertica do dedo. Existe uma analogia entre 
dedo e pnis. At as crianas j fazem aquele gesto obsceno. O dedo  um dos nossos orgos sexuais. 

Quando eu era menino, sem nada saber sobre sexo, gostava de descascar as mexiricas para, depois, enfiar o dedo no buraco fechado e apertado do meio dos gomos. Era 
delicioso, meu dedo enfiado e apertado, no obscuro buraco da mexirica. Um menininho foi humilhado por duas menininhas. Quando elas o viram com o pintinho de fora 
fazendo xixi, cairam na risada: "  igual a um pepininho!" Ao que ele retrucou: 

"E vocs, que o que tm so dois gominhos de mexirica!" Bom observador, o menino; sua imaginao j conhecia atravs das analogias. O que prova que as ligaes que 
fiz entre o ato de enfiar o dedo na mexirica e o ato de fazer amor no foram arbitrrias. 

 claro que nenhum pedagogo cientfico levar a srio o que acabo de dizer. Dir que sou um brincalho irresponsvel. Desconhece o ditado: " Ridendo dicere severum!" 
: rindo, dizer as coisas srias. Sou absolutamente srio nas minhas brincadeiras literrias. As analogias nos introduzem no parentesco das coisas que compem o mundo. 
Quem s sabe a coisa, como deseja a cincia, sabe muito pouco. As coisas exibem a sua nudez quando refletidas em outras. O uso da analogia no indica pobreza de 
conhecimento, como quer a cincia. Indica exuberncia, excesso, transbordamento: as coisas, sozinhas, no se dizem.  preciso que outras coisas as digam. Pois eu 
estou dizendo que o ato de educar se revela no ato de fazer amor. Quem aprende dos amantes fica um melhor educador. Os alunos conhecero, concebro e pariro... 



SO LUIS DO MARANHO


A Adlia Prado definiu a poesia como uma perturbao da viso. Disse ela: "Deus de vez em quando me castiga. Me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". 
Mas o certo no  ver pedra quando pedra  o que h? Se olho para uma pedra e vejo outra coisa  porque meus olhos esto perturbados. Pois  isso mesmo que a poesia 
faz: a gente olha para a pedra e v uma outra coisa que no est l. Isso que a gente v na pedra e no est na pedra, est dentro da gente, na alma. Para os poetas 
o mundo  um espelho de mil faces em que a alma se contempla. Da a felicidade narcsica da poesia... A poesia  uma alterao da percepo visual. Chego a temer 
que, algum dia, ela venha a ser classificada como droga alucingena...

Mas h coisas no mundo que, quando olho para elas, s vejo elas mesmas.  o caso das casas novas, to modernas, to certinhas. Olho para elas e o que vejo? Vejo 
casas novas, to modernas, to certinhas... Com as casas velhas  diferente. Basta que eu veja uma delas para que meus olhos fiquem perturbados e eu comece a ver 
coisas. Casas velhas me poetizam.

Amo as casas velhas mais que as novas. As casas velhas so moradas de memrias e saudades. Mas, o que mora nas casas novas? Nada. So vazias. Meu amor pelas casas 
velhas se deve, talvez, ao fato de que passei parte da minha infncia no sobrado colonial do meu av. Velho, muito velho, estava cheio de quartos proibidos e espaos 
misteriosos. Nele moravam ainda recordaes de escravos e senzalas. A nega Iai, escrava forra que cuidou da minha me, lhe contava histrias de Angola que depois 
minha me me contou. E no faltavam os jasmins, a flor do imperador, os cravos, a malva, a hortel.... No sei quantos anos tero sido necessrios para constru-lo, 
com suas paredes de pedra de um metro de largura e seus vidros coloridos importados da Europa. Contava histrias do sobrado de meu av para minha analista e ela 
me dizia, espantada: "Mas doutor, isso  muito mais fascinante que Cem Anos de Solido". 

O sobrado do meu av no existe mais. Queimou numa imensa fogueira. Em poucas horas todo o mistrio foi reduzido a cinzas. Construir demora. Destruir  rpido. Por 
vrios dias os gigantescos barrotes de pau blsamo continuaram a queimar, exalando seu cheiro delicioso de nunca-mais. Mas no foi acidente. Um homem, que alugava 
uma loja no trreo, o incendiou. Luclio, era o seu nome. No satisfeito, continuou a incendiar outras casas antigas. Descoberto e preso justificou os seus atos: 
"Detesto casas velhas. Gosto de casas novas, modernas. O que eu desejava era criar condies para a modernizao da cidade". 

Ele foi bem sucedido. A cidade se modernizou. No lugar onde estava o sobrado hoje se encontra o Banco do Brasil. S que, quando olho para o prdio do banco eu s 
vejo o prdio do banco. Sob um certo ngulo, seu Luclio estava certo: as coisas velhas atravancam o progresso. Seu Luclio tinha uma fina percepo das implicaes 
do progresso: "Queimar o velho para dar lugar ao novo". O progresso e a riqueza so incendirios.

Assim tem acontecido. Foram-se as florestas de pinheiros araucria. Pinheiro cortado vale mais que pinheiro em p. Foi-se a Mata Atlntica. Vo-se as matas, avanam 
os desertos. E os rios e riachos cristalinos? O Tiet, caldo grosso de veneno. Nas suas guas nada vive. Esgoto fedido. Fugiram os peixes. Os que no conseguiram 
fugir - de vez em quando aparecem boiando nos rios, cobertos de moscas. E tambm as praias esto indo, transformadas em cimento e barulho. 
Meditando sobre a filosofia do seu Luclio compreendi o que aconteceu com os espaos antigos do Brasil, as praas, casas, quintais, ruas, chafarizes... Foi assim: 
as cidades que, de repente, foram invadidas pela euforia do dinheiro e do progresso destruram seus inteis espaos antigos. Por que preservar casas velhas inteis 
e feias se  possvel construir casas novas, teis e modernas em seu lugar? J nas cidades que ficaram  margem da riqueza e do progresso (que tristeza!) os lugares 
antigos sobreviveram, arruinados. O antigo sobreviveu por causa da pobreza...

Foi-se o sobrado mas permanecem os cenrios antigos na alma. O Vincius disse que a alma dele era um crio que ardia numa catedral em runas. Eu digo que a minha 
alma  um manac perfumado num jardim abandonado. Lembrei-me de um texto de Guimares Rosa sobre os jardins abandonados, em que ele se refere ao "jasmim do imperador 
- de todos o mais querido". E me lembrei tambm de um hai-kai de Bash: "Na velha casa que abandonei as cerejeiras florescem..."

Vez por outra, diante das casas antigas e seus jardins, eu me reencontro de novo comigo mesmo como fui, menino. Foi o que me aconteceu quando visitei, faz poucos 
dias, So Lus do Maranho. So Lus: para mim, at aquele momento, nada mais que um nome vazio, uma bolinha no mapa. O nome no me fazia pensar em nada. A eu cheguei 
l, comecei a perambular pelas ruas do seu centro antigo, e uma alegria comeou a tomar conta de mim. O menino que mora em mim, aquele que brincava no sobrado do 
meu av, acordou do seu sono. A poesia se virou os meus olhos. Comearam a brincar. 
Olhavam para as casas e no viam as casas. Viam o sobrado do meu av. Senti-me voltando para casa. Eliot disse que "ao final de nossas longas exploraes chegaremos 
finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos ento pela primeira vez". Estaria eu voltando? Retornando ao lugar de onde parti? Ser que eu, adulto, sou 
um estranho, exilado, no mundo da modernidade e das casas novas? 

O sobrado do meu av, as casas antigas de So Lus - to distantes no espao e no tempo! E, no entanto, habitantes de um mesmo tempo, de um mesmo mundo. As casas 
antigas de So Lus e o sobrado antigo do meu av no so casas desse mundo, so casas de um mundo que no existe mais, que existe s na saudade onde moram os sonhos. 
Mas, como a alma  feita de saudade, esse mundo que no existe do lado de fora continua a existir do lado de dentro. E l estava eu, menino, andando pelas ruas antigas. 
Dantes tristes de abandono e pobreza agora estavam l, as casas, diante de mim, alegrinhas e coloridas, exibindo os seus encantos.

No eram peas de um museu. Estavam vivas. Faziam parte do cotidiano das pessoas que enchiam as suas ruas. Lindo, pela simplicidade e harmonia de suas linhas, o 
"Teatro". A meninada adolescente o enchia, para o grande circo do Bumba-meu-boi. Me lembrei do Teatro Municipal de Campinas, coitado. No teve tanta sorte. No foi 
protegido pela pobreza. Foi destrudo pela modernidade, sem ter tempo de gritar. O povo, acho que estava distrado... Foi destrudo por homens empreendedores e amantes 
da modernidade, feito o sobrado do meu av.

Fiquei grato pela pobreza. Foi por causa dela que o passado sobreviveu, l em So Lus. "Creio na ressurreio dos mortos": assisti o passado morto sendo trazido 
de volta  vida. O dinheiro, entregue  sua prpria fome,  monstro que devora tudo, praga de gafanhotos. Mas quando domado pelos desejos de beleza, ele pode fazer 
maravilhas. Esse era o sonho dos pensadores utpicos do sculo 19, que contemplavam a marcha devastadora da riqueza. Sonhavam com uma economia em que o dinheiro 
seria como aqueles gnios da garrafa, poderosos mas sem vontade prpria, obedientes s ordens do corao. 

As velhas casas de So Lus me deram olhos de poeta. Quem sabe chegar um dia em que os administradores pediro conselho aos poetas. Parece que isso aconteceu l 
em So Lus do Maranho... 




SOU RELIGIOSO

Eu sou muito religioso. Por isso trato cuidadosamente de evitar igrejas e cerimnias religiosas: para que meus sentimentos religiosos no sejam perturbados. Minhas 
experincias passadas com igrejas no tm sido boas. Sempre que vou a igrejas ou participo de cerimnias religiosas minha alma fica irritada. Os porta-vozes de Deus 
sempre falam demais. Parecem gostar do som da sua voz. Gostaria de uma igreja onde no houvesse sermes: s silncio, msica e poesia. Houve excees de que no 
me esqueo. Uma missa na catedral de Cuernavaca, Mxico. Se houve homilia eu nem me lembro. 
Lembro-me da dana  todo mundo danando, ao ritmo da msica dos mariachis. Foi alegria pura. Lembro-me tambm de uma semana que passei num mosteiro da Sua onde 
se cultivava o silncio. Trs vezes ao dia, s seis da manh, ao meio-dia e s seis da tarde havia uma meia hora litrgica onde nada era dito. Apenas o silncio, 
as velas, a contemplao dos cones de Cristo. Foi beleza. Deve ter havido outras ocasies. Mas no estou me lembrando delas no momento.
Quando me perguntam eu deveria dizer que no sou religioso. Dizendo-me religioso os outros logo pensam que sou adepto de alguma religio. Eles imaginam que as religies 
e as igrejas so semelhantes aos supermercados, lugares onde a gente vai se abastecer de mercadorias sagradas. Para eles, ter sentimentos religiosos sem freqentar 
igrejas ou pertencer a religies seria o mesmo que dizer que me abasteo de verduras, frutas, legumes, carnes, leite, cereais sem fazer compras.
Da no entenderem que eu possa ter sentimentos religiosos sem freqentar igrejas. De fato, eu no perteno a grupo religioso algum. Meus sentimentos nada tm a 
ver com igrejas e rituais religiosos. Talvez eu devesse simplesmente dizer que sou mstico sem religio. Se os religiosos disserem que isso no  possvel, que  
preciso ter uma religio, eu lhes direi que no h indicaes de que Deus tenha concordado em se tornar numa mercadoria a ser distribuda com exclusividade pelos 
seus supermercados religiosos. Deus  livre como o Vento  pelo menos foi isso que Jesus disse. Claro que h religies que dizem que o Vento s pode ser obtido engarrafado. 
Elas se acreditam como distribuidoras de Vento engarrafado. Uma religio que afirme que o sagrado  um monoplio seu est dizendo que ela conseguiu engarrafar o 
Vento, que ela conseguiu por o Vento sob seu controle. E isso  idolatria. Os telogos medievais sabiam que o finito no pode conter o infinito.
A minha experincia com o sagrado vem sempre fora de lugares religiosos, diante do mistrio da noite estrelada, de uma teia de aranha, de uma rvore florida, da 
ternura do amor, do riso de uma criana, da frescura dos riachos, da graa do vo dos urubus, da alegria do cachorro que me recebe. Essas coisas que me do alegria 
e que, por isso mesmo, so para mim sagradas, eu nunca as encontrei nas igrejas. Sagrado, para mim,  aquilo que meu corao deseja que seja eterno. O sagrado  
a realizao do amor. Meu misticismo, assim, nada me diz sobre seres de um outro mundo. Ele no me informa sobre deuses, cus, infernos, pecados, demnios e anjos. 
Meu misticismo no aumenta o meu conhecimento sobre o universo. Meu misticismo no  um substituto para a cincia. 
Meu misticismo, tambm, no me d conselhos morais. No ordena que eu seja bom. No me manda ajudar os pobres. No me manda lutar pela justia. No  preciso ser 
mstico para ser bom, para amar os pobres, para lutar pela justia. Acho vergonhoso ser bom, amar os pobres e lutar pela justia porque Jesus manda. Ento  porque 
ele manda? Se no mandasse a gente no faria? Se Deus no mandasse e no ameaasse no seramos bons? Se assim , ento somos bons, amamos os pobres e lutamos pela 
justia porque temos medo. Mas tudo o que brota do medo  o oposto do sagrado. O amor lana fora o medo. 
Meu misticismo nem me d conhecimentos de um outro mundo e nem me d ordens morais. Ele  um sentimento  ou como se fosse uma msica que ouo dentro de mim. Schleiermacher, 
um telogo romntico do fim do sculo 18, dizia que o sentimento religioso  o sentimento de "dependncia absoluta" diante do universo. Eu no existo em mim mesmo. 
Eu existo somente em relao a uma coisa enorme, gigantesca, fantstica, coisa que no compreendo, mas que me envolve, na qual eu naso e para a qual voltarei um 
dia. 
Sou uma nota numa sinfonia com milhares de notas, uma folha num jequitib com milhares de folhas, uma nica gota num mar com gotas sem fim. De um lado eu me descubro 
infinitamente pequeno. De outro lado eu me descubro imensamente grande: estou ligado tudo. Sou to grande quanto o universo, que se transforma ento no meu grande 
corpo. 
Alguns do o nome de Deus a esse Grande Corpo no qual todas as coisas existem. Gosto dessa idia. Aconteceu faz muito tempo, quando ouvir o rdio exigia pacincia 
e ateno. Havia a barulheira constante da eletricidade esttica que era ouvida ora como pipocas estourando numa panela, ora como uma srie de interminveis assobios. 
Eu me lembro. Era noite. J estava na cama. Luz apagada. Gostava de dormir com msica. Rdio Ministrio da Educao: havia sempre msicas do meu gosto. De repente, 
no meio dos estouros e assobios da esttica, uma msica linda que mal se podia ouvir. Mas, em meio aos rudos sem sentido da esttica, o meu ouvido percebia a beleza 
que mal se ouvia, perdida no meio da esttica.
A eu pensei que o sentimento religioso  assim mesmo: em meio  barulheira da vida, a gente ouve uma melodia. H um lindo texto de Nietzsche em que ele descreve 
precisamente essa experincia  ele fala de uma melodia de beleza indescritvel que repentinamente comeou a ouvir dentro da sua alma, beleza to grande que ele comeou 
a chorar. Nietzsche era uma dessas pessoas possudas por um profundo sentimento mstico e que, precisamente por causa dele, tinha de ficar longe de todas as religies. 
As igrejas o horrorizavam.
Dizia que elas mais se pareciam com sepulcros de Deus. E tinha horror das msicas que ali se cantavam, que ele comparava ao coro de rs dentro de um charco... Sim. 
Sou religioso. O universo  o meu templo. O rudo dos regatos, o barulho do vento nas folhas dos eucaliptos, o perfume do jasmim, as cores do crepsculo, as experincias 
de arte e de brinquedo so, todos, para mim, sacramentos  fugazes experincias do sagrado. Deus nunca foi visto por ningum. Mas sempre que tenho uma efmera experincia 
de beleza e da amor  como se eu tivesse visto, num breve segundo, uma cintilao do sagrado.






ESCOLA E SOFRIMENTO

Estou com medo de que as crianas me chamem de mentiroso. Pois eu disse que o negcio dos professores  ensinar felicidade. Acontece que eu no conheo nenhuma criana 
que concorde com isto. Se elas estivessem aprendido as lies da poltica, me acusariam de porta voz da classe dominante. Pois, como todos sabem, mas ningum tem 
coragem de dizer, toda escola tem uma classe dominante e uma classe dominada: a primeira, formada por professores e administradores, e que detm o monoplio do saber, 
e a segunda, formada pelos alunos, que detm o monoplio da ignorncia,  e que deve submeter o seu comportamento e o seu pensamento aos seus superiores, se desejam 
passar de ano.
Basta contemplar os olhos amedrontados das crianas e os seus rostos cheios de ansiedade para compreender que a escola lhes traz sofrimento. O meu palpite  que, 
se fizer uma pesquisa entre as crianas e os adolescentes sobre as suas experincias de alegria na escola, eles tero muito que falar sobre a amizade e o companheirismo 
entre eles, mas pouqussimas sero as referncias  alegria de estudar, compreender e aprender.
A classe dominante argumentar que o testemunho dos alunos no deve ser levado em considerao. Eles no sabem, ainda... Quem sabe so os professores e os administradores.
Acontece que as crianas no esto sozinhas neste julgamento. Eu mesmo s me lembro com alegria de dois professores dos meus tempos de grupo, ginsio e cientfico.
A primeira, uma gorda e maternal senhora, a professora do curso de admisso, tratava-nos a todos como filhos. Com ela era como se fssemos uma grande famlia. O 
outro, professor de Literatura, foi a primeira pessoa a me introduzir nas delcias da leitura. Ele falava sobre os grandes clssicos com tal amor que deles nunca 
pude me esquecer. Quanto aos outros, a minha impresso era a de que nos consideravam como inimigos a serem confundidos e torturados por um saber cujas finalidade 
e utilidade nunca se deram ao trabalho de nos explicar. Compreende-se, portanto, que entre as nossas maiores alegrias estava a notcia de que o professor estava 
doente e no podia dar a aula. E at mesmo uma dor de barriga  ou um resfriado era motivo de alegria, quando a doena nos dava uma desculpa aceitvel para no ir 
 escola. No  me espanto, portanto, que tenha aprendido to pouco na escola. O que aprendi foi fora dela e contra ela.Jorge Lus Borges passou por experincia semelhante.
Declarou que estudou a vida inteira, menos nos anos  em que esteve na escola. Era, de fato, difcil amar as disciplinas representadas por rostos e vozes que no 
queriam ser amados.
Esta situao, ao que parece, tem sido a norma, tanto que  assim  que aparece freqentemente relatada em literatura. Romain Rollnad conta  a experincia de um aluno:"...afinal 
de contas, no entender nada j  um hbito. Trs quartas partes do que se diz e do que me fazem escrever na escola: a gramtica, cincias, a moral e mais um tero 
das palavras que leio, que me ditam, que eu mesmo emprego - eu no sei o que elas querem dizer. J observei que as minhas redaes as que eu menos compreendo so 
as levam mais chances de ser classificadas em primeiro lugar". Mas nem precisaramos ler R. Rollandd: bastaria ler os textos que os nossos filhos tm de ler aprender. 
Concordo com Paul Goodmann na sua afirmao de que a maioria dos estudantes  nos colgios e universidades  no desejam estar l. Esto l porque so obrigados.
Os mtodos clssicos de tortura escolar como a palmatria e a vara foram abolidos. Mas poder haver sofrimento maior para uma criana ou um adolescente que ser forado 
a mover-se numa floresta de informaes que ele no consegue compreender, e que nenhuma relao parecem ter com sua vida?
Compreende-se que, com o passar do tempo a inteligncia se encolha por medo e horror  diante dos desafios intelectuais, e que o aluno passe a se considerar como 
um burro. Quando a verdade  outra: a sua inteligncia foi intimidada pelos professores e, por isto, ficou paralisada.
Os tcnicos em educao desenvolveram mtodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ningum jamais pensou em avaliar 
a alegria dos estudantes - mesmo porque no h mtodos objetivos para tal. Porque a alegria  uma condio interior, uma experincia de riqueza e de liberdade de 
pensamentos e sentimentos. A educao, fascinada pelo conhecimento do mundo, esqueceu-se de que sua vocao  despertar o potencial nico que jaz adormecido em cada 
estudante. Da o paradoxo com que sempre nos defrontamos: quanto maior o conhecimento, menor a sabedoria. T.S. Eliot fazia esta terrvel pergunta, que deveria ser 
todos os professores: "Onde est a sabedoria que perdemos no conhecimento?"
Vai aqui este pedido aos professores, pedido de algum que sofre ao ver o rosto aflito das crianas, dos adolescentes: lembrem-se de que vocs so pastores da alegria, 
e que a sua responsabilidade primeira  definida por um rosto que lhes faz um pedido: "Por favor, me ajude a ser feliz..."





PSSARO ENCANTADO 

Era uma vez uma menina que tinha como seu melhor amigo, um Pssaro Encantado. Ele era encantado por duas razes. Primeiro porque ele no vivia em gaiolas. Vivia 
solto. Vinha quando queria. Vinha porque amava. Segundo, porque sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha voado. 
Certa vez voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou estrias de montanhas cobertas de neve. Outra vez suas penas estavam vermelhas, e ele contou estrias 
de desertos incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando estavam juntos. Mas sempre chegava o momento quando o pssaro dizia: "Tenho de partir." A menina 
chorava e implorava: "Por favor no v fico to triste. Terei saudades e vou chorar..."

"Eu tambm terei saudades", dizia o pssaro. "Eu tambm vou chorar. Mas vou lhe contar um segredo: eu s sou encantado por causa da saudade que faz com que as minhas 
penas fiquem bonitas. Se eu no for no haver saudade. E eu deixarei de ser o Pssaro Encantado e voc deixar de me amar."

E partia. A menina sozinha, chorava. E foi numa noite de saudade que ela teve a idia: "Se o Pssaro no puder partir, ele ficar. Se ele ficar, seremos felizes 
para sempre. E para ele no partir basta que eu o prenda numa gaiola."

Assim aconteceu. A menina comprou uma gaiola de prata, a mais linda.

Quando o pssaro voltou eles se abraaram, ele contou estrias e adormeceu. A menina, aproveitando-se do seu sono, o engaiolou. Quando o pssaro acordou ele deu 
um grito de dor.

"Ah! Menina...que  isso que voc fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficaro feias e eu me esquecerei das estrias. Sem a saudade o amor ir embora..."

A menina no acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar.

Mas no foi isso que aconteceu. Caram suas plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silncio: 
deixou de cantar. Tambm a menina se entristeceu.

No era aquele o pssaro que ela amava. E de noite chorava pensando naquilo que havia feito com seu amigo...

At que no mais agentou. Abriu a porta da gaiola. "Pode ir, Pssaro", ela disse." Volte quando voc quiser..."

"Obrigado, menina", disse o Pssaro. "Irei e voltarei quando ficar encantado de novo. E voc sabe: ficarei encantado de novo, quando a saudade voltar dentro de mim 
e dentro de voc!





O SOL AMA A LUA

                                                        
"Sim, a luz de um olhar, para onde vai ela quando a morte coloca o seu dedo frio sobre os olhos de um morto?" Assim perguntava Bachelard, pensando sobre a sua prpria 
morte que se aproximava. Com a morte seus olhos se apagariam: cessaria a luz; ele no mais veria esse mundo maravilhoso que tanto amava. No entanto, os momentos 
que antecedem o toque do dedo frio da Morte sobre os olhos so marcados por uma assobrosa luminosidade. Dizia Fernando Pessoa: "Estou hoje lcido, como se estivesse 
para morrer". Lcido, inundado de luz. A proximidade da morte ilumina a vida. Aqueles que contemplam a Morte nos olhos vem melhor, porque ela tem o poder de apagar 
do cenrio tudo aquilo que no  essencial, as trivialidades e banalidades que so a substncia do nosso cotidiano insensato. Os olhos do vivos tocados pela morte 
so puros. Eles s vem aquilo que o amor tornou eterno. 
* * *
O Hlio morreu. Morreu jovem, 63 anos. Inesperadamente. Vitimado por aquilo a que ele deu o nome de "meu fatal lado esquerdo". Falou assim de brincadeira. Seu lado 
esquerdo sempre o metia em complicaes:  o lado do corao, da paixo. Tambm  o lado da poltica. Ele no imaginava que sua brincadeira fosse profecia. Foi no 
seu fatal lado esquerdo que a Morte o golpeou. No dia 23 de maro de 1988. Na 3 feira prxima passada completaram-se 11 anos. 

O Hlio e a Lya se encontraram num congresso de escritores. Ele, 60 anos. Ela, 47. Ficaram perdidamente apaixonados. Resolveram assumir a loucura do amor. Ela deixou 
tudo, marido e filhos para viver com ele. Foram trs curtos anos de amor. Depois da morte do Hlio, Lya escreveu uma srie de poemas. Lcidos. Poemas de quem experimentou 
o que existe de mais pungente na Morte: no a prpria morte, mas a morte de quem mais se ama. 

"Deus/ ( ou foi a Morte?)/ golpeou com sua pesada foice / o corao do meu amado / ( no se v a ferida, mas rasgou o meu tambm)./ Ele abriu os olhos, com ar deslumbrado, 
disse bem alto o meu nome no quarto de hospital, / e partiu./ Quando se foram tambm os mdicos e suas mquinas inteis, / ficamos ss: a Morte ( ou foi Deus?)/ 
o meu amado e eu. / Enterrei o rosto na curva do seu ombro / como sempre fazia, / disse as palavras de amor que costumvamos trocar. / O silncio dele era absoluto: 
seu corao emudecido / e o meu, varados por essa dourada foice./ Por onde vou deixo o rastro de um sangue denso e triste que no estancar jamais." 

"O meu amado tinha coisas de menino: / dormia abraado a mim feito criana, / gostava de doce e de ganhar camisas novas de presente. / Usava a gua-de-colnia que 
lhe dei, e ria: ' Pareo uma Paulina Bonaparte.' Olhava-me to agradecido ao menor cuidado / como limpar seus culos ou trazer-lhe gua, que era como se nunca tivesse 
tido infncia./ O meu amado tinha coisa de menino: / mas seus olhos eram sbios / de entenderem quase toda a misria deste mundo." 

"Passevamos pelo Jardim Botnico... / Da ltima vez, paramos abraados / diante das vitrias-rgias em flor. / Trocamos confidncias de nossos coraes atormentados, 
dissemos ternuras./ De repente pus-me a chorar no ombro dele.../ Chorava sem saber por qu. / Hoje compreendo: / na sombra, a Morte erguia o seu brao, / mas ns 
no sabamos ainda." 

"O meu amado tinha indignaes enormes./ Andava de um lado para o outro em minha frente: / no se conformava com os conformados, os corruptos, / os medocres e os 
vendidos deste mundo./(...) Passava as mos pelo cabelo grisalho e ardia como um jovem de dezoito anos na sua ira:/ 'Tenho vocao  de terrorista.' /( Eu escutava, 
com medo de que ele saltasse da varanda / levado pelo vendaval de seu furor de justo.)/ Depois ele fechava as portas de vidro sobre a noite quente,/ me pegava pela 
mo, dizia: 'Vamos dormir.' / E ento era todo mel e ternura." 

"O meu amado tinha tantas manias: / perdia canetas, lpis, chaves. / Houve um livro que comprou trs vezes em um ms: depois encontramos todos e mais um sob velhos 
jornais.(...) No conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever: / vinha ao meu escritrio, usava de pretextos para me distrair, / dava um beijo, fazia confidncias, 
comentava assuntos do dia.(... )Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha mquina de escrever um bilhetinho: / 'Hlio Pellegrino ama Lya Luft.' / Nunca tivemos 
mais que vinte anos." 

"O meu amado tinha a fadiga de muitos sculos./ Deitava-se no sof, cabea no meu colo: ' Com voc encontrei a paz.'/ Mas estava cansado. Tinha saudade de mais paz 
do que lhe poderia dar todo o meu amor sem limites. Dizia: / 'Hoje estou triste como o diabo, sem motivo.'/ O motivo era ser esta vida um exlio / e sua alma uma 
chama / que s se aplacaria em Deus. / Para isso foi preciso que partisse." 

"O meu amado era mineiro: mas dos visionrios. / Levava-me  sua terra, onde, brios de tanta luz e tanto cu, / percorramos a sua juventude: eu integrada nessa 
vida inteira. (...) O meu amado era de Minas: capaz de morrer sem abdicar do sonho." 

"Quando meu amado morreu / abriu-se em meu peito esse buraco: / atravs dele arrancaram-me o corao / e colocaram o estranho maquinismo / que me mantm viva, cheio 
de lminas e pontas. / A cada pulsao ele corta / e me impele a viver." 

"O meu amado morreu: preciso viver sua morte at o fim./ Morreu sem que se instalasse entre ns cansao e banalidade. / Talvez tenha morrido na medida certa / para 
nada se desgastar. / Dele me vem a dor, mas tambm a ternura, / a claridade que me permite ver em todos os rostos o seu rosto / em todos os vultos o seu vulto / 
e ouvir em todos os silncios / o seu inesperado riso de criana." 

Resolvi transcrever esses poemas pensando naqueles cujos olhos ainda no foram iluminados pela Morte, na esperana de que os seus olhos se abrissem. O cansao e 
a banalidade que destroem qualquer amor: somente a viso da Morte impede que eles cheguem.  preciso ateno: "na sombra do jardim a Morte ergue o seu brao, e ns 
no sabemos ainda." 

Sabe, Lya? Todo mundo desejaria viver um grande amor. Pensei, ento, que o curto eterno amor entre voc e o Hlio deveria ser uma metfora de um grande amor universal 
que, como voc mesma disse, deixa sempre uma coisa faltando. Pois "a vida  um exlio e a alma  uma chama que s se aplaca em Deus."  o mximo a que podemos aspirar. 

E ento, lendo o bilhetinho que o Hlio deixou sobre sua mquina de escrever depois de uma briga, Hlio e Lya se transformaram. Hlio  sol. E Lya, basta mudar o 
"y" para "u" para ficar "lua": "O Sol ama a Lua". Essa  uma verdade universal, o desejo de todos os amantes. Eternamente. 





O SERMO DAS RVORES

Relata-se que So Francisco - a quem muito amo - pregava aos peixes e s aves. Se a lenda  verdadeira imagino que os peixes e as aves, ouvindo a pregao do santo, 
riam e sorriam discretamente para no ofend-lo. E isso porque no se pode pregar a seres perfeitos. Prega-se a seres imperfeitos para que eles se tornem perfeitos. 
Acontece que peixes e aves so perfeitos, so felizes naquilo que so. Peixes no querem ser aves. Aves no querem ser peixes. Mangueira no pensam jabuticabas. 
Jabuticabeiras no pensam mangas. Fico pasmo, olhando uma jabuticabeira florida no Dali. Pobrezinha, teve galhos cortados, ficou espremida entre paredes. Mas ela 
tudo ignora. Est coberta de flores brancas.  como se tivesse cado neve. As flores tm aquele delicioso perfume de infncia e ps descalos. As abelhas, atradas 
pelo perfume, vm e zumbem, zumbem...Assim : cada bicho, cada planta, est contente com o que . So felizes no que so. Feuerbach, filsofo-poeta sensvel, observou 
sobre a desconhecida psicologia das plantas: " Se as plantas tivessem olhos, gosto e capacidade de julgar, cada planta diria que a sua flor  a mais bonita". Esse 
no  o nosso caso. Somos os nicos seres que no esto contentes com o que so. Queremos ser diferentes. Por isso estamos infelizes e doentes. "Ah, como os mais 
simples dos homens / So doentes e confusos e estpidos / Ao p da clara simplicidade/ E sade em existir / Das rvores e das plantas!", dizia Alberto Caeiro. Assim, 
o certo no  ns. Confusos e estpidos, pregarmos s criaturas. O certo  elas, felizes, preguem a ns. As criaturas falam. O salmista olhava para os cus e percebia 
que pelos espaos vazios se ouvia a pregao sem linguagem e sem fala das estrelas ( Salmo 19). Olhava, fechava a boca e escutava. Mas ns, cuja loucura est em 
nos considerarmos superiores, achamos que podemos pregar e ensinar. Parte da nossa estupidez  a incontinncia verbal, a constante ejaculao de palavras - quando 
a verdadeira sabedoria seria fazer silncio, parar os pensamentos, para ouvir a pregao das estrelas, dos peixes, das aves, das plantas. Jesus dizia aos perturbados 
pelas ansiedades da vida que eles deviam olhar para as flores a fim de aprender delas tranquilidade. O salmista ( salmo 1) pregava aos homens falando de um ideal 
de vida em que somos como "a rvore plantada junto a ribeiros de guas". Regatos e rvores nos ensinam sabedoria. Por isso, continua em mim suspeita de que as rvores 
so uma forma mais evoluida de vida que a nossa. Me contestaro dizendo que somos superiores porque pensamos e as rvores no. Pergunto se a capacidade de pensar 
 sinal de superioridade. O pensamento no surge, precisamente, da nossa doena? Ou como sintoma dela ou como tentativa de cura? Caeiro dizia que "pensar  estar 
doente dos olhos". Pensamos porque no estamos felizes com o que somos. Quando estou feliz meus olhos vem a rvore e descansam nela. No penso outras coisas. Eu 
e a rvore somos um. Quando estou doente meus olhos vem a rvore mas no descansam nela. Penso. Eu corpo, no pensamento, vai para um outro lugar. Pensamos porque 
no estamos felizes onde estamos. Da a nossa agitao, to bem descrita numa palavra inglesa que no pode ser traduzida: "restlessness": o estado em que estamos 
permanentemente sem descanso. Inclusive eu, que penso esses pensamentos: penso para ver se descubro uma forma de ficar simples e calmo como as rvores. Gosto de 
caminhar. Caminho olhando para cima e para os lados. Acho estranhas as pessoas que caminham olhando para o cho. Compreendo. Para elas no faz diferena. O pensamento 
delas no est colado ao corpo. Se estivesse, elas estariam olhando para os lados e para cima, colado s rvores, aos pssaros, ao cu. Infelizes, o pensamento caminha 
por outros lugares. Por isso  indiferente que olhem para o cho ou para as rvores. Olho para cima e para os lados para ver as rvores. Tento ouvir a sua silenciosa 
pregao. Se pregam,  porque pensam. Mas seus pensamentos so diferentes dos nossos. Elas pensam da mesma forma como produzem brotos e flores. No pensam pensamentos 
da cabea, como ns. As rvores no tm cabea. No precisam ter cabea. Elas pensam com o corpo: razes, tronco, galhos, folhas, flores, frutos. Pensam sempre os 
pensamentos que devem ser pensados, isto , pensamentos que tm a ver com a vida. Agora, depois da chuva, as tipuanas e outras rvores esto cobertas de brotos novos. 
Os brotos novos so seus pensamentos alegres, pensamentos que as rvores devem ter, quando a primavera se aproxima. Os ips tm outros pensamentos. Eles no so 
iguais s tipuanas. Esto floridos. Faz duas semanas, eram os ips amarelos. Agora, os ips rosa e brancos. Floriram no por felicidade mas por medo, Floriram por 
causa da seca. Floriram por medo de morrer e trataram de ejacular sementes para que, no evento de sua morte, suas sementes estivessem espalhadas pelo mundo. Os ciprestes 
italianos tm fantasias teolgicas: afinam-se e querem tocar os cus. Os "chapeu-de-sol" - que alguns chamam de amendoeiras, ao contrrio, so serem desse mundo. 
Estendem seus galhos na horizontal. Os paus ferro, livres de cascas velhas enrugadas, exibem uma pela lisa e branca onde pessoas malvadas gravam, a canivete, seus 
nomes. Passo nelas a minha mo porque  gostoso sentir sua lisura. As rvores jovens tm a sua beleza. Mas, sendo jovens, no tm estrias para contar. No se pode 
assentar  sua sombra, suas copas oferecem pouco lugar para os pssaros e seus galhos no so fortes bastante para que neles se amarrem balanos. "Olhe estas velhas 
rvores, / mais belas do que as rvores novas, mais amigas ./ Tanto mais belas quanto mais antigas..." - dizia Bilac. As rvores so amigas. Esto sempre fielmente 
no mesmo lugar,  espera. E so comparecermos, elas continuaro l, do mesmo jeito. Sem nada dizer. s vezes me pergunto se elas, nas noites de tempestade, no sentem 
medo. Basta olhar para elas com a cabea livre de pensamentos: nossas tempestades deixam de amedrontar. As rvores sabem que a nica razo da sua vida  viver. Vivem 
para viver. Viver  bom. Razes mergulhadas na terra, no fazem planos de viagem. Esto felizes onde esto. Enfrentam seca e chuva, noite e dia, chuva e calor, com 
silenciosa tranquilidade, sem acusar, sem lamentar. E morrem tambm tranquilas, sem medo. Ah! Como as pessoas seriam mais belas e felizes se fossem como as rvores. 
 possvel que os estoicos e Spinoza tenham se tornado filsofos tomando lies com as rvores. Olhando para as rvores, tive por um momento a idia de que Deus 
 uma rvore  cuja sombra ns, crianas, brincamos e descansamos. Pura generosidade sem memria. Acho que o verdadeiro, sobre So Francisco, no  que ele tenha 
pregado aos peixes e pssaros. A verdade  que ele ouviu o sermo das rvores. Por isso ficou to manso, to tranquilo. Ele tinha a beleza das rvores. Estava reconciliado 
com a vida. Ento os pssaros fizeram ninhos nos seus galhos e os peixes comeram dos seus frutos que caiam na gua... 
"Sejamos simples e calmos / Como os regatos e as rvores, / E Deus amar-nos- fazendo de ns / Belos como as rvores e os regatos, / E dar-nos- verdor na sua primavera, 
/ E um rio aonde ir ter quando acabemos!...  (Alberto Caeiro).
 







O SAPO

Era uma vez um lindo prncipe por quem todas as moas se apaixonavam. Por ele tambm se apaixonou uma bruxa horrenda que o pediu em casamento. O prncipe nem ligou 
e a bruxa ficou muito brava."Se no casar comigo no vai se casar com ningum mais!" Olhou fundo nos olhos dele e disse: "Voc vai virar um sapo!"Ao ouvir esta palavra 
o prncipe sentiu uma estremeo. Teve medo. Acreditou. E ele virou aquilo que a palavra de feitio tinha dito. Sapo. Virou um sapo.
Bastou que virasse sapo para que se esquecesse de que era prncipe. Viu-se refletido no espelho real e se espantou: "Sou um sapo. Que  que estou fazendo no palcio 
do prncipe? Casa de sapo  charco". E com essas palavras ps-se a pular na direo do charco. Sentiu-se feliz ao ver lama. Pulou e mergulhou. Finalmente de novo 
em casa.
Como era sapo, entrou na escola de sapos para aprender as coisas prprias de sapo. Aprendeu a coaxar com voz grossa. Aprendeu a jogar a lngua pra fora para apanhar 
moscas distradas. Aprendeu a gostar do lodo. Aprendeu que as sapas eram as mais lindas criaturas do universo. Foi aluno bom e aplicado. Memria excelente. No se 
esquecia de nada. Da suas notas boas. At foi o primeiro colocado nos exames finais, o que provocou a admirao de todos os outros sapos, seus colegas, aparecendo 
at nos jornais. Quanto mais aprendia as coisas de sapo mais sapo ficava. E quanto mais aprendia a ser sapo, mais se esquecia de que um dia fora prncipe. A aprendizagem 
 assim: para se aprender de um lado h de se esquecer do outro. Toda aprendizagem produz o esquecimento.

O prncipe ficou enfeitiado. Mas feitio - assim nos ensinaram na escola -  coisa que no existe. S acontece nas estrias de carochinha.
Engano. Feitio acontece sim. A estria diz a verdade.
Feitio o que ? Feitio  quando uma palavra entra no corpo e transforma. O prncipe ficou possudo pela palavra que a bruxa falou. Seu corpo ficou igual  palavra.
A estria do prncipe que virou sapo  a nossa prpria estria. Desde que nascemos, continuamente, palavras nos vo sendo ditas. Elas entram no nosso corpo, e ele 
vai se transformando. Virando uma outra coisa, diferente da que era. Educao  isso: o processo pelo qual os nossos corpos vo ficando iguais s palavras que nos 
ensinam. Eu no sou eu: eu sou as palavras que os outros plantaram em mim. Como o disse Fernando Pessoa: "Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos 
dos outros fizeram de mim". Meu corpo  resultado de um enorme feitio. E os feiticeiros foram muitos: pais, mes, professores, padres, pastores, gurus, lderes, 
polticos, livros, tv. Meu corpo  um corpo enfeitiado: porque o meu corpo aprendeu as palavras que lhe foram ditas, ele se esqueceu de outras que, agora permanecem 
mal... ditas...
A psicanlise acredita nisso. Ela v cada corpo como um sapo dentro do qual est um prncipe esquecido. Seu no  ensinar nada. Seu objetivo  o contrrio: des-ensinar 
ao sapo sua realidade sapal. Faz-lo esquecer-se do que aprendeu, para que ele possa lembrar-se do que esqueceu. Quebrar o feitio. Coisa que at mesmo certos filsofos 
(poucos) percebem. A maioria se dedica ao refinamento da realidade sapal. Tambm os sapos se dedicam  filosofia... Mas Wittgenstein, filsofo para ningum botar 
defeito, definia a filosofia como uma "luta contra o feitio" que certas palavras exercem sobre ns. Acho que ele acreditava nas estrias de carochinha....
Tudo isso apenas como introduo  enigmtica observao com que Barthes encerra sua descrio das metamorfoses do educador. Confisso sobre o lugar onde havia chegado, 
no momento de velhice. "H uma idade em que se ensina aquilo que se sabe. Vem, em seguida, uma outra, quando se ensina aquilo que no se sabe. Vem agora, talvez, 
a idade de uma outra experincia: aquela de desaprender. Deixo-me, ento, ser possudo pela fora de toda vida viva: o esquecimento..."
Esquecer para lembrar. A psicanlise nenhum interesse tem por aquilo que se sabe. O sabido, lembrado, aprendido,  a realidade sapal, o feitio que precisa ser quebrado. 
Imagino que o sapo, vez por outra, se esquecia da letra do coaxar, e no vazio do esquecimento, surgia uma cano. "Desafinou!" berrava os maestros. "Esqueceu-se 
da lio", repreendiam os professores. Mas uma jovem que se assentava  beira da lagoa juntava-se a ele, num dueto... E o sapo, assentado na lama, desconfiava...
"Procuro despir-me do que aprendi", dizia Alberto Caeiro. "Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 
desencaixotar minhas emoes verdadeiras, desembrulhar-me, e ser eu..."
Assim se comportavam os mestres Zen, que nada tinham para ensinar. Apenas ficavam  espreita, esperando o momento de desarticular o aprendido para, atravs de suas 
rachaduras, fazer emergir o esquecido.  preciso esquecer  para se lembrar. A sabedoria mora no esquecimento.
Acho que o sapo, to bom aluno, to bem educado, passava por perodos de depresso. Uma tristeza inexplicvel, pois a vida era to boa, tudo to certo: a gua da 
lagoa, as moscas distradas, a sinfonia unnime da saparia, todos de acordo... O sapo no entendia. No sabia que sua tristeza nada mais era que uma indefinvel 
saudade de uma beleza que esquecera. Procurava que procurava, no meio dos sapos, a cura para sua dor. Inutilmente. Ela estava em outro lugar.
Mas um dia veio o beijo de amor - e ele se lembrou. O feitio foi quebrado.
Uma bela imagem para um mestre! Uma bela imagem para educador: fazer esquecer para fazer lembrar!




MEMRIAS

Hoje, quando escrevo,  o dia 21 de abril, dia da morte de Tiradentes. Deveria estar comovido. No estou. O patriotismo no  uma de minhas virtudes. As informaes 
histricas sobre o assunto ficam como um livro empoeirado numa prateleira escura da memria. Meu pensador, se tentar pens-las, se transformar numa pedra pesada. 
Mas h um Tiradentes que me excita, Tiradentes feminino, a Tiradentes, cidadezinha histrica de Minas, as ruas caladas de pedras, as casinhas pintadas de cores 
variadas, os pomares com jabuticabeiras e ps de rom, o frango ao molho pardo com ang e pimenta, sopa rala de fub com ora-pro-nobis, a cadeia com suas grades 
grossas e sem esperana, as igrejas pintadas de branco, os cheiros velhos e os perfumes atemporais dos jasmins e manacs, o crrego que corre debaixo da ponte: dizem 
que um alferes apelidado Tiradentes andou por al. E ento eu me comovo, porque os fantasmas que moram naquele espao tranquilo vo me contando estrias. Imagino 
se os romnticos inconfidentes teriam se reunido ali nalgum lugar para conspirar enquanto comiam po de queijo e bebiam caf.

21 de abril , tambm, aniversrio do meu pai. Se fosse vivo estaria completando 102 anos. A casa onde nasci ainda existe, em Boa Esperana. Foi construida por meu 
pai. Fui visit-la - to conservada, como se fosse nova. Entrei no quarto onde nasci, e fiquei imaginando a cena de eu nascendo para o mundo... Meu pai foi um homem 
muito rico. Meus trs irmos mais velhos nasceram nos tempos da riqueza. Tiveram brinquedos, velocpedes, bicicletas. A casa onde nasci era dos tempos da riqueza. 
Mas logo me mudei para casa pobre. Nascido nos tempos de pobreza, no tive nem velocpede e nem bicicleta. At hoje no sei andar de bicicleta. Tenho muita inveja 
de quem sabe. Me dizem que  muito fcil. Para quem sabe, tudo  fcil.

Eu e os meus irmos no brigamos pela herana. No se briga pelo que no existe. Do meu pai recebi um peso de vidro de papel. Verde claro, ficava sobre a sua mesa. 
Tudo o que  de vidro me fascina. Numa outra encadernao vou me dedicar ao artesanato de vidros. Farei vitrais, como o Tiffany. Acho, inclusive, que Deus  um fazedor 
de vitrais: vai fazendo beleza com os cacos coloridos que o sofrimento arranca do nosso corpo. As lgrimas se transformam em contas de vidro. Difcil resistir  
tentao de comprar pesos de vidro. Tenho vrios. Alguns so obras de arte. ( Quando voc visitar Poos de Caldas visite a fbrica de cristais Cdoro. Al voc vai 
encontrar a arte de Murano. Bons para presentes, bonitos sem ser caros ). Gosto deles mas no me importo se quebram. Posso comprar outros. Mas o peso de vidro que 
herdei do meu pai, se ele se quebrar vou ficar muito triste. Ser como se um elo que me liga ao meu pai tiver sido partido. Meu pai pegou no peso de vidro. Eu tambm. 
Assim nos tocamos.

Meu pai foi um homem fascinante. Se alimentava de sonhos. Por isso estava sempre voando - nunca punha os ps no cho. O que me deixava profundamente irritado, desde 
menino. Sonhar  bom, mas  feito empinar pipa. A pipa s voa alto se estiver amarrada ao cho, por uma linha. Pipa que no estiver amarrada no voa mais alto; cai, 
soluando. O pai queria voar alto sem estar amarrado ao cho. Quando algo no coincidia com os seus sonhos ele simplesmente fazia de conta que aquilo no existia. 
O resultado foi triste. 

Mas enquanto o triste no chegou meu pai foi espalhando alegria por onde ia. Ele no suportava a idia de que algum no estivesse alegre. E para espalhar alegria 
ele desenvolveu uma arte refinada de contar casos. Ele sempre nos dava uma grande alegria de palavras. Se os caminhos dele tivessem sido outros, ele poderia ter 
sido escritor, talvez poeta. O escritor  o nico que pode empinar pipa sem que ela esteja amarrada ao cho. Escritor, se no fosse escritor, seria sonhador-voador 
como meu pai. O escritor, escrevendo, transforma seus sonhos num objeto: o texto. E o texto entra na circulao da vida. Acho que o prazer de escrever foi uma das 
heranas que recebi do meu pai, junto com o peso de vidro.

Psicanalistas ortodoxos acham que o consultrio deve se parecer com uma sala de cirurgia, asstico, para no contaminar a imaginao do cliente. Eu acho o contrrio. 
Quero mesmo  provocar a imaginao dele, arranc-la da toca onde se escondeu, como tat. Havia uma vela sobre a mesinha de centro do meu consultrio. Gosto de velas, 
por seu valor metafrico e suas potncias onricas. Meu paciente foi logo picado por ela. Lembrou-se que velas so para serem usadas quando falta eletricidade. Lembrou-se 
mais que na sua cidade a eletricidade sumia com frequncia. Era aquela escurido. A escurido deixa as pessoas infelizes. No ele. Quando faltava a luz, seu pai 
acendia uma vela e os trs, pai, me e filho jogavam cartas. A vela, na sua imaginao potica, estava ligada a um momento de intimidade e tranquilidade familiar. 
Sob a luz da vela os trs estavam juntos.

Do meu pai tenho memrias parecidas. Depois da falncia virou viajante. Ganhava a vida vendendo coisas. Os trens da Rede Mineira Viao eram a sua casa. Assim, entre 
sacolejos e apitos roucos, foi viajando por Minas. Ele voltava no trem das 8 da noite. Nossa casa ficava bem diante dos trilhos. A gente ficava esperando o apito, 
na curva da linha, depois das paineiras, l vinha o trem cuspindo vias-lteas de faiscas vermelhas pela chamin. Ns na frente da casa, agitando os braos, meu pai 
meio corpo para fora da janela do trem, sorridente. A gente corria para a estao, para vir com ele. Minha me fazia arroz, molho de tomate e cebola, ovos fritos. 
E eu tinha permisso para comer junto com o meu pai, muito embora tivesse jantado s 5. Era uma felicidade mergulhar o po na gema mole do ovo.

Meu pai foi muito rico, frequentava o Rio de Janeiro, hotis e restaurantes caros onde se falava francs ( Ele me ensinou: +poisson sans boisson c'est poison+...). 
Mas as coisas da riqueza nunca entraram na alma dele. As coisas que lhe davam felicidade eram coisas simples, ver as galinhas subindo no poleiro, ao entardecer. 
A chuva caindo l fora, de noite, e o barulho da goteira na lata. Assentar-se  porta da rua, numa cadeira de vime, depois da janta e jogar conversa fora, enquanto 
fumava cachimbo. Ler. ramos pobres e ele ficou scio de um Clube do Livro. Foi graas a esse Clube do Livro que eu adquiri o gosto pela leitura. Eu, menino de 8 
anos, lia porque no havia outra coisa para fazer.

Nunca levou a srio as coisas da religio. Padres e pastores, ele os mantinha distantes por meio de uma cortez cerimnia. Contava que um homem, l em Boa Esperana, 
usava dizer: +Se Deus ficar com muito enjoamento ele vai acabar sozinho naquele ceuizinho dele...+ Tambm no precisava. Amava os bichos, as rvores, os peixes, 
as pessoas.

O fim da vida foi triste. Um acidente vascular cerebral operou estranhas transformaes na cabea dele. Um dia, eu me lembro, por volta das 2 da tarde, ele se ps 
a mexer no guarda-roupas. +-Que  que o senhor est procurando, pai?+, eu perguntei. Ele respondeu: +-Um terno preto. Voc no est ouvindo o repicar fnebre dos 
sinos?+ S que no havia sinos repicando. Os sinos que repicavam eram os sinos que havia dentro da alma dele. A alma  um campanrio. 

Todo mundo pergunta sobre o sentido da +terceira margem do rio+, no conto do Guimares Rosa. Se quiserem a resposta, perguntem ao meu pai. Ele sabia.

Mas o dia 21 de abril  tambm aniversrio da morte de Abelardo, o famoso filsofo medieval, mais famoso e amado por sua paixo que por sua filosofia. Apaixonou-se 
por Heloisa, sua aluna, com quem teve um filho, e por cuja causa foi castrado pelo tio dela, o que fez com que ambos entrassem para mosteiros onde passaram o resto 
de suas vidas amando a fantasia do amor que no puderam viver. Esto enterrados em Paris. Uma rvore faz sombra para o seu tmulo. Entre os objetos onricos que 
compem o meu consultrio esto dois ramos dessa rvore. 




"BEM-AVENTURADOS OS QUE ESTO FARTOS PORQUE ELES TERO FOME DE NOVO!" 

Duas tristezas. A primeira  no ter fome quando a comida est servida na mesa. O nome dessa tristeza  depresso. A segunda  ter fome quando no h comida na mesa. 
Isso no  depresso.  tristeza mesmo. Entre essas duas tristezas, a vida acontece. O encontro entre fome e comida tem o nome de alegria. A fome  mgica. Ela tem 
o poder de dar sabor a qualquer comida. "A melhor comida  angu com fome", diz ao ditado popular. Um amigo meu, o aviozinho em que ele viajava caiu nas matas da 
serra do mar. Ele e o companheiro ficaram perdidos por dois dias, sem comer. Quando encontraram uma tapera de gente pauprrima, a mulher lhes fez, para comer, a 
nica coisa que tinha: fub mexido e cozido com gua, angu. Quando o angu ficou pronto, ele nem esperou pela colher: atacou o angu com as mos. Nunca mais comeu 
coisa to gostosa... A vida comea com a fome. Para o nenezinho recm-nascido, que nada sabe, o mundo - mundo  tudo o que est fora do seu corpinho -  comida. 
O seio da me  o resumo do mundo. Quando a fome chega ele chora. O choro  a forma que o corpo tem de dizer que ele, corpo, no se basta: falta algo. Essa  a primeira 
lio de filosofia. Somos, fundamentalmente, no "pensamento", como pensava Descartes, mas fome. "Tenho fome, portanto sou". Da a afirmao de Feuerbach, filsofo 
que pensava com o corpo e no com a cabea: " O homem  aquilo que ele come". A vida comea na boca. A vida comea no seio. A boca sugando o seio: essa  a primeira 
lio de ertica. Essa  a primeira maneira de fazer amor. Disse-me um pediatra que os gemidos que faz a criancinha ao mamar so idnticos aos gemidos dos amantes 
abraados fazendo amor. A vida  uma transformao da boca. Na criancinha, os sentidos esto adormecidos. eles estavam adormecidos, como a Bela. Acordados, todos 
eles vo se transformando em boca. Olho vira boca, ouvido vira boca, nariz vira boca, pele vira boca. Todos tm fome do mundo. Todos querem comer o mundo. Sobre 
isso os mdicos, que se dizem conhecedores do corpo, nada sabem. Pensam que  s a boca que come. Os poetas sabem mais. Dizia Neruda: " Sou onvoro de sentimentos, 
de seres, de livros, de acontecimentos, de lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar." A vida  uma transformao do seio. Na boca do nenezinho o seio s jorra 
leite. Mas,  medida que ele vai crescendo, o seio vai se transformando. Dele outras coisas comeam a jorrar. Os gregos diziam que do seio jorram estrelas: a Via 
Ltea nasceu de um esguicho de leite que saiu do seio de uma deusa. Mas do seio esguicham outras coisas: jardins, mares, rios, montanhas, nuvens, msicas, perfumes, 
toques, risos, rostos... Se Deus no ficar bravo comigo proponho um acrscimo s palavras de Jesus, no "Sermo da Montanha", uma outra bem-aventurana.  sabido 
que Jesus disse: "Bem-aventurados os que tm fome porque sero fartos." Eu acrescentaria: "Bem-aventurados os que esto fartos porque eles tero fome de novo!" Pois 
poder haver desgraa maior que deixar de ter fome? Estar farto, no ter mais fome  o tdio, o enfado, a impotncia. Quem no tem fome est condenado a no ter 
alegria. Todas essas coisas sobre a fome, eu as disse a propsito de um casal de amigos. Esto completando 50 anos de casados. Sobre eles j falei. O Jether  aquele 
que no teve coragem de comprar um blazer vermelho. Eu o vi comendo o blazer com os olhos. Era muito bonito. Mas algo o proibiu. Dieta. Naquele tempo ele era um 
adulto srio. Ficou com medo de que os outros achassem que um blazer vermelho era pimenta demais na comida de algum da terceira idade. Quem faz 50 anos de casado 
no pode ser muito jovem. Mas os dois, Jether e Luclia, so o casal mais jovem que conheo. Vo pela vida afora como crianas numa loja de brinquedos: tudo os encanta, 
tudo provoca risos, tudo  motivo de brincadeira. Eles so jovens porque os dois foram abenoados por minha bem-aventurana: eles tm uma fome insacivel. A fome 
 o segredo da juventude. H muitos que completam 50 anos de casados por inrcia. Perderam a fome, deixaram de ser crianas, ficaram velhos mesmo, e foram ficando 
rancorosos, amargos, ranzinzas, rabugentos, intolerantes, reclames. Gostam mesmo  de falar sobre doena, tendo prazer especial em mtuas alfinetadas. De noite 
eles se assentam para ver televiso e no tm sobre que conversar. A, quando completam 50 anos de casados, fazem festa. Celebram o qu? O Jether e a Luclia completam 
50 anos de casados como dois namorados. "Namorados", na minha definio, so os amantes que ainda no ficaram srios, que continuam crianas. Vou contar uma molecagem 
do Jether, torcedor do Botafogo, como eu. Molecagem que teve a Luclia como cmplice. Um filho deles, esposa e dois netos, meninos de 9 e 7 anos, foram morar na 
Inglaterra. A Luclia, cheia de saudades, ia visit-los. Era o tempo de Copa do Mundo. Saiu a lista dos jogadores convocados para a seleo, pgina inteira do jornal. 
Na coluna esquerda, as fotos dos jogadores, uma debaixo da outra. Ao lado de cada foto, um comentrio tcnico sobre o craque. O Jether teve uma idia marota, brincadeira 
com os netos. Cortou a foto de um jogador. No seu lugar colou sua prpria foto, devidamente encolhida. A seguir, o comentrio, algo mais ou menos assim: "Jether 
Pereira Ramalho, grande revelao do Botafogo. Dono de uma tcnica impecvel e de uma experincia nica, vai ser o crebro da seleo brasileira" : tudo em letras 
idnticas s do jornal. A seguir fez uma cpia xerox e pediu que a esposa levasse a dita folha para os netos. Foi o que ela fez, sem nenhum comentrio. Os garotos 
ficaram excitadssimos com as notcias sobre a Copa do Mundo. Comearam a ler at que chegaram  notcia inslita: "Nossa! O vov! O vov foi convocado para a seleo!" 
A av engoliu o riso, se conteve. Mas a um deles notou algo estranho: " U! Por que  que o vov est de gravata e palet?..." Jether e Luclia no perdem cinema. 
Vm todos os filmes bons que h para ver, especialmente os de arte. Foram eles que me aconselharam a ver "A lanterna vermelha". Foram eles que pela primeira vez 
me contaram sobre "A Festa de Babette". No perdem concerto de msica clssica, especialmente piano. E nem show de msica popular. Adoram comer e beber. Luclia 
 uma maravilhosa Babette cujos olhos brilham ao ver um doce. No perdem chances de viajar: a vida  curta, "tempus fugit", "carpe diem". J viraram o mundo de cabea 
para baixo, sem nunca perder tempo com compras em shopping-centers para exibir para os invejosos. Faz pouco tempo foram visitar os campos da tulipas na Holanda e 
as geleiras no sul do Chile onde tomaram uisque de 12 anos com gelo de geleira de 30.000 anos. Alm disso, o Jether  companheiro de banhos de cachoeira e mergulhos 
em lagos de gua gelada. E, ao mesmo tempo, esto comprometidos de corpo e alma com as lutas por um mundo melhor. Partilhamos de uma mesma tradio, que amamos. 
Somos protestantes. Mas  dessa tradio que nos vem um arrependimento comum. No por pecados que tenhamos cometido. Mas por pecados que deveramos ter cometido. 
Em tempos passados aprendemos na igreja (nisso catlicos e protestantes so iguais) que Deus fez a fome, Deus fez a comida, e Deus deu a proibio. Segundo a teologia 
clssica, Deus gosta mesmo  de jejum e de fazer a gente sofrer. Se no fosse assim, no teria feito nem a fome e nem a comida. Felizmente acordamos a tempo do nosso 
erro: Deus  a grande Babette universal. Quer mesmo  ver o sorriso de criana da gente diante do grande banquete que  o mundo. Temos s tristeza pelo tempo perdido. 
E juramos no mais perder tempo. Comeremos de tudo o que  bom e bonito com fome insacivel. E agora eu rezo por vocs a reza da Adlia Prado: " No quero faca nem 
queijo. Quero  fome!" Comer  bom, quando no se est sozinho. Felizes so vocs que sempre comeram juntos. Que a fome seja sua eterna companheira, at o fim. Para 
que vocs continuem crianas. Amm. `...eles tm uma fome insacivel. A fome  o segredo da juventude.' `Temos s tristeza pelo tempo perdido. E juramos no mais 
perder tempo.' 




ESCUTATRIA, DE NOVO...

O que as pessoas mais desejam  algum que as escute de maneira calma e tranquila. Em silncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse voc..." A gente ama 
no  a pessoa que fala bonito.  a pessoa que escuta bonito. A fala s  bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta.  na escuta que o amor comea. 
E  na no escuta que ele termina. 

No aprendi isso nos livros. Aprendi prestando ateno. Todos reunidos alegremente no restaurante: pai, me, filhos, falatrio alegre. Na cabeceira, a av, com sua 
cabea branca. Silenciosa. Como se no existisse. No falava por no ter o que dizer. Falava por no ter quem quisesse ouvir. O silncio dos velhos. No tempo de 
Freud as pessoas procuravam os terapeutas para se curarem da dor das represses sexuais. Aprendi que hoje as pessoas procuram os terapeutas por causa da dor de no 
haver quem as escute. No pedem para serem curadas de alguma doena. Pedem para serem escutadas. Querem a cura para a dor da solido. 

Acho bonito o Taoismo, filosofia oriental. Para saber como ele  basta ler os poemas de Alberto Caeiro. O Taoismo  um jeito de olhar para o mundo. So muitos os 
jeitos de olhar para o mundo. Cada jeito, cada mundo. O Taoismo diz que o mundo  feito de encaixes. Tudo vem aos pares. O que no tem par no existe. Tudo  macho 
e fmea: Iang, In. Quando as duas partes do par se encaixam faz "clac"  e a felicidade acontece. 

Para haver encaixe  preciso que cada parte seja incompleta. Se as partes fossem completas os encaixes no seriam possveis e nem necessrios. Como num quebra-cabeas. 
Cada pea tem de ter um buraco. Esse buraco  para nele se encaixar um "pleno" da outra pea.. Se tal buraco no existir, o encaixe no pode acontecer. O quebra-cabeas 
fica frouxo, solto, desmancha. Mas no acredite nessa palavra "pleno", que usei. Usei por falta de outra. "Pleno" sugere algo completo, em que nada falta. Mas a 
verdade  outra. Todo "pleno"  um buraco visto pelo avesso. Quando o buraco e o pleno se juntam acontece o encaixe. ( Quem j montou quebra-cabeas sabe do prazer 
quase ertico que se sente ao fazer uma pea se encaixar na outra. Como se fosse uma metfora sexual. Confirmao do Taoismo.) . Viver  montar um quebra-cabeas. 
Viver  procurar encaixes. 

Acho que os taoistas aprenderam isso observando a boca de um nenezinho sugando o seio da me. A boca  um vazio. Sem nada saber ela j sabe sobre os encaixes. Suga 
o vazio. Seus movimentos ritmicos so a primeira forma de orao, sem palavras. Orao  o vazio que espera. A boca vazia ora pelo "pleno" que a satisfar: o seio 
da me. Mas o "pleno" do seio da me  tambm orao: quer uma boca que o sugue. Quando boca e seio se encontram o encaixe acontece.  a felicidade. O vazio de um 
 o pleno do outro. O vazio de um  a felicidade do outro. 

Assim  o amor. A tristeza amorosa  o vazio desejando o pleno. Scrates inventou um mito para explicar o amor. Disse que Eros nasceu do casamento entre "Pobreza" 
e a "Plenitude". O amor  um buraco na alma. Quem ama  pobre. Falta alguma coisa. Pea desencaixada do quebra-cabeas. O sentimento amoroso  a nostalgia pelo pedao 
que me falta, "pedao arrancado de mim." Assim so o masculino e o feminino. 

O masculino  o pleno que ora pelo vazio que o abraar. O feminino  o vazio que ora pelo pleno que nele se encaixar. Quando os amantes se abraam e as peas se 
interpenetram, os corpos se encaixam, como no quebra-cabeas. Todo ato de amor  uma realizao efmera de uma unidade original perdida. 

Assim so o Iang e o In, o pleno e o vazio, seio e boca, o masculino e o feminino, a fala e a escuta. 

A fala  masculina: o pleno, semen, semente, penetrao ("fodere", em latim, quer dizer cavar), ejaculao. Segundo o Aurlio, essa palavra, ejaculao, que  usada 
normalmente para designar o jato de esperma, significa tambm "proferir, dizer em voz alta". Ejacular esperma e falar so a mesma coisa. 

O ouvir  feminino. O pnis ereto  uma pobreza.  uma splica, uma orao por uma vagina que o acolha. A semente, para germinar, precisa de um buraco na terra que 
a acolha. A fala  pobre, falta. Procura o vazio do ouvido. A ejaculao da fala, masculina, acontece num momento. Mas a germinao da escuta, feminina demanda tempo 
e silncio. 

Para ouvir no basta ter ouvidos.  preciso parar de ter boca. Sbia, a expresso: "Sou todo ouvidos". Todo ouvidos; deixei de ter boca. Minha funo falante, masculina, 
foi desligada.. No digo nada. Nem para mim mesmo. Se eu dissesse algo para mim mesmo enquanto voc fala seria como se eu comeasse a assobiar no meio do concerto. 
Fao, para ouvir voc, o mesmo silncio que fao para ouvir msica. 

Vou agora lhe revelar o segredo da escuta. Quando era iniciante na arte da psicanlise tratava de prestar a maior ateno naquilo que o cliente me estava dizendo. 
Levou tempo para que eu percebesse quem quem presta muita ateno no que  dito no consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras. Fernando 
Pessoa, essa distrao dos deuses, sabia disso e escreveu. Est num poema que ele dirigiu a um poeta. O poeta  um falador. Constroi objetos com palavras. A esse 
poeta, cujo negcio  falar, ele diz: "Cessa o teu canto. / "Cessa, porque enquanto / o ouvi, ouvia / uma outra voz / como que vindo nos interstcios / do brando 
encanto/ com que o teu canto/ vinha at ns./ Ouvi-te e ouvi-a / No mesmo tempo / E diferentes / Juntas a cantar. / E a melodia / Que no havia / Se agora a lembro, 
/ Faz-me chorar." 

Preste ateno no que est escrito. Fernando Pessoa diz que a fala tem duas partes. A primeira so as palavras que so ditas: a letra. A segunda  uma melodia que 
se faz ouvir nos interstcios da fala: a msica. A letra  coisa do consciente, cerebral. A msica  coisa do corpo, inconsciente. Aquilo a que a psicanlise d 
o nome de inconsciente  a msica do corpo. Quem diz a letra no percebe que est cantando. 

Tem havido tentativas de produzir uma fala que seja s letra, sem a msica. A cincia e a filosofia tm se esforado por esse ideal  uma fala da qual o corpo do 
que fala esteja ausente. Fala sem alma, s informao. A voz metlica, montona, indiferente, de rob, dos servios de alto-falantes dos aeroportos,  uma expresso 
sensvel desse ideal desumano. Voc poderia imaginar um dilogo de amor com esta fala? No existe voz humana que no tenha msica. 

A Fernando Pessoa diz que a letra no tem importncia. No  nela que se encontra aquilo que importa escutar. Pede at ao poeta que pare de falar porque a fala 
dele atrapalha ouvir a melodia... Esse  o absurdo segredo da escuta:  preciso no escutar o que se diz para se poder ouvir o que ficou no dito, a msica.  na 
msica que mora a verdade daquele que fala. 

Assim, se voc quiser ouvir bem, no preste muita ateno na letra. Esquea as lies da hermenutica, a cincia da interpretao dos sentidos. Aprenda a sentir 
a msica. Todos os tipos de msica, do tam-tam dos tambores a Boulez. Porque o que os compositores fizeram foi s fazer tocar em instrumentos aquilo que era tocado 
pelo corpo. Parafraseando Uexkll: "Todo corpo  uma melodia que se toca." Seria bom se, nos cursos de psicologia, se lesse menos livros e se ouvisse mais msica. 




EM DEFESA DAS RVORES

Estava eu na sala de espera do meu mdico trabalhando absorto no meu laptop para matar o tempo, os "oclinhos" de ver perto na frente dos olhos, ao longe tudo era 
um borro quando, de repente, um borro alto se colocou  minha frente, baixei os "oclinhos" para ver  distncia: era um homem que conheci menino, de precoce vocao 
cientfica, posto que menino ainda, se comprazia em experimentos incendirios com gases mal cheirosos. Depois dos cumprimentos de praxe e sem mais delongas ele disse: 
"Rubem, escreva uma crnica em defesa das rvores." Havia indignao em sua voz e ele relatou: 

"Havia, no terreno do meu vizinho, um ip maravilhoso, rvore muito velha, tronco grosso, que anualmente produzia uma florao cor-de-rosa, para espanto e felicidade 
de todos. Pois, sem maiores avisos, o tal vizinho cortou o ip. Fiquei indignado e fui saber das razes do assassinato. Que mal lhe teria feita aquela rvore mansa? 
E ele me explicou que as razes do velho ip estavam rachando o seu muro de tijolos e argamassa. Um ip que leva cinqenta anos para crescer cortado por causa de 
um muro que se constri num dia! A lhe perguntei: "Por que no me falou? Eu teria pago a reconstruo do seu muro..." 

E concluiu: "Voc escreve uma crnica?" Tive uma reao desanimada. Lembrei-me das palavras tristes do Vincius no seu poema "O Haver", em que fala da "sua intil 
poesia". Sinto assim, de vez em quando, que aquilo que escrevo  intil. Os que tm poder nem lem e se lem no levam a srio. As razes que movem a poltica so 
as razes dos machados e das serras; no so as razes da beleza. Escrever, para qu? Para sensibilizar o vizinho que gosta mais de um muro que de um ip? O que 
eu escrevesse s encontraria eco naqueles que amam mais os ips que os muros. Mas, nesse caso minha escritura seria desnecessria. E para os que amam mais os muros 
que os ips ela seria intil. A me lembrei de um poema de Chuang-Tzu, escrito sculos antes de Cristo: "Eu sei que no terei sucesso. Tentar forar os resultados 
somente aumentaria a confuso. No ser melhor desistir e parar de me esforar? Mas, se eu no me esforar, quem o far?" As palavras do sbio foram uma repreenso 
ao meu desnimo. Comecei a pensar. Lembrei-me de fato semelhante acontecido na minha rua. Havia um ip amarelo que florescia no ms de julho. O cho ficava dourado 
com suas flores. Mas a dona da casa em frente ao ip e a sua incansvel vassoura deram o nome de "sujeira" ao dourado das flores cadas. 

E, um belo dia, a rvore amanheceu com um anel cortado na sua casca. As veias pelas quais sua seiva circulava haviam sido seccionadas durante a noite. O ip morreu. 
A vassoura triunfou. H pessoas cujas idias nascem da vassoura. Visitando um amigo que mora num condomnio rico de Campinas alegrei-me vendo que ele era todo arborizado 
com magnlias. As flores das magnlias so quase insignificantes. Mas o perfume  maravilhoso. Quem respira o perfume de uma magnlia tem a alma tocada pelo divino. 
A o meu amigo apontou para uma casa do outro lado da rua. L no havia magnlias. E explicou: "A dona da casa disse que dava muito trabalho varrer as folhas que 
caam no cho." Agora mesmo, a um quarteiro de onde escrevo, havia trs daquelas rvores que se chamam "Chapu de Sol", de folhas largas e sombra generosa. Pois 
a dona da casa mandou cortar todos os galhos das trs, ficando s os toquinhos. Ficaram parecidas com cabides de pendurar chapu. Mas as rvores no guardam rancor. 
Trataram de continuar a viver - e nos toquinhos surgiram brotos verdes, como um gesto de perdo. Percebendo que as rvores insistiam em viver, ela mandou que todos 
os brotos fossem arrancados. 

Quando as serras da CPFL mutilaram as velhas paineiras da Orosimbo Maia, que todos amavam, houve uma onda de indignao que ocupou as manchetes do Correio Popular. 

Pois um leitor escreveu aborrecido porque o jornal perdia tanto tempo com uma coisa sem importncia como rvores. O prazer em cortar rvores, me parece, est ligado 
 volpia do poder. Quem corta, tortura ou mata experimenta o prazer de exercer poder sobre o mais fraco. Mas acho que o prazer em cortar rvores est ligado a uma 
coisa mais sinistra. Suspeito que estejamos vivendo um momento de metamorfose da nossa condio humana. At agora temos sido habitantes do mundo da vida. Nosso habitat 
 constitudo por florestas, animais, rios e mares. Somos seres biolgicos, corpos. Mas agora estamos mudando de casa. Estamos trocando nossa casa biolgica por 
uma outra casa eletrnica. 

Faz tempo fiz a travessia dos lagos andinos - cenrios maravilhosos, entre lagos, vulces e florestas - passando por Bariloche e terminando em Buenos Aires. Em Bariloche 
fiquei conhecendo um casal que fazia o mesmo percurso com dois filhos adolescentes. Fui reencontr-los numa das ruas centrais de Buenos Aires. "Graas a Deus estamos 
aqui!", me disse o marido. "J no aguentvamos mais: s lagos, montanhas e rvores. Aqui, felizmente, temos os videogames." Virei Hulk na mesma hora e lhe disse: 
"Tomaram a excurso errada. Seu destino era Las Vegas!" Mas eles nada mais fizeram que expressar de forma grosseira o que j ficou normal. Nenhum adolescente troca 
um vdeo game por jardinagem. Nos filmes de fico cientfica do tipo "Guerra nas Estrelas" que emocionam milhes no h rvores: somente mquinas com inteligncia 
eletrnica. Nossas inteligncias esto cada vez mais ligadas aos vdeos e computadores e cada vez mais distantes da natureza. H crianas que nunca viram uma galinha 
de verdade, nunca sentiram o cheiro de um pinheiro, nunca ouviram o canto do pintassilgo e no tm prazer em brincar com terra. Pensam que terra  sujeira. No sabem 
que terra  vida. As nossas escolas - seria bom se elas ensinassem as crianas a amar as rvores. Chamar pelo nome e amar as paineiras, as sibipirunas, as magnlias, 
os pinheiros, as magueiras, as pitangueiras, os jequitibs, os ips, as quaresmeiras... Aprendi na escola que os homens so uma forma de vida mais evoluda que as 
rvores. Estou brincando com a possibilidade do contrrio: que as rvores sejam mais evoludas que ns. Se assim no fosse por que haveriam as Escrituras Sagradas 
de comparar o homem feliz com uma rvore plantada junto a ribeiros de guas? Com o que concorda Alberto Caeiro: "Sejamos simples e calmos como os regatos e as rvores, 
e Deus amar-nos- fazendo de ns belos como as rvores e os regatos..." Deus nos amar quando formos como as rvores! 

Ningum vai para o inferno. Os que no amam as rvores tambm vo para o cu. Mas, como todos sabem, o cu  o lugar onde se encontram as coisas que amamos. O lugar 
onde se encontram as coisas que no amamos  o inferno. Assim, para os que no amam as rvores, um lugar com bosques, florestas, flores e riachos seria o inferno. 
Eles no iro para o inferno de rvores. Iro para o seu cu sem rvores, pois  isso que eles amam. 

Moraro numa cidade planejada pelo Niemeyer onde tudo ser feito de concreto segundo formas geomtricas perfeitas, em nada semelhantes s coisas vivas. Os prdios 
do Congresso Nacional, em Braslia, so uma metade de esfera voltada para cima e uma metade de esfera voltada para baixo, sem janelas. Na cidade planejada pelo Niemeyer 
as rvores no sujaro as caladas com suas folhas e flores. As rvores sero de concreto, semelhantes aos cogumelos: uma esfera cortada pelo meio equilibrando-se 
sobre um cilindro. O bom disso  que no haver despesas com jardineiros. E as donas de casa no precisaro varrer a calada. 





CONCHAS OU ASAS?

O conhecimento pode dar prazer. 
O conhecimento pode dar sofrimento.
Quando o conhecimento d prazer a gente quer conhecer cada vez mais. Quando o conhecimento d sofrimento a gente quer conhecer cada vez menos. 

No incio da sua Metafsica Aristteles afirma que "todos os homens tm, naturalmente, um impulso para adquirir conhecimento." Isso  absolutamente verdadeiro em 
relaao ao conhecimento que d prazer. O prazer que Walt Whitman sentiu ao entrar para a escola foi to grande que ele lhe deu a forma de um poema: "Ao comear meus 
estudos / me agradou tanto o passo inicial, / a simples conscientizao dos fatos,/ as formas, o poder de movimento, o mais pequeno inseto ou animal, / os sentidos, 
o dom de ver, o amor / - o passo inicial, torno a dizer, / me assustou tanto, / e me agradou tanto, / que no foi fcil para mim passar / e no fcil seguir adiante, 
/pois eu teria querido ficar ali / flananado o tempo todo, / cantando aquilo / em cnticos extasiados." 

O conhecimento prazeroso  aquele que nos abre as janelas do mundo. Como se a gente estivesse viajando, e fosse vendo rvores, riachos, campos, vacas, cavalos, pssaros, 
casas, caminhos, nuvens... Conhecimento prazeroso  aquele que coloca diante de ns os cenrios do mundo, que vo dos ovos num ninho de beija-flor at galxias a 
milhes de anos luz de distncia. Diante dos cenrios que o conhecimento nos abre os olhos e a alma ficam abobalhados de assombro. Como os de Walt Whitman menino. 

Muitos sculos depois de Aristteles, no final do sculo XVIII, o filsofo Emanuel Kant escreveu um pequeno opsculo com o ttulo O que  o Iluminismo? em que ele 
faz uma exortao que Aristteles no entenderia. Ele diz: "Sapere Aude"- ouse saber! Mas como? Ningum vai dizer "ouse olhar no microscpio!", "ouse olhar no telescpio!" 
Olhar no microscpio e olhar no telescpio so atos curiosos que atendem  nossa inclinao natural. Acontece que Kant tinha conscincia de um tipo de conhecimento 
diferente daquele a que se referia Aristteles. Ele sabia que h um conhecimento que no  natural por exigir a virtude moral da ousadia. A ousadia . uma atitude 
de contrariar aquilo que  natural. Ousadia implica coragem, fazer o proibido, enfrentar o perigo, aceitar um desafio. D medo entrar numa floresta desconhecida. 
D medo escalar uma montanha perigosa. O impulso natural  recuar. Mas Kant diz: "Ouse conhecer! O que separa esses dois tipos de conhecimento?

O conhecimento a que se referia Aristteles  o conhecimento das coisas que esto separadas do meu corpo. Conhecimento que mora na cabea. Albert Camus, no seu livro 
O mito de Ssifo, observa que Galileu, que possuia um conhecimento astronmico da mais alta importncia, quando se viu ameaado pela Inquisio ( as igrejas crists 
sempre tiveram medo daqueles que conheciam o que elas no conheciam), negou o seu conhecimento, voltou atrs, desdisse.

Covardia? Camus diz que Galileu fez muito bem. Se o sol gira em torno da terra ou a terra gira em torno do sol  matria de profunda indiferena. Aquele conhecimento 
no valia a fogueira. A vida vale mais No entanto, ele continua, h pessoas que so capazes de morrer e matar pelas idias mais doidas. Por que? Porque essas idias 
lhes do razes para viver.

Idias que do razes para viver so aquelas idias que fazem parte do meu corpo. Eu sei que uma idia faz parte do meu corpo quando eu fico feliz ao v-la confirmada 
por outra pessoa .  bom ouvir algum dizer: "'E isso mesmo. Estou de acordo!" Quando duas pessoas confirmam uma mesma idia - elas conhecem o mundo do mesmo jeito 
- estabelece-se entre elas um pacto; tornam-se uma comunidade; so irms.  assim que se formam as comunidades religiosas, as confrarias, alguns partidos polticos 
do tipo do PT, as torcidas de futebol, os grupos de adolescentes. Mas sei tambm que uma idia  parte do meu corpo quando eu fico infeliz ao v-la contestada. Meu 
corpo treme. Fico com raiva.

Recuso-me a examinar logicamente o argumento daquele que a contesta. Preparo-me para a batalha. Se eu me preparo para sair, certo de que o cu est coberto de estrelas, 
e um amigo me informa que estou enganado porque comeou a chover, eu posso ficar triste com o fato, mas no vou brigar para provar que o cu est estrelado. Vou 
simplesmente  janela para confirmar o dito. Se for verdade, levo o guarda-chuvas. Mas se algum disser que  um bom negcio derrubar as florestas para ganhar dinheiro, 
eu vou ficar muito bravo. Pode at ser que seja bom negcio. Se no fosse, as madeireiras no cortariam rvores.

H pessoas cujos corpos so feitos de cifres. Seu corpo treme de felicidade ao ver a dana ascendente dos lucros. Acontece que os cifres no circulam no meu sangue. 
Mas o meu corpo  feito com rvores e riachos. So as rvores e os riachos que me do felicidade. Sabem o que eu fao quando a televiso mostra cenas de queimadas 
e devastaes de florestas? Eu desligo a televiso. Sei que  verdade, mas eu no quero saber. Recuso-me Contesto Aristteles.. Quero ignorar os fatos para que as 
rvores continuem de p.  necessrio, ento, enunciar o contrrio do dito pelo filsofo grego, e que  dito pela psicanlise: "todos os homens tm, naturalmente, 
um impulso para evitar o conhecimento."

Esse estranho comportamento se deve ao fato de que nossos corpos no so feitos s de carne e sangue; eles so feitos de palavras. Os moluscos tm corpos moles. 
Falta-lhes um esqueleto. Como proteo, eles produzem conchas duras dentro das quais se fecham. Somos como os moluscos. Frgeis diante de um mundo imenso e assustador. 
Tratamos, ento, de nos defender: construmos conchas duras de palavras. Conhecimento sobre o mundo? Tudo bem. Tudo  permitido. Nada assusta. Mas a daquele que 
tocar numa das palavras que fazem parte da minha concha. Nossa concha  sagrada. Na verdade, aquele mundo a que damos o nome de sagrado,  feito com as partes da 
nossa concha de palavras. A daquele que tentar negar, contestar, destruir uma dessas palavras! O corpo inteiro se mobiliza para a batalha . Ou para a retirada... 
Retirada  tambm uma ttica de guerra. Tapar os olhos, entupir o ouvidos, recusar-se a pensar.

Pensar  muito perigoso. As Sagradas Escrituras relatam um sonho em que aparecia uma esttua enorme, de ferro, com ps de barro. Basta um p de barro para que a 
esttua caia. O perigo do pensamento est em que ele venha a revelar que nossa esttua de ferro tem ps de barro: nossa concha  feita de gelatina. Se isso acontecer 
j no mais conseguiremos dormir em paz. 

Compreende-se, portanto, que contrariamente ao que disse Aristteles, a nossa tendncia natural seja a de evitar conhecimento. Os homens, naturalmente, esforam-se 
por no conhecer.

O corpo  sagrado. E sagradas so todas as coisas que esto vitalmente ligadas a ele. Pensar uma palavra sagrada  correr o risco de trincar a concha dura que protege 
o nosso corpo mole. Coisas sagradas que no devem ser pensadas so dolos. dolos no so para ser pensados. dolos so para ser adorados e usados. Compreende-se, 
portanto, a tendncia das pessoas religiosas de se recusarem a pensar sobre suas idias. Suas idias religiosas - e portanto os seus deuses - ficam fora do exerccio 
do pensamento. 


Mas eu no posso respeitar deuses que me proibam o exerccio do pensamento. Um deus que no sobrevive ao exerccio da inteligncia no pode ser deus.  um dolo 
de ps de barro. Mas eu amaria e respeitaria um Deus que no temesse o pensamento e que me dissesse, como desafio: "Ouse pensar!" Eu amaria e respeitaria um Deus 
que desafiasse os homens a abandonar suas conchas para se tornarem seres alados! 





ASAS PARA QUEM QUER VOAR... 

Eu me lembro, tinha uns seis anos, minha me me ps para dormir, no consegui, um fantasma futuro me dava muito medo e ansiedade, pensava que chegaria um dia em 
que eu cresceria, meu pai e minha me morreriam, eu ficaria sozinho no mundo, sem ningum para cuidar de mim, eu teria de tomar conta da minha vida, teria de trabalhar 
para ganhar dinheiro, mas o que  que eu poderia fazer? Comecei a chorar. Minha me me ouviu. Contei-lhe minha aflio. Mas as mes e os pais jamais imaginam o tamanho 
da aflio das crianas. Estava escuro. No vi o seu rosto. Mas sei que ela sorriu ao ouvir meu sofrimento. Os sofrimentos das crianas so sempre bobos para os 
grandes. E a, do fundo da minha aflio, imaginei duas alternativas. "J sei!", eu disse. "Poderei ganhar a vida rachando lenha ou mexendo com meus papis..." Quem 
rachava lenha para ns era o seu Z, trabalhava o dia inteiro, suando com seu machado, e ao final do dia ganhava uma pratinha de dois mil ris. Quem mexia com papis 
era meu pai, viajante, que estava sempre s voltas com pedidos que ele dactilografava (era assim que ele falava, "daquitilografar") em sua Smith-corona porttil. 
Assim eu vislumbrava o meu futuro, ou como rachador de lenha ou como viajante. Cresci. Nos mudamos para o Rio de Janeiro. A meus horizontes se expandiram. Havia 
outras possibilidades. Poderia fazer concurso para o Banco do Brasil, ser engenheiro ou ser mdico: contar dinheiro, fazer casas e pontes, dar receitas. Essas eram 
as possibilidades. Meu pai me empurrava para a engenharia, que ele achava a coisa mais importante do mundo. E assim fui, achando que seria engenheiro. Depois mudei 
de idia. Resolvi ser pianista. Estudei muito, no deu certo, eu no tinha talento. Os Norman Vincent Peale e Lair Ribeiro so enganadores: no  verdade que "querer 
 poder". Por mais que a tartaruga reze, Deus no vai lhe dar asas para ela voar como urubu. Resolvi ento ser mdico. At que teria conseguido. Eu era bom no cursinho. 
Mas a mudei de idia de novo. E assim eu fui pela vida, estourando que nem pipoca, a cada estouro eu ficava diferente. O que nunca me passou pela cabea  que algum 
dia eu seria escritor. Menino, eu gostava de ler. Adolescente, s lia gibis e X-9, revista policial que era o terror da minha me. Eu comprava escondido e escondia 
a revista debaixo do travesseiro. Nunca me preparei para ser escritor. Tanto que minha formao acadmica sobre o assunto  fraqussima. Quase nada sei sobre as 
cincias da escrita. No me perguntem sobre dgrafos, anlise sinttica e escolas literrias. Nunca me interessei. Achava tudo isso perda de tempo. Srio mesmo era 
construir pontes e fazer cirurgias. Na verdade, eu achava aqueles que se dedicavam  literatura uns vadios. Me tirem do pau-de-arara: eu confesso meu pecado, sou 
ignorante. Eu s sei escrever, sem saber as explicaes cientficas da minha escrita. Virei escritor num estouro de pipoca. Independentemente de vontade, planos 
e preparo. Pura graa. No me perguntem como escrevo. Diotima, sacerdotiza que deu aulas de sabedoria a Scrates, disse que todos ns estamos grvidos de beleza. 
A beleza est dentro da gente, querendo sair. E, de repente, chega a hora do parto e ela nasce. Assim aconteceu comigo, do jeito mesmo como acontece com a pipoca. 
Os telogos medievais se referiam a uma "igreja invisvel". Por oposio  igreja visvel, que  essa que a gente v com com bispos, romarias, pregaes e dogmas 
sobre cu e inferno. "Igreja invisvel"  o conjunto de pessoas, por esse mundo afora, gente que a gente nunca viu nem ver que, sem que a gente saiba, se comove 
com as mesmas coisas que a gente. Quem se alegra com a mesma coisa que me trs alegria  meu irmo. Quem chora pela mesma coisa que me faz chorar  meu irmo. Quem 
acha bonita a mesma msica que eu acho  meu irmo. H um verso de Fernando Pessoa que diz assim: "... E a melodia que no havia, se agora a lembro, faz-me chorar." 
Pois essa "igreja invisvel" (que nada tem a ver com igrejas, bispos e dogmas)  um coral que canta uma melodia inaudvel que enche o universo. Especialmente em 
momentos de grande solido a gente a ouve - e isso nos d grande alegria e nos faz chorar: no estamos ss. Pois  isso que tenho experimentado atravs da escritura. 
Na cincia, para se saber se a palavra  verdadeira,  preciso que haja pesquisas e provas. As evidncias se encontram fora das palavras. As palavras, sozinhas, 
no valem nada. Na literatura  o contrrio. A literatura so as palavras que fazem amor com a gente. Cada palavra  uma extenso da mo, um prolongamento dos dedos. 
A palavra nos toca, o corpo e a alma reverberam.  a reverberao do corpo e da alma que atestam a verdade da palavra. Literatura  um jeito de fazer amor  distncia. 
Por isso vivo repetindo queles que gostam das coisas que escrevo: "Vocs gostam do que escrevo no porque eu escreva coisas que vocs no sabem. Vocs gostam do 
que escrevo porque o que escrevo faz reverberar a beleza que estava dormindo em vocs." Palavra do Bernardo Soares: a arte  a comunicao s pessoas da nossa identidade 
ntima com elas. As crianas cantam uma cano, do-se as mos e brincam de roda. Um mesmo texto compartilhado  assim: atravs do espao invisvel damos as mos 
com pessoas que no conhecemos e brincamos de roda. Somos iguais. No estamos sozinhos.  a experincia de comunho. Parte da alegria de quem escreve  receber o 
eco das reverberaes: cartas. Cartas so documentos pessoais, confidncias. Mas eu quero compartilhar com vocs trechos de uma carta que recebi faz duas semanas. 
Afinal de contas, pertencemos  uma mesma confraria, uma mesma "igreja invisvel"... De uma jovem de 18 anos. Depois de um pargrafo introdutrio, ela escreve "Nasci 
normal... Mas a partir dos 12 anos comeou a se desenvolver em mim uma doena hereditria, chama-se Miopatia, distrofia muscular (D.M.C.). Essa doena aos poucos, 
progressivamente, vai atrofiando os nervos das pernas e dos braos e, por causa dessa doena minha coluna foi afetada, hoje eu mal consigo me locomover. Os mdicos 
disseram que essa doena no tem cura. Cada dia que passa me sinto mais fraca e no vejo sada. Sou to capaz mentalmente, mas meu corpo no me acompanha. ( ...) 
Eu no vejo mais razo para continuar nesse mundo. E eu tomei a deciso de me suicidar, j tinha tudo planejado, mas o seu livro me fez refletir e fui adiando.." 
"Tornamo-nos eternamente responsveis pela pessoa que cativamos" - palavras do Pequeno Princpe. Eu e a jovem nos demos as mos atravs do espao vazio invisvel. 
Fiquei me sentindo responsvel por ela, que nunca vi mas que j  parte de mim. Pensei, ento, que se ela tivesse acesso  Internet, ela poderia viajar pelo mundo 
sem sair de casa: visitar museus, bibliotecas, lugares distantes e, sobretudo, poderia se comunicar - especialmente com aqueles que tm a mesma doena que ela. Sua 
vida se tornaria mais bonita. E ela poderia "fazer amor" com outras pessoas e outros lugares, atravs da distncia. Pensei se ela teria recursos. No me atrevi a 
perguntar. Mas ela mesma me revelou, numa carta posterior, que mora numa escola de 1 grau da qual sua me  caseira. Pensei ento que h muitas pessoas e empresas 
que trabalham sempre com computadores do ltimo modelo, e que vo encostando os outros, que ficam inteis e sem valor. Por meio dessa crnica estou fazendo um pedido 
 minha "igreja invisvel". Se algum tiver um computador em bom estado e encostado, bem que poderia traz-lo de volta  vida, dando-o a essa jovem, como um rgo 
novo para que sua mente possa viajar pelo mundo! Sendo esse o seu caso,  s se comunicar comigo, e-mail rubem@correionet.com.br .  
"Quem se alegra com a mesma coisa que me trs alegria  meu irmo. Quem chora pela mesma coisa que me faz chorar  meu irmo" 
 "Parte da alegria de quem escreve  receber o eco das reverberaes: cartas". 




AS RAZES DO AMOR 

Os msticos e os apaixonados concordam em que o amor no tem razes. Angelus Silsius, mstico medieval, disse que ele  como a rosa : "A rosa no tem "porqus". 
Ela floresce porque floresce." 
Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razes do Amor.  possvel que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas 
do amor circulam com o vento. 

"Eu te amo porque te amo..." - sem razes... "No precisas ser amante, e nem sempre sabes s-lo." Meu amor independe do que me fazes. No cresce do que me ds. Se 
fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razes e explicaes. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada 
da terra. 
"Amor  estado de graa e com amor no se paga." 
Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor no  regido pela lgica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. 
Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo. 

"Amor  dado de graa,  semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionrios e a regulamentos vrios... Amor no se troca... Porque amor  amor a 
nada, feliz e forte em si mesmo..." 
Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. S os apaixonados acreditam que o amor seja assim, to sem razes. Mas eu, talvez por no estar apaixonado 
(o que  uma pena...), suspeito que o corao tenha regulamentos e dicionrios, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o corao tem razes que a prpria 
razo desconhece". No  que faltem razes ao corao, mas que suas razes esto escritas numa lngua que desconhecemos. 
Destas razes escritas em lngua estranha o prprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de h 10 mil anos se nem sei decifrar 
minha escrita interior? A verdade essencial  o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me d um soco." O amor ser isto: um soco que o desconhecido me d? 

Ao apaixonado a decifrao desta lngua est proibida, pois se ele a entender, o amor se ir. Como na histria de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade 
estar perdida. Foi assim que o paraso se perdeu: quando o amor - frgil bolha de sabo - no contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo 
de saber. O amor no sabia que sua felicidade s pode existir na ignorncia das suas razes. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicaes 
para o seu amor. A esta pergunta eles s possuem uma resposta: o silncio. Mas que se lhes pea simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falaro 
por dias, sem parar... 
Mas - eu j disse - no estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua lngua desconhecida. Procuro, ao contrrio do Drummond, 
as cem razes do amor... 

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confisses, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente a se encontre 
a anlise mais penetrante das razes do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que  que eu amo quando amo 
o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta  sua amada: "Que  que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estria de amor. Pois esta 
pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante est amando uma outra coisa que no  ela. Nas palavras de Hermann Hesse, 
"o que amamos  sempre um smbolo". Da, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra. 

Variaes sobre a impossvel pergunta: 

"Te amo, sim, mas no  bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que no conheo, mas que me parece ver aflorar no seu rosto. Eu te amo porque no teu 
corpo um outro objeto se revela. Teu corpo  lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios... Como Narciso, fico diante dele... No fundo de tua luz marinha 
nadam meus olhos,  procura... Por isto te amo, pelos peixes encantados..."(Ceclia Meireles) 

Mas eles so escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam. Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos. 

Eu te abrao para abraar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na iluso de os possuir. 

Tu s o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graa, sem razes, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graa, 
sem razes, da mesma forma como desceu poder de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomear de novo..." 

Esta  a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixo se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). 
A pessoa amada  metfora de uma outra coisa. "O amor comea por uma metfora", diz Milan Kundera. "Ou melhor: o amor comea no momento em que uma mulher se inscreve 
com uma palavra em nossa memria potica." 

Temos agora a chave para compreender as razes do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder - delicado - da imagem potica que o amante pensou ver no rosto da 
amada... 
(Crnica publicada no "Correio Popular", Campinas, em 14/05/92)




AOS VELHOS...
                                                        

O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relgio ou pode ser medido com as batidas do corao. Os gregos, mais sensveis do que ns, tinham 
duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relgio - embora eles no tivessem relgios como os nossos - eles 
davam o nome de "chronos". Da a palavra "cronmetro". O pndulo do relgio oscila numa absoluta indiferena  vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaos 
iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilho, indiferente  vida e  morte, ao riso e ao choro. Agora os cronmetros partem o tempo 
em fatias ainda menores, que o corpo  incapaz de perceber. Centsimos de segundo: que posso sentir num centsimo de segundo? Que posso viver num centsimo de segundo? 
Diz Ricardo Reis, no seu poema "Mestre, so plcidas..." (que todo dia rezo): "No h tristezas nem alegrias na nossa vida..." Estranho, que ele diga isso. Mas diz 
certo: o tempo do relgio  indiferente s tristezas e alegrias. H, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do corao. 

Ao corao falta a preciso dos cronmetros. Suas batidas danam ao ritmo da vida - e da morte. Por vezes tranqilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo 
amor. D saltos. Tropea. Trina. Retorna  rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de "kairs" - para o qual no temos correspondente: nossa civilizao 
tem palavras para dizer o tempo dos relgios: a cincia. Mas perdeu as palavras para dizer o tempo do corao. "Chronos"  um tempo sem surpresas: a prxima msica 
do carrilho do relgio de parede acontecer no exato segundo previsto. "Kairs", ao contrrio, vive de surpresas. 

Nunca se sabe quando sua msica vai soar. Foi o aniversrio da Mariana, minha neta. O relgio me diz, com preciso, o nmero de segundos decorridos desde o seu nascimento. 

Mas o meu corao nada sabe sobre esses nmeros. E, se souber, os nmeros no me diro nada. Quando eu me lembro,  como se tivesse acabado de acontecer. Disso sabia 
o Riobaldo, heri do Grande Serto - Veredas, jaguno. Sabia, sem saber, que "chronos" no se mistura com "kairs": "A lembrana da vida da gente se guarda em trechos 
diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem no misturam. Contar seguido, alinhavado, s mesmo sendo as coisas de rasa importncia. 

Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data." O Srgio, meu filho, pai da Mariana, me contou que olhando para uma fotografia 
dela, quase mocinha, de repente compreendeu que estava ficando velho. Claro que ele sabe da idade dele.  s fazer as contas. Quem sabe somar e multiplicar tem a 
chave para entender as medies de "chronos". Alm disso, havia o espelho: na sua imagem refletida esto as marcas da passagem do tempo, inclusive o cabelo, j branco, 
antes da hora. Mas o corao dele ainda no havia percebido. Corao no entende "chronos". Corao entende vida. Foi o fotografia da filha, menina que j tem nove 
anos, que de repente lhe produziu "satori": o terceiro olho dele se abriu, ele ficou iluminado: viu-se velho. Sentiu que o tempo passara pelo seu prprio corpo, 
deixando-o marcado. E chorou. Riobaldo de novo: " Toda saudade  uma espcie de velhice". Velhice no se mede pelos nmeros do "chronos"; ela se mede por saudade. 
Saudade  o corpo brigando com o "chronos". De novo o mesmo poema do Ricardo Reis: ele fala do "... deus atroz que os prprios filhos devora sempre". "Chronos"  
o deus terrvel que vai comendo a gente e as coisas que a gente ama. A saudade cresce no corpo no lugar onde "chronos" mordeu.  um testemunho da nossa condio 
de mutilados - um tipo de prtese que di. "Kairs" mede a vida pelas pulsaes do amor. O amor no suporta perder o que se amou: a filha nenezinho, no colo, no 
meu colo, nenezinho e colo que o tempo levou - mas eu gostaria que no tivessem sido levados! Esto na fotografia, essa inveno que se inventou para enganar o "chronos", 
pelo congelamento do instante.  "Chronos" me diz que eu nada possuo. Nem mesmo o meu corpo. Se no possuo o meu prprio corpo - o espelho e a fotografia confirmam 
- como posso pretender possuir coisas com esse corpo que no possuo? Herclito foi um filsofo grego que se deixou fascinar pelo tempo. Ele era fascinado pelo rio. 
Contemplava o rio e via que tudo  rio. Como Vaseduva, o barqueiro que ensinou Sidarta. Percebeu que no  possvel entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez 
as guas sero outras, o primeiro rio j no existir. Tudo  gua que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as rvores, os animais, os filhos, o corpo... Assim 
 tudo, assim  a vida: tempo que flui sem parar. Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmticos. Dentre eles, um me encanta: "Tempo 
 criana brincando, jogando."  Tempo  criana? O que o filsofo queria dizer exatamente eu no sei. Mas eu sei que as crianas odeiam "chronos", odeiam as ordens 
que vm dos relgios. 

O relgio  o tempo do dever: corpo engaiolado. Mas as crianas s reconhecem, como marcadores do seu tempo, os seus prprios corpos. As crianas no usam relgios 
para marcar tempo; usam relgios como brinquedos. Brinquedo  o tempo do prazer: corpo com asas. Que maravilhosa transformao: usar a mquina medidora do tempo 
para subverter o tempo. Criana  "kairs" brincando com o "chronos", como se ele fosse bolhas de sabo... O ano chega ao fim. Ficou velho. "Chronos" faz as somas 
e me diz que eu tambm fiquei mais velho. Fao as subtraes e percebo de que me resta cada vez menos tempo.. Fico triste: saudade antes da hora. A Raquel, quando 
tinha trs anos, me acordou para saber se quando eu morresse eu iria ficar triste! Lembro-me do verso da 

Ceclia, para a av: " Tu eras uma ausncia que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se..." A "kairs" vem em meu socorro, para espantar a tristeza. Me diz 
que o tempo  uma criana. Me convida a brincar com "chronos". Brinquedo  tempo sem passado, tempo sem futuro, presente puro - a eternidade num momento. "Que no 
seja eterno, posto que  chama, mas que seja infinito enquanto dure": Vincius escreveu esse verso para a namorada. Mas  verdadeiro para toda a vida. Afinal de 
contas, a vida tem de ser uma namorada. O amor vale pelo momento. No se mede pelo nmero das batidas do relgio. No se mede pelo nmero de anos vividos. Cada momento 
de brinquedo  uma eternidade completa. Nesse 31 de dezembro, quando "Chronos", deus atroz, escancarar a sua bocarra para me devorar, dizendo que estou velho, eu 
me rirei dele: virarei criana, comearei a brincar e ele fugir com o rabo no meio das pernas...        




AOS APAIXONADOS

Dedico esta crnica aos apaixonados, mesmo sabendo que servir para nada.  intil falar aos apaixonados. Os apaixonados s ouvem poemas e canes. A paixo, experincia 
insupervel de prazer e alegria, pelo fato mesmo de ser uma experincia insupervel de prazer e alegria, coloca o apaixonado fora dos limites da razo. Todo apaixonado 
 tolo. 

Pode ser que ele escute a fala da razo. Escuta mas no acredita. Diz ele: "O meu caso  diferente!" Tolo mesmo  quem tenta argumentar com os apaixonados. 


Comeo minha intil meditao com um verso terrvel de T. S. Eliot. Ele est rezando. Ele sabe que somente Deus tem poder para lidar com a loucura da paixo. Ele 
reza assim: "... e livra-me da dor da paixo no satisfeita, e da dor muito maior da paixo satisfeita." 


Todo mundo sabe que paixo no satisfeita di. Mas poucos sabem que a paixo s existe se no for satisfeita. A paixo  um desejo de posse que, para existir, no 
pode se realizar. 

Como a fome: depois do almoo a fome acaba... 


Paixo  fome. Ela s floresce na ausncia do objeto amado. Mais precisamente, ela vive da ausncia do objeto amado. No se trata de ausncia fsica, o objeto amado 
distante, longe. A dor da ausncia fsica tem o nome de saudade. Saudade tem cura. A saudade  curada quando o objeto volta. A dor da paixo  diferente. No tem 
cura. A saudade do objeto amado, mesmo quando ele est presente,  o perfume caracterstico da paixo. 

Cassiano Ricardo sabia disso e escreveu: "Por que tenho saudade/ de voc, no retrato, ainda que o mais recente?/ E por que um simples retrato,/ mais que voc, me 
comove, se voc mesma est presente?" Que coisa mais esquisita! Como pode ser isso? Como se pode sentir saudade de algo que est presente? A resposta  simples: 
a gente sente saudades de uma pessoa presente quando ela est se despedindo. Ceclia Meireles, desenhando sua av morta, a quem ela muito amava, disse: "Tu eras 
uma ausncia que se demorava; uma despedida pronta a cumprir-se." Diro: " natural, um dia ele possuir o objeto da sua paixo." Mas a "dor muito maior" da paixo 
satisfeita no tem mais esperanas. O objeto se desfez. Ela vive na tristeza do objeto perdido. 


Escrevi uma estria sobre isso. A Menina era apaixonada pelo Pssaro Encantado. Mas ela sofria porque o Pssaro era livre. O Pssaro Encantado era sempre uma ausncia 
que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se. O Pssaro lhe disse que era preciso que fosse assim, para que eles continuassem apaixonados. Ele sabia que a 
paixo so ama pssaros em vo. Mas a Menina no acreditou. Prendeu-o numa gaiola. 


Gaiola? H as feitas com ferro e cadeados. Mas as mais sutis so feitas com desejos.

Esquisito o que vou dizer: a alma  uma biblioteca. Nela se encontram as estrias que amamos. "Romeu e Julieta", "Abelardo e Helosa", "O paciente ingls", "As pontes 
de Madison", "Amor nos tempo do clera", "A menina e o pssaro encantado". As estrias que amamos revelam a forma do nosso desejo. Delas, escolhemos uma.  a nossa 
gaiola. 

Gaiola na mo, samos pela vida  procura do nosso Pssaro. Quando imaginamos hav-lo encontrado - que felicidade! Ficar feliz em nossa gaiola. Ser o amante da 
nossa estria de amor: eu pra voc, voc pra mim... Ns o colocamos l dentro e pedimos que nos cante canes de amor.


Acontece que o Pssaro tambm tinha a sua estria. E era outra. Todo Pssaro deseja voar. Ele bate suas asas contra as grades, suas penas perdem as cores e o seu 
canto se transforma em choro. E, de repente, ele se transforma. No mais ele possuir o objeto da sua paixo. Mas a "dor muito maior" da paixo satisfeita no tem 
mais esperanas. O objeto se desfez. Ela vive na tristeza do objeto perdido.


Contada assim, a estria parece ter um vilo e uma vtima. A verdade  que os dois so viles, os dois so vtimas. O desejo da gente  sempre engaiolar o outro 
e lev-lo pelos caminhos que so nossos. Isso vale para tudo: marido-mulher, pai-filha, me-filho, patro-empregado, professor-aluno... No admira que Sartre tenha 
dito que "o inferno  o outro".

No haver uma sada. Lembro-me de um pequeno poema de Pearls sugere a possibilidade de uma relao sem gaiolas:

"Eu sou eu.
Voc  voc.
Eu no estou nesse mundo para atender s suas expectativas
E voc no est nesse mundo para atender s minhas expectativas. 
Eu fao a minha coisa.
Voc faz a sua.
E quando nos encontramos
 muito bom."
  











"ANTES QUE ELES CRESAM..." 

Escrevo para confessar um pecado: eu tive inveja. Inveja, todo mundo sabe que  coisa feia. Inveja  quando a gente fica triste vendo que uma outra pessoa tem uma 
coisa boa que gostaramos de ter mas no temos. A inveja verde - a mais terrvel de todas - mistura a tristeza com raiva e ficaria feliz se a outra pessoa perdesse 
aquilo de bom que ela tem. A inveja que tive no foi verde. Se comeou verde, ficou logo cor de abbora. Essa inveja me acomete quando leio certos autores: Bachelard, 
Octavio Paz, Manoel de Barros... Pois desta vez foi lendo uma crnica do Affonso Romano de Sant'Anna. Uma amiga, a Dbora, a encontrou na Internet, fez uma cpia 
e me enviou. Comecei a ler e,  medida que lia, a maldita inveja ia me coando. Que texto mais lindo! Ele disse tudo o que eu gostaria de ter dito mas nunca consegui! 
Eu gostaria de ter escrito o que ele escreveu - mas quem escreveu foi ele, e no eu. E a aconteceu o que acontece sempre quando leio Bachelard, 

Octavio Paz, Manoel de Barros: a tristeza de no escrever to bem quanto eles foi se transformando em alegria, comecei a rir, fui inundado de felicidade, agradecido 
de que haja no mundo pessoas que tm a alma parecida com a minha. Lembrei-me do dito pelo Bernardo Soares: "arte  comunicar aos outros a nossa identidade ntima 
com eles." 

Minha alegria ante a beleza e a verdade do texto me garantia: eu e o Affonso Romano de Sant'Anna somos iguais. Desejei, ento, que outros sentissem o mesmo que senti. 
Como eu no posso escrever nada melhor do que ele escreveu, resta-me apenas repetir o que ele disse. Telefonei  Dbora pedindo as referncias bibliogrficas. Ela 
no tinha porque o texto estava na Internet. Assim, publico sem licena do autor. Sei que ele compreender e me perdoar. Publico, dedicando-a aos meus filhos, s 
minhas netas, aos pais apressados e desatentos (um dia eles se arrependero de sua pressa e desateno). Mas eles se redimiro quando se tornarem avs...


"H um perodo em que os pais vo ficando rfos de seus prprios filhos.  que as crianas crescem independentes de ns, como rvores tagarelas e pssaros estabanados. 

Crescem sem pedir licena  vida. Crescem com uma estridncia alegre e, s vezes com alardeada arrogncia. Mas no crescem todos os dias, de igual maneira, crescem 
de repente. Um dia sentam-se perto de voc no terrao e dizem uma frase com tal maturidade que voc sente que no pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde 
 que andou crescendo aquela danadinha que voc no percebeu? Cad a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversrio com palhaos e o primeiro uniforme 
do maternal? A criana est crescendo num ritual de obedincia orgnica e desobedincia civil. E voc est agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela no 
apenas cresa, mas aparea! Ali esto muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos, soltos. Entre hambrgueres e refrigerantes 
nas esquinas, l esto nossos filhos com o uniforme de sua gerao: incmodas mochilas da moda nos ombros. Ali estamos, com os cabelos esbranquiados. Esses so 
os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notcias, e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando 
e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que no repitam. H um perodo em que os pais vo ficando um pouco rfos dos 
prprios filhos. No mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do ingls, da natao e do jud. Saram do banco de trs 
e passaram para o volante de suas prprias vidas. Deveramos ter ido mais  cama deles ao anoitecer para ouvirmos sua alma respirando conversas e confidncias entre 
os lenis da infncia, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, posters, agendas coloridas e discos ensurdecedores. No os levamos suficientemente 
ao Playcenter, ao shopping, no lhes demos suficientes hambrgueres e cocas, no lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaramos de ter comprado. Eles 
cresceram sem que esgotssemos neles todo o nosso afeto. No princpio subiam a serra ou iam  casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, pscoas, 
piscina e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar 
com os pais comeou a ser um esforo, um sofrimento, pois era impossvel deixar a turma a os primeiros namorados. Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solido 
que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes". Chega o momento em que s nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa 
hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade. E que a conquistem do modo mais completo possvel. 
O jeito  esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto  a hora do carinho ocioso e estocado, no exercido nos prprios filhos e que no pode morrer conosco. 
Por isso os avs so to desmesurados e distribuem to incontrolvel carinho. Os netos so a ltima oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso  necessrio 
fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresam." 




COITADO DO CORPO... 

Conheci um professor de educao fsica que defendia a tese de que atletismo faz mal  saude. E argumentava: "Voc conhece algum atleta longevo? Quem vive muito 
so aquelas velhinhas sedentrias que tomam ch com bolo no fim da tarde..." Quando ele me disse isso pela primeira vez lembrei-me logo de minha me. Antigamente 
a medicina tinha idias cientficas diferentes. Ah! Como as opinies da cincia so volveis! Pois o que os cientistas diziam naqueles tempos  que  preciso economizar 
energia. Baseavam-se em evidentes analogias tiradas das mquinas (hoje os cientistas continuam a usar o modelo da mquina para entender o corpo humano). 

Primeiro a analogia do desgaste: carro que anda demais fica velho logo. Funde o motor. 

Ningum quer comprar carro que j virou o velocmetro. Quem se movimenta demais logo 
gasta as juntas e msculos. O melhor  ficar na rede. E h a analogia do combustvel: se o carro rodar muito o combustvel acaba. Mas se ficar na garagem o combustvel 
no acaba. Vida  combustvel. Tem limite. Quem vive muito intensamente corre o risco de morrer mais cedo. O melhor  ficar parado. Meu tio, que era mdico, sentenciava: 

"Nunca fique em p quando puder ficar sentado; nunca fique sentado quando puder ficar deitado." Minha me seguiu rigorosamente o conselho do irmo. Morreu aos 93 
anos. 

Essa memrias me vieram quando li a notcia de que Florence Griffith Joyner havia sido fulminada por um infarto. Corpo fantstico, s msculos, a mulher mais rpida 
do mundo, detinha h dez anos os recordes mundiais dos 100 e dos 200 metros. Deveria ter 140 de colesterol, corao com msculos de ferro - impossvel que fosse 
morta por um infarto. Mas foi. 

O sentido original da palavra stress pertence  fsica, no campo da mecnica aplicada. O seu objetivo  determinar a resistncia de um material - o que  de fundamental 
importncia na construo de pontes, edifcios, avies. Para se determinar a resistncia de um material  preciso submet-lo a stress isto , a foras, at o ponto 
dele se partir. 

Tomo um tijolo, coloco-o numa prensa e submeto-o a presses. O ponto em que ele se partir ser o seu limite. Tomo um fio de nilon e vou aumentando o peso que ele 
tem de suportar. O momento em que ele se partir ser o seu limite. 

O atletismo  a aplicao, sobre o corpo humano, das tcnicas de stress para se determinar a resistncia dos materiais. O treino do atleta tem por objetivo aumentar 
a sua resistncia. A competio por por objetivo determinar o ponto alm do qual ele no consegue ir. H os testes de fora e compresso (os halterofilistas), de 
elasticidade (saltos de todos os tipos), de velocidade, de resistncia (por quanto tempo o corpo aguenta?). Os recordes estabelecem a performance mxima do corpo 
submetido  stress mximo. A competio  essencial ao atletismo porque  s atravs dela que se podem fazer comparaes. Comparo vrios materiais para determinar 
sua resistncia a um tipo de stress. Comparo vrios atletas por meio da competio para ver qual deles tem o melhor desempenho quando submetido ao stress mximo. 
O corpo da Florence Griffith Joyner no aguentou. Arrebentou como um fio arrebenta se seu limite  ultrapassado. Se o atletismo  isso a tese do professor de educao 
fsica a que me referi acima est plenamente justificada. 

O que move o atleta no  o prazer da atividade, em si mesmo. Se assim fosse, ele ficaria feliz em correr, nadar, saltar, sem precisar de comparar-se com outros. 
Mas depois de correr ele consulta o seu relgio. Est comparando o seu desempenho em relao aos outros. Quando a gente se envolve numa atividade por prazer a gente 
est brincando. No olha para o relgio.  o caso das crianas correndo - como potrinhos. Ou na gua: como golfinhos. O espao, representado pela grama, pela gua, 
pelo vazio,  o seu companheiro de brincadeira. A atividade ldica produz um corpo feliz. 

A competio, representada no seu ponto mximo pelas Olimpadas,  o oposto do brinquedo. Porque ela s acontece quando o corpo  levado ao limite do stress. E o 
corpo, mais sbio que os atletas, no gosta disso. Ele sabe que  perigoso chegar aos limites. O corpo no gosta de competies e Olimpadas. Competies e Olimpadas 
so situaes a que o corpo  submetido ao mximo stress. Ou seja, situao de mximo sofrimento do corpo. O corpo vai contra a vontade. Basta observar a mscara 
de dor no rosto dos que competem. A competio  uma violncia a que o corpo  submetido. A imagem mais terrvel que tenho dessa violncia  a daquela corredora 
sua, ao final de uma maratona, algumas olimpadas atrs. Chegando ao estdio o corpo dela no aguentou. Os cidos e a cansao o transformaram numa massa amorfa 
assombrosamente feia. Ele no queria continuar; desejava parar, cair. Mas isso lhe era proibido: uma ordem interna lhe dizia: obedea, continue at o fim. O pblico 
parou, perplexo. E ningum podia ajud-la. Se algum o fizesse ela seria desclassificada. O comentarista, comovido, louvava o extraordinrio esprito olmpico daquela 
mulher. Ele no compreendia o horror. De fato, o final do esprito olmpico  o corpo levado aos limites ltimos de stress. Aos limites do sofrimento. Como o corpo 
escultural de Florence Griffith Joyner. Haver coisa mais anti-corpo, mais anti-vida? A competio no  motivada por amor ao corpo e ao seu prazer. 

Na competio o espao no  companheiro de brincadeira,  inimigo a ser derrotado. O prazer de quem compete no se encontra na relao corpo-espao, mas no resultado: 
quem teve a melhor performance. O objetivo da competio  a comparao. E a comparao  o incio da inveja e da infelicidade humana. 

O atletismo no  uma atividade natural. Animais no competem. Nenhum tem interesse em saber qual  o melhor. Eles no se comparam. Animais correm por prazer: ces 
e cavalos correm e pulam por prazer. Mas quando no esto brincando, isto , quando no esto envolvidos no prazer da atividade, eles no fazem esforos desnecessrios. 
Os movimentos dos animais so determinados por um estrito senso de economia. S existe uma situao quando competem: ona e veado, gavio e coelho - quem perde ou 
morre ou fica com fome. O que no  o caso das pistas de atletismo. 

E me intrigam as razes por que, nas competies, so apenas os msculos que so testados. O corpo no  formado apenas por msculos. O curioso  que quando se fala 
em "educao fsica" a imagem que aparece  a de um atleta com short, camiseta e tnis, pronto para alguma atividade que envolva o uso dos msculos. Mas os olhos, 
os ouvidos, a boca, o nariz, a pele so tambm parte do fsico. Podem tambm ficar atrofiados como ficam atrofiados os msculos. O corpo atrofiado pela inrcia e 
pelo acmulo de gordura pode terminar em obesidade, diabetes, colesterol alto e infarto. Mas um corpo de sentidos atrofiados termina numa doena terrvel chamada 
"tdio". Imagino uma faculdade de educao fsica que tenha tambm cursos do tipo "Curso de cheirao avanada I", "Curso de cheirao avanada II, "Curso de observao 
de cores", "Curso de audio de rudos da natureza"...




A AULA E O SEMINRIO

Dizem os professores universitrios que somente so dignas de reconhecimento acadmico as idias que tm pedigree reconhecido, isto , aquelas que tm uma teoria 
como me e um mtodo como pai. Se essa ascendncia no for demonstrada a dita idia no tem permisso para entrar na festa, qual seja, a tese, pois idia sem pai 
e sem me, vinda no se sabe de onde, sem documentao,  certamente plebia bastarda. Esse rigor protocolar retira logo minhas idias do crculo da dignidade acadmica, 
posto que elas sempre me aparecem repentinamente, sem teoria e sem mtodo, sem que eu as tivesse procurado e sem que eu possa explicar a sua origem. E so sempre 
aparies felizes que me fazem rir.  o caso dessa idia que me apareceu hoje pela manh, quando caminhava. 

Ela pulou na minha frente e me disse: "Tanto se escreveu sobre o ensinar e o aprender. 

No entanto, est tudo resumido no duplo sentido da palavra comer". Ditas estas palavras ela sumiu e eu fiquei decifrando o enigma do duplo sentido da palavra comer 
e sua relao com a educao.

O primeiro sentido  o bvio. Refere-se s funes gastronmicas. As funes gastronmicas exigem dois tipos de agentes. Numa ponta esto os cozinheiros. Na outra 
esto os que comem o que os cozinheiros prepararam. No dia a dia  a comidinha caseira, arroz, feijo, picadinho de carne, angu, linguia, salada de alface com tomate, 
gil, bife, ovo frito, molho de cebola, batata frita, sopa de fub, sopa de mandioquinha, canja - receitas simples, antigas, que fazem o cotidiano das pessoas. As 
pessoas se assentam  mesa - crianas, jovens, adultos, velhos - e comem. Comem e gostam. Assim  entre ns. Se vivssemos na Finlndia as comidas seriam outras. 
E  fcil aprender: basta ficar observando a cozinheira cozinhando. Faz hoje como sempre se fez. No  novidade.  comida velha, testada, aprovada. 

E  isso mesmo que devem fazer os professores. Uma aula  um prato de saberes/sabores que ele serve. E os alunos devem comer. E tem muita comida gostosa. Mas, infelizmente, 
eles so como cozinheiros do exrcito: so obrigados a cozinhar o que o general manda.  o general que determina o menu que, nas escolas, se chama currculo. O currculo 
 o conjunto de pratos que os alunos devem comer e digerir. Os cozinheiros/professores, se pudessem, fariam outros pratos. Mas  preciso cumprir o programa e eles 
so obrigados a servir muitos pratos indigestos e sem sabor, com dgrafos, encontros consonantais, fases de mitose, logartmos, causas de guerras esquecidas... Esses 
pratos s so comidos sob ameaa mas os alunos, logo que tm liberdade para comer "a la carte" jamais os pedem e os esquecem para sempre. Mas  verdade tambm que 
h professores mgicos que so capazes de fazer sufls saborosos at com gil. Mas estes casos so raros porque, para se fazer isso,  preciso que o professor tenha 
d dos alunos. 

Isso  a aula. A aula clssica  assim. Deve ser assim.  preciso que os alunos comam o que todos comem: matemtica, geografia, histria, fsica, qumica, filosofia. 
O professor prepara a sua aula. Diante dos alunos ele vai traando os mapas dos mundos que eles no conhecem ainda mas devem conhecer. Se a aula for boa os alunos 
iro comer e beber as suas palavras. O mundo ficar luminoso. J dei muita aula assim e disto me orgulho. Uma aula bem dada  como a execuo de uma sonata. J vi 
professores serem aplaudidos pelos alunos ao final da aula. O segundo sentido da palavra comer  sexual. Comer  transar. No sei a origem deste sentido Sei que, 
no mundo dos animais, comer e transar frequentemente se confundem. Aranhas e louva-deus ( como  mesmo o plural desta palavra?) fmeas devoram seus parceiros ao 
final da cpula.  bem possvel que, na lingua de tais bichos, se diga "vou comer o meu marido atual" ( s existe o marido atual, porque os outros j foram devorados) 
como expresso sinnima de transar. 

O comer gastronmico d prazer e engorda as pessoas. Quem engorda fica igual, s que maior, mais pesado. Vai assimilando aquilo que outros prepararam. Quem sabe 
o que ouviu nas aulas, sabe o pensamento dos outros, s sabe aquilo que os outros sabem. O comer sexual  diferente. Transar d prazer e engravida. Gravidez  uma 
transformao qualitativa. O smen  ejaculado. Milhares de sementes de vida so lanadas. Onde ele cair algo novo, que nunca aconteceu antes, diferente, vai germinar 
e nascer. Comida que no estava prevista em nenhum menu.

A palavra "seminrio" vem de semen. Seminrio no  aula. Seminrio no  transmisso de saberes de outros.  transa, para que haja gravidezes e idias novas nasam, 
idias que nem mesmo o professor jamais pensou. Num seminrio o professor  tambm um aprendiz. Na aula o aluno recebe um saber do outro. O objetivo do seminrio 
 diferente: que todos, juntos, por meio desta orgia espermtica, fiquem grvidos e comecem a parir. 

Aula: um sabe e os outros no sabem. Seminrio: cada um conhece um pouquinho e desconhece muito. O professor no d respostas. Ele no sabe as respostas. Ele  um 
dos que procuram. Qualquer participante pode definir a pergunta inicial, provocao de pensamento. O que d vida a um seminrio  o no saber, a procura, os enigmas. 
Na aula a inteligncia  um estmago que rumina e digere. Tambm isso  preciso. Mas no seminrio a inteligncia  tero. As sementes so jogadas l dentro para 
que ela fique grvida - algo nunca pensado deve crescer e ser parido. O objetivo no  chegar a resultados.  desenvolver a capacidade de pensar e descobrir coisas 
novas. 

Esse, eu penso,  o objetivo supremo da educao.  muito mais importante que as atividades de pesquisa. O objetivo da pesquisa  produzir conhecimento novo. Mas 
um seminrio tem por objetivo desenvolver a capacidade de pensar, que  de onde o conhecimento novo pode surgir.

 profundamente lamentvel e equivocado que os professores das nossas universidades sejam avaliados pela sua produtividade medida em nmero de artigos publicados 
em revistas internacionais. Ensinar a pensar  mais importante que pesquisar.  do desenvolvimento da capacidade de pensar que se forma um povo. Povo que no sabe 
pensar fica  merc das mentiras.

Aulas e seminrios: os dois jeitos. A aula acontece entre desiguais: o professor, que j foi e conhece, e os alunos, que no foram e ainda no conhecem. Dependendo 
da aula, pode at ser que eles se decidam a ir. O seminrio acontece entre iguais: todos j foram, tm um saber incompleto, e desse saber surgem perguntas. O seminrio 
 como juntar as peas de um quebra-cabeas: cada um tem um pedacinho. Qualquer um do grupo pode fazer a pergunta inicial. O professor funciona apenas como juiz 
da partida.

Mas ai, pobres seminrios, pobres alunos! Alguns professores, combinando preguia e malandragem, descobriram um jeito de no dar as aulas responsveis que deveriam 
dar. Dizem que do seminrios: o que eles fazem pertence a um estgio superior ao das aulas! Valendo-se do fato de que, num seminrio, o professor no d a aula, 
distribuem textos pelos alunos, e eles, os alunos, que ainda no foram, que nada sabem sobre o assunto, ficam encarregados de "dar o seminrio" ( que absurdo!). 
J vi alunos desesperados, lendo textos complicados que no entendem - o professor no deu a aula, explicando - e com a obrigao de ensinar aos outros aquilo que 
eles mesmos no sabem. H muitas formas de corrupo. Corrupo poltica, corrupo financeira, corrupo religiosa: o rosrio  longo. Sugiro que se catalogue mais 
esta: a dos professores que, para no ter o trabalho de dar as aulas que deviam, montam as farsas dos seminrios. Sugiro que os alunos denunciem esta malandragem! 





ENTREVISTA:  UMA ESCOLA DOS SONHOS

"Utopias, direis, no  possvel t-las, mas que triste seriam as noites sem a luz suave das estrelas". Esse verso de Mrio Quintana  o resumo mais simples do pensamento 
do psicanalista e escritor Rubem Alves sobre a escola dos sonhos, a escola ideal. Ele, que lanou, no ltimo ms, o livro "Fomos Maus Alunos" (Editora Papiros) juntamente 
com o jornalista Gilberto Dimenstein, acredita que os sonhos so como estrelas, que servem para dar uma direo, mas no para se tornarem uma realidade. 

Saber 2003 - O que  a Escola dos sonhos? Ela pode ser concretizada? O que falta para isso? 

Rubem Alves - Ns no podemos realizar os sonhos, nunca realizamos os sonhos, porque no  realmente possvel. Entretanto, os sonhos so como estrelas:  preciso 
que tenhamos uma estrela, que  essa escola dos sonhos, no para ser realizada, mas para dar uma direo. Caminhamos naquela direo, sem nunca chegar l. Ento, 
 esse o sentido de se ter o sonho de uma escola diferente. 

Saber 2003 - Como propor atividades desafiadoras tendo em vista o programa a ser cumprido para cada srie em cada ano? 

Rubem Alves - A Educao tem dois objetivos: o primeiro  dar ferramentas para vivermos, como aprender a caar, fazer flecha, calar sapato, usar o garfo, andar 
de bicicleta, somar, diminuir. So, enfim, saberes que precisamos para sobreviver. O segundo diz respeito a aquelas coisas que no servem para nada, mas que nos 
do prazer. So elas cantar, ler poesia, ouvir msica, olhar o pr do sol, apreciar a natureza. Ento, a Educao  diferente em cada ambiente, porque os desafios 
de vida, em cada ambiente, so diferentes. No adianta voc ensinar aos meninos da costa de Alagoas a fazerem iglus, porque l eles no tem gelo e eles no precisam 
fazer iglus. E no adianta voc ensinar aos esquims a arte de navegar em jangada, porque os esquims moram no gelo e no tem jeito de navegar em jangada. A idia 
de ter um programa geral  uma estupidez, porque as crianas e os seres humanos, em cada situao, tm desafios diferentes. 

Saber 2003 - No seu ponto de vista a avaliao que est sendo feita dos educandos  correta? Ela  necessria? O aluno precisa ser avaliado? 

Rubem Alves - O aluno precisa ser avaliado, mas isso depende de como  feito. Vou usar o exemplo do piano, porque j pensei em ser pianista. Quando voc est tocando 
com o professor, o tempo todo ele est avaliando. Ele interrompe e diz 'nessa passagem voc tocou errado, estava muito martelada. Volta e toca direito". O que ele 
faz com isso? Ele est me propondo uma correo. Ento, a funo pedaggica da avaliao  permitir que o aluno corrija o jeito de pensar dele. Porm, nessas avaliaes 
que os educadores fazem agora, no se corrige o pensamento. Perdeu-se a noo de que o objetivo da avaliao  ajudar o aluno a corrigir o curso do pensamento dele 
para que, assim, ele possa pensar de maneira eficaz e prtica. 

Saber 2003 - O Sr. disse que " um equivoco pensar que, com panelas novas e caras, o mau cozinheiro far comida boa. Educao no se faz com dinheiro. Educao se 
faz com inteligncia". Como isso se aplica s escolas brasileiras? 

Rubem Alves - Isso tem a ver com a mania das pessoas de ficarem achando que  preciso comprar mais artefatos, mais material escolar, pensando que com esses materiais 
modernos vai ter uma melhora na educao. O bom educador no precisa de material escolar. Se ele tiver olho e imaginao tudo ser possvel. Eu no sei matemtica, 
no sou professor de matemtica, mas posso dar uma aula de matemtica para alguns alunos no meu jardim. Eu pegaria uma folha de samambaia e diria: 'Desenha uma folha 
de samambaia'. Quer ver uma coisa gozada? Arrancaria todas as folhas de um lado e levaria para um espelho. U, a folha de samambaia ficaria inteira de novo. Isso 
daqui tem um nome: simetria. Simetria quer dizer que essas duas coisas so iguais. 'As mos so simtricas, est vendo?'. Ento, a criana comearia a perceber que 
todas aquelas formas tm uma forma nica. O que eu estaria ensinando para a criana? Estaria ensinando a criana a pensar abstratamente. Isso no est em nenhum 
livro e no precisa de material algum, s precisa de uma coisa: olho e imaginao. 

Saber 2003 - Quem deve mudar: a escola ou o professor? 

Rubem Alves - Uma vez eu escrevi um artigo que fazia a seguinte pergunta: o que vem primeiro, o jardim ou o jardineiro? A resposta , sem dvida, o jardineiro, porque 
 da cabea dele que surge o jardim. Se voc tiver um jardineiro sem jardim, mais cedo ou mais tarde vai surgir um jardim. Porm, se voc tiver um jardim sem jardineiro, 
mais cedo ou mais tarde esse jardim desaparecer. A mesma coisa com a escola. No incio  preciso sonhar. Precisamos de professores sonhadores e so eles que imaginaro 
um jeito mais inteligente de educar as crianas e os adolescentes. A minha convico  a seguinte: tudo comea da mudana do corao e do pensamento dos professores. 
Somente assim iniciaremos uma mudana nos educadores. 

Saber 2003 - Como o professor de uma escola pblica pode driblar o programa oficial? 

Rubem Alves - Ele no pode ficar esperando as coisas acontecerem. Tem que usar uma ttica de subverso, talvez de um tipo de guerrilha. Tenho a impresso que um 
dos problemas com os professores das escolas pblicas  que eles esto muito desanimados e porque esto desanimados, no tm imaginao para pensar coisas diferentes. 
O professor no  obrigado a usar a aula inteira para dar aquele determinado material. Ele  livre dentro do espao dele, pode inventar outras coisas. Ento,  preciso 
dizer que uma das tarefas do professor  ser subversivo do sistema, caso contrrio vai morrer de tdio. 

Saber 2003 - Como desenvolver competncias na escola atual, tendo em vista as caractersticas da Escola Brasileira? 

Rubem Alves - Primeiramente, o que significa a palavra competncia? Competncia significa voc ser capaz de realizar uma tarefa. Competncia  uma capacidade de 
realizar alguma coisa, mas uma das caractersticas de nossas escolas  que elas no tm nada a ver com o fazer. Ento, se a escola no tem a ver com o fazer, no 
tem jeito de desenvolver as competncias. Por exemplo, se eu quiser ser pianista, ento, eu quero desenvolver a competncia. A eu sento no piano, seis horas por 
dia e trabalho para desenvolver a competncia. A competncia s  desenvolvida se eu desejar, no adianta dizer: "Agora voc vai ser competente em Matemtica", se 
voc no tiver o fascnio pela Matemtica. Ento, a primeira coisa para se desenvolver a competncia  voc fazer a pergunta: competncia para qu? Assim, temos 
que ter uma escola que seja diversificada para permitir que os alunos desenvolvam diferentes competncias.  possvel fazer isso. Por exemplo, essa Escola da Ponte, 
do Jos Pacheco, o que acontece l  o seguinte: o ensino  dado em torno do interesse dos alunos. L, a funo do professor no  dar matria, mas, sim, ajudar 
os alunos a descobrir onde esto os saberes necessrios para ele desenvolver uma determinada competncia. Isso mostra que uma coisa importante, hoje, no  saber 
as coisas, mas saber descobrir as coisas. Essa  a grande coisa, porque na velocidade com que os saberes so modificados, voc no pode ficar estagnado em um antigo 
saber. 

Saber 2003 - Quais as alternativas que a escola tem para se libertar do sistema educacional vigente, tendo em vista o apego excessivo dos vestibulares e das expectativas 
dos pais? 

Rubem Alves - Eu escrevi, h um dois meses, um artigo sobre o vestibular. O artigo foi assim: se eu fizer vestibular, eu no passo; se os Reitores das Universidades 
fizerem o vestibular, eles no passam; se os professores fizerem, eles no passam; se os professores de cursinho fizerem, eles no passam, cada um s vai passar 
na sua disciplina; se os professores que preparam as questes fizerem, eles no passam, porque para ele vale o que vale para o professor de cursinho. Ento, se eu 
no passo, professor no passa, reitor no passa, professor de cursinho no passa, por que os adolescentes tm que passar? No tem a menor razo. Ento, depois, 
mandei um artigo dizendo um erro meu grave, uma indelicadeza que eu cometi. Citei todo esse pessoal e esqueci de falar sobre duas pessoas muito importantes: o Sr. 
Ministro da Educao, Cristovam Buarque, e o Secretrio Estadual de Educao, Gabriel Chalita. Desta forma, restauro a inteligncia deles, porque, se eles passassem, 
seria um sinal de que eles eram dbeis mentais. Sim, porque pessoas de memria perfeita so sempre dbeis mentais. O vestibular  a maior praga na Universidade. 
No me pergunte como  que ser feita a seleo, porque eu no sei. Alis, creio que os pais so os maiores inimigos da educao, porque eles no esto preocupados 
com a educao dos filhos. Eles esto interessados que as escolas preparem os filhos para o vestibular e no h nada mais vazio de inteligncia do que o vestibular. 
Assim, os pais comeam a pressionar as escolas para que elas prepararem para o vestibular, mas educao no  isso. Educao  gostar da leitura,  gostar da Literatura, 
gostar de arte, conhecer, mas isso no cai no vestibular. Creio que a reforma da educao depende basicamente de uma coisa:  preciso mudar os sentimentos e os pensamentos 
dos professores. 

Saber 2003 - E os alunos? Ser que eles no querem ficar limitados somente a isso?
Limitados s a prestar o vestibular ou s a decorar? 

Rubem Alves - Tem razo. Os alunos ficaram to obcecados pela idia do vestibular que essa  a nica coisa que interessa para eles. Assim, eles j no iro mais 
perder tempo aprendendo sobre msica clssica, porque isso no cai no vestibular. Eles ficam centralizados porque sabem que precisam passar no vestibular. Ento, 
a opo do aluno vai ser essa: se tirar o vestibular, ele estar livre para explorar o que quiser. Se ele acabar com o vestibular, vai introduzir uma dimenso de 
criatividade, de liberdade, de explorao na Educao e as pessoas vo estar mais bonitas e mais inteligentes. 

     
Saber 2003 - Como a Educao Infantil tem preparado as crianas para o amanh? O brincar e as fases tem sido respeitadas? 

Rubem Alves - No acredito que a funo da educao seja preparar para o amanh. A minha vida s acontece no presente e a educao tem que, assim, ser uma experincia. 
O prazer de aprender no surge porque essa coisa do aprender servir para daqui a cinco anos. Deve-se ter prazer, interesse e desafio para as coisas que esto acontecendo 
agora. Se essas coisas me desafiarem, ento, automaticamente, quando vier o futuro, eu j terei competncias. Voc tem que pensar que a educao  uma experincia 
de prazer aqui e agora, mesmo porque, voc no sabe se o aluno vai estar vivo at o final do ano. Cada dia  importante. 

Saber 2003 - Em relao a questo da aprendizagem da leitura e da escrita, o que o Sr. considera imprenscindvel? Como desenvolver habilidades de leitura e escrita 
envolvendo o gosto pela literatura? A escola ainda trabalha muito didaticamente? 

Rubem Alves - Isso  a coisa mais fcil do mundo. Uma das experincias mais felizes que tive na escola foi a aula de leitura. A leitura era feita pela professora. 
Ela leu Monteiro Lobato inteiro, leu tanta coisa da Literatura e a coisa mais maravilhosa  que no tinha teste de compreenso, nem provas sobre aquelas aulas. Aquilo 
era pura vagabundagem, era puro deleite. Desse modo, o que acontece, quando voc v uma pessoa linda daquele jeito? Voc fica com inveja dela; comea a querer ter 
aquela habilidade para voc poder entrar nas delcias da leitura. Portanto, a primeira coisa para se desenvolver o gosto pela leitura  voc ler com as crianas, 
sem pedir teste de compreenso, simplesmente ler. A partir da, ento, elas comearo a ficar interessadas. A leitura tem que ser uma experincia de vagabundagem, 
no pode ser submetida a provas, pois se voc a submeter a provas voc j a estragou. Na hora em que o aluno descobrir o prazer, pode largar a mo que ele vai ler 
para o resto da vida e no vai mais querer parar. 


Saber 2003 - Qual o papel da Tradio, historicamente falando, no processo ou na mudana do perfil do educador. Ou na renovao do perfil do educador para o Sculo 
XXI? 

Rubem Alves - Os homens sobrevivem inventando solues para os problemas. Inventa um jeito de fazer fogo, inventa um jeito de fazer potes de barro. Descobrimos essas 
coisas e isso vai se tornando uma tradio. Assim, a tradio  aquilo que vai ser transmitido, que eu vou transmitir. Entretanto, a tradio pode ser uma pedra 
ou pode ser uma asa. A tradio  pedra, quando a gente acha que a tradio est dada, que  isso que deve ser para o resto da nossa vida. Ela torna as pessoas fixadas, 
fechadas e elas no aprendem coisas novas. Porm, a tradio pode ser asa na medida que poupa o trabalho de reinventar, dando os meios de caminhar para frente, servindo, 
muitas vezes de trampolim. 

Saber 2003 - No Brasil, existem experincias similares  Escola da Ponte? O que impede o surgimento? 

Rubem Alves - Quando escrevi crnicas sobre a Escola da Ponte, recebi muitos e-mails de escolas daqui dizendo que faziam coisas parecidas. H muitas escolas fazendo 
coisas parecidas e muito interessantes aqui, no Brasil. O triste  que, aqui, no se sabe sobre elas, no se divulga. Por exemplo, quando eu estive em Tocantins, 
visitei uma cidade na qual os professores e as crianas estavam preocupados com os velhinhos analfabetos. Ento, eles, as crianas, os velhinhos e os professores 
desenvolveram um programa que consistia em um troca: os velhinhos contariam histrias de antigamente e ensinariam os brinquedos de suas infncias. As crianas, por 
sua vez, ensinariam os velhinhos a navegar na internet e a mexer no computador. Aqueles idosos de mo dura, jamais iriam aprender a escrever, mas eles descobriram 
que, no computador, bastava apertar uma tecla para a letra aparecer. Eles ficaram encantados e esto sendo alfabetizados, depois de velhos, pelos computadores. Onde 
est isso? Em que programa oficial? No foi programa nenhum. Foram os professores que falaram para as crianas. So coisas extremamente simples, que no custam nenhum 
tosto furado. O problema da educao no  falta de verba;  falta de imaginao. 

Saber 2003 - A experincia da Escola da Ponte est provocando mudanas na Escola Portuguesa? 

Rubem Alves - A histria da Escola da Ponte  muito interessante. Jos Pacheco era diretor de uma escola absolutamente miservel que no tinha nada: no tinha privada, 
as crianas tinham que fazer as necessidades do lado de fora, com as meninas fazendo, era uma coisa absolutamente horrorosa. Quando uma coisa  absolutamente horrorosa, 
todas as idias so permitidas. Se fosse uma escola mais ou menos, eles teriam tentado reformar a escola. Assim, as idias da Escola da Ponte no surtiram como resultado 
de uma teoria, mas como resposta aos desafios cotidianos. Entretanto, a escola passou a se desviar completamente dos padres nacionais. Tornou-se uma escola diferente, 
sendo a partir da, perseguida e pressionada a mudar. Mas ela no mudou, principalmente porque os pais se juntaram com a escola e fizeram a escola ser tolerada. 
Hoje, a Escola da Ponte tornou-se uma coisa to importante, que  considerada modelo para a Educao Portuguesa. S para se ter uma idia, quando o meu livro sobre 
a Escola da Ponte foi lanado em Portugal, na ltima capa tinha uma mensagem do Presidente da Repblica. Ento, como essa escola conseguiu ser uma espcie de modelo 
e nas escolas tradicionais. 

Saber 2003 - O Sr.  um grande escritor. No que a escola colaborou para isso? 

Rubem Alves - Nada, mesmo porque, eu nunca na minha vida pensei em ser escritor. Nunca me preparei para ser escritor, no estudei Literatura. Aconteceu de repente, 
sem que eu soubesse como e a coisa comeou a surgir dentro de mim.















NO REINO DOS PORQUS

Educador defende a curiosidade da criana como o melhor currculo de ensino para se praticar em casa e na escola

 Rubem Alves diz que nunca educou os filhos, apenas viveu com eles aproveitando momentos como os das fotos.  esquerda, a filha Raquel, hoje arquiteta, tinha 3 anos. 
Na cena da direita, lembranas dos filhos Marcos, de azul, e Srgio, que se tornaram um bilogo e o outro mdico.



Mal o filho nasce e os pais j comeam a se preocupar com seu futuro. Querem o melhor para ele em tudo: brinquedos, escola, professores, amizades. A melhor educao 
possvel para que a criana se torne um adulto bem preparado para a vida. E onde est essa boa educao? "Na prpria criana, na sua imensa curiosidade, no grande 
laboratrio que  sua vida dentro de casa", diz o mineiro de Boa Esperana, Rubem Alves, 69 anos, pai de trs filhos, pedagogo, doutor em filosofia, psicanalista, 
autor de livros infantis e de educao. Nesta entrevista a CRESCER, Rubem comenta idias que esto em seu ltimo livro, Conversas sobre Educao (Verus Editora, 
2003). Mostra como os pais podem ser grandes mestres para seus filhos, sem se preocupar com teorias ou mtodos pedaggicos. 

"Eles s precisam participar do mundo da criana, se interessar e responder s suas perguntas. Nessa convivncia, sem hora para aprender, sem respostas certas, notas 
ou provas, est o melhor currculo da educao", resume Rubem.
Voc critica a escola porque diz que ela se dedica ao ensino das respostas certas e isso  fatal para a curiosidade das crianas, justamente o que as motiva a aprender. 
Como os pais podem aproveitar melhor essa curiosidade dos filhos? 


Educar  provocar perguntas. So elas que desafiam a inteligncia. Por 70 mil anos, antes de haver escolas, os pais ensinaram de forma competente seus filhos. E 
qual era o "programa"? A vida. No havia prova nem notas. As situaes vividas provocavam o aprendizado de forma natural. Agora, com a correria da vida moderna, 
os pais "terceirizaram" a educao.

Contrataram as escolas para educar. Uma das minhas pacientes me dizia outro dia: "Eu no tenho tempo para educar a minha filha". E eu respondi: "Eu nunca eduquei 
os meus filhos". "Mas como?", ela perguntou admirada. "Eu s vivi com eles", respondi. Porque  nessa convivncia que a criana faz perguntas e aprende o que interessa. 
S a casa j  um imenso laboratrio para ela. 

De que forma? 

Eu escrevi um artigo com o ttulo Casas Que Emburrecem. A casa que emburrece  aquela toda certinha, em que tudo est no lugar, no tem fechadura para consertar 
e a criana no tem permisso para fazer suas exploraes. Mas a casa que provoca a inteligncia  cheia de tranqueiras, livros, revistas, ferramentas, jogos, quebra-cabeas, 
livros de arte, objetos inteis que provocam a curiosidade da criana. Casa que  laboratrio, em que a criana vai aprender sobre qumica na cozinha, por exemplo. 
Elas adoram cozinhar porque gostam de brincar com o fogo, e assim conhecem os alimentos e suas propriedades, podem viajar pelo mundo da culinria chinesa, italiana, 
francesa, pernambucana. Numa casa se estuda histria, pois cada objeto tem uma histria. 

Estuda-se biologia, porque a vida se encontra em todos os lugares, at nos fungos.

Mas tudo isso no exige mais tempo com os filhos? 

No  uma questo de tempo, mas de interesse. Os pais abandonaram o mundo das crianas. Perderam a capacidade de fazer perguntas, deixaram de se fascinar pelo que 
vem. Chegam do trabalho cansados, vo assistir  TV e os filhos vo dormir e acabou. E com isso eles perdem os filhos. Num domingo, eu fui a um parque e vi uma 
cena que me deixou triste. Era um pai com uma filha. Ela estava no balano e o pai a empurrava automaticamente com a mo esquerda e com a mo direita segurava o 
jornal que lia. 

Pensei: esse pobre diabo ainda vai se arrepender amargamente por ter considerado o jornal mais importante do que a filha. Um dia esse balano vai estar vazio... 
So oportunidades como essa que os pais no devem deixar escapar. Nesses momentos  que podem surgir aquelas perguntas de criana: Por que a borboleta voa? Por que 
o cu  azul e no vermelho? Por que a gua fervente amolece a cenoura e endurece o ovo? So coisas interessantes no s para a criana, para os adultos tambm. 

Os pais tm que entrar na brincadeira?

A questo toda  que os pais deixaram de ser crianas. O que faz a criana no  tanto a brincadeira,  a curiosidade. Nietzsche, meu filsofo preferido, dizia que 
o mais alto grau de maturidade que um adulto pode atingir  quando ele recupera a seriedade que tinha ao brincar na infncia. A brincadeira da criana  muito sria, 
assim como suas perguntas. E, se os pais no sabem resolv-las,  uma maravilha dizerem: "Meu filho, no sabemos, mas vamos investigar". Assim a criana vai aprender 
que os pais no sabem tudo, mas que vo tratar de saber: "Nossa, mas como  que voc faz essa pergunta? Que fantstico! Vamos tentar descobrir". A os pais vo ensinar 
para o filho a delcia que  pesquisar. Procurar nos livros, navegar na Internet para satisfazer uma curiosidade. Hoje os saberes se modificam rapidamente e o principal 
 saber pesquisar. Mas, para que tudo isso seja divertido,  absolutamente essencial que os pais se interessem pelas perguntas de seus filhos e que as crianas percebam 
que eles no so detentores da verdade. Assim podem ser amigos, compartilhar as descobertas. 

Esse aprendizado no pode gerar conflitos com o que a criana aprende na escola? 

O conflito faz parte do aprendizado. Vou dar um exemplo. Minha filha estava no primrio - eu ainda falo primrio, mas agora  ensino fundamental. Ela tinha dificuldades 
com um problema de matemtica. Fui tentar ajud-la e comecei a fazer um raciocnio diferente. 

Ela disse: "No, papai, tem que ser do jeito da professora". Eu argumentei que h muitos caminhos para se chegar a um determinado lugar, mas ela insistia no caminho 
da professora. Estabeleceu-se um conflito. No consegui ensinar a matemtica. A professora triunfou, mas at hoje minha filha  ruim de matemtica. 

O que voc aprendeu com essa experincia? 

 o que estou sempre tentando transmitir aos pais e professores: que o aprendizado se revela na capacidade que tenho de fazer alguma coisa e no repetir respostas. 
Aprendi a fazer uma moqueca quando fao uma moqueca, aprendi a ler quando consigo ler.  uma competncia ligada a uma necessidade da vida. Agora, esse saber que 
 pedido no vestibular no d competncia alguma. 

Mas  o que ensina a escola... 

Nesse assunto, j disse e vou repetir: Os pais, hipnotizados pelo vestibular, tornaram-se os maiores inimigos da educao. S querem que os filhos passem no vestibular. 
No querem saber o que aprendem. Pode imaginar um adolescente que vive em uma zona de violncia tendo que aprender quais so as enzimas que entram na digesto? O 
que ele faz com isso? Perde o interesse em aprender e quer simplesmente o diploma. Outro dia eu via umas tirinhas do Calvin. O pai o repreendia por causa de suas 
notas baixas. "Voc precisa estudar!", diz o pai. E Calvin: "Eu no quero estudar". "Mas voc gosta tanto de ler sobre dinossauros", observa o pai. ", eu gosto", 
diz Calvin. "E por que voc no gosta de ler na escola?", pergunta o pai. "Porque l no tem livro sobre dinossauro".  to bvio. 

Na escola no tem as coisas que interessam as crianas.

Por que a educao ficou assim?

Porque os adultos abandonaram o mundo das crianas. A tudo fica chato e elas comeam a perder a curiosidade que motiva a aprender, o encantamento natural que tm 
com todas as coisas. Com a concha vazia do caramujo, a teia de aranha, o arco-ris. 

Dessas experincias da vida vem a curiosidade e o aprendizado. E ser curioso no tem fim.  uma coceira que d na cabea e faz a gente viajar em todas as direes. 

Como saber se o filho est numa boa escola?

Para mim, s existe um critrio: se a criana sente alegria em ir  escola, se sente saudade de l. Porque aprender  muito divertido e  s com prazer que se aprende. 

Aprendizagem sofrida  logo esquecida. Revista Crescer, set/2003




AS VRIAS MORTES

Nos velhos livros de contabilidade havia uma coluna com o ttulo "Haver" escrito em caracteres gticos. O "Haver"  aquilo que resta depois de pagas as pendncias 
listadas na coluna "Deve". Vincius de Moraes deu o ttulo de "Haver", ttulo de contabilidade, a um dos seus poemas mais comoventes. Ele j deveria estar velho 
quando o escreveu. Seu poema  um balano potico da sua vida, quando o seu fim j se anuncia. Ele o escreve diante da morte. So vrias estrofes que se iniciam, 
todos elas, com a palavra "Resta". "Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura..." "Resta esse antigo respeito pela noite..." "Resta esse corao queimando 
como um srio numa catedral em runas..." 
At que, na ltima estrofe, ele escreve: "Resta esse dilogo cotidiano com a morte, esse fascnio pelo momento a vir quando, emocionada, ela vir me abrir a porta 
como uma velha amante sem saber que  a minha mais nova namorada..." Morte, velha amante...Sim, ele j havia dormido abraado com ela muitas noites, tantas noites 
quantos foram os poemas que escreveu. Pois  nesse abrao que se geram os poemas. Os poetas so aqueles que fazem amor com a morte, mesmo quando no o confessam. 
E fazem amor com a morte porque amam a vida desesperadamente... Os poetas fazem amor com a morte para transform-la em namorada...

Fazer amor com a morte... No  ruim, no  depressivo. A morte no  o que dizem dela. O Vincius sabia disso. Fui  procura de testemunhos nos meus arquivos. Encontrei 
logo Albert Camus, escritor irmo que muito amo: "Aumentar a felicidade de uma vida de homem  aumentar o trgico do seu testemunho. A obra de arte verdadeiramente 
trgica deve ser a do homem feliz: porque esta obra de arte ser toda inspirada pela morte". 

Depois, Hermann Hesse: " Aps cada morte a vida se torna, para ns, mais delicada e preciosa." Veio a seguir a sabedoria de D. Juan, o bruxo: " "H uma estranha, 
devoradora felicidade quando agimos com a total convico de que, qualquer que seja a coisa que estamos fazendo, esta pode muito bem ser a nossa ltima batalha sobre 
a terra. A morte  a nossa eterna companheira. Ela est sempre  nossa esquerda, ao alcance do nosso brao. A coisa a fazer, quando voc se sente impaciente,  voltar-se 
para a sua esquerda e pedir que a sua morte o aconselhe. E uma imensa quantidade de mesquinhez desaparece se a sua morte lhe faz um gesto, ou se voc a vislumbra, 
ou se voc simplesmente tem o sentimento de que a sua companheira est ali, olhando para voc. A morte  a nica conselheira sbia que temos. Sempre que voc sentir, 
como sempre acontece, que tudo est errado e que voc est ao ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua morte e pergunte-lhe se assim . Sua morte lhe dir que 
voc est errado. Nada realmente importa, a no ser o seu toque. Sua morte lhe dir: "Ainda no o toquei."

A morte tem sido minha companheira desde os dias da minha infncia. No, no estou me referindo a velrios e funerais. Refiro-me  sua presena nos meus pensamentos. 
A morte me fez meditar sobre a vida. Dias atrs ela me ps a pensar de novo. Veio-me uma idia nova. Pensei que no est certo falar sobre a morte como se ela fosse 
a mesma, o tempo todo. Isso  uma iluso da biologia: a morte como a cessao dos processos vitais. 

A verdade  que as mortes so muitas, cada uma delas com um rosto diferente. Por isso no  certo falar sobre a morte no singular, como se fosse apenas uma. No meio 
desses pensamentos vrias mortes comearam a desfilar na minha imaginao, cada uma com um rosto diferente. 

A primeira delas tinha no colo uma criancinha e cantava baixinho uma cano de ninar para fazer o nenezinho dormir. Seu rosto era suave e terno como o rosto de uma 
me. Ela era a "Me que faz dormir..." 

A segunda tinha o rosto forte e puro de um anjo e trazia nas mos uma grande chave para abrir as portas dos calabouos de dor onde muitos se encontram presos. Ela 
era o "Anjo Libertador". 

Mas a terceira tinha um rosto cruel, no tinha olhos e trazia nas mos um alfange. Foi essa morte horrenda que o pintor medieval Brueghel pintou na sua tela "O triunfo 
da morte". Ela era a "Morte Assassina", que mata antes da hora.

Dizem as Escrituras Sagradas que para tudo h um tempo certo: h tempo de nascer e h tempo de morrer. Qual  o tempo de morrer? Pergunte ao dia. O dia sabe que 
 preciso morrer. Um dia em que o sol pairasse imvel no centro do cu seria insuportvel. Muitos anos atrs, eu era bem jovem ainda, estudava nos Estados Unidos 
e um amigo querido era um japons, Kunio Goto. Um dia - era inverno, estvamos atravessando uma rua coberta de neve - eu lhe falei sobre o meu medo de morrer. Ele 
sorriu um sorriso nipnico e disse: "Voc j pensou no terrvel que seria se no morrssemos? Se estivssemos condenados a viver sempre?" Compreendi. 

O dia deve terminar para ser bom. E o crepsculo  o dia se realizando, o dia morrendo. E est bem que seja assim. Se no houvesse crepsculo no haveria tambm 
poetas. Os poetas so seres crepusculares. Crepsculo, "esse odor da tarde, quando comea o cansao dos homens. Quando os pssaros tm uma voz mais longa, j de 
despedida. 

Declina o sol - esta  a notcia que a terra sente, na floresta e no arroio. Docemente perdem as flores sua esperana, o perfume, a memria. Todos os dias assim, 
neste caminho de auroras e crepsculos. E ento odor da terra  uma exalao de saudade, um suspiro de consolos, tambm, e o orvalho que as plantas formam com seus 
ntimos sumos, de silenciosa confidncia, parece igual  lgrima, e cada folha, nas rvores,  um outro rosto humano." Ceclia Meireles, que escreveu esse poema, 
era um ser crepuscular. Parece que ela est falando sobre o crepsculo. Mas ser mesmo? Esse crepsculo, quando as flores perdem a sua esperana, o perfume, a memria... 
Estranhas flores essas que tm esperana e memria! As flores esto cansadas. Querem dormir, sem futuro e sem passado. No, a Ceclia no falava sobre o crepsculo. 
Falava sobre si mesma. O orvalho  lgrima. E as folhas, nas rvores, so rostos humanos.

O poeta William Wordsworth sabia o segredo da beleza do crepsculo: "As nuvens que se ajuntam em volta do sol que se pe ganham suas cores solenes de um olho que 
atentamente contempla a mortalidade do homem."  esse olho que contempla a morte atentamente que pinta as nuvens com suas cores.

Gustavo Coro, o primeiro escritor catlico que li com admirao e prazer quando era ainda adolescente, fez uso de uma outra metfora inesquecvel. No seu livro 
Lies de abismo ele conta a estria de um homem de cinqenta anos que descobre que vai morrer dentro de seis meses. A morte o transforma em poeta. Percebe ento 
que a vida  como uma sonata. To curta, no mais que vinte minutos. Mas nesses vinte minutos toda a beleza que era para ser dita  dita. Segue-se o silncio. Qualquer 
coisa que se lhe acrescente a estragar. Quem ouve sabe que o fim est chegando! Que pena! To linda! 

Mas no  possvel impedir que o fim chegue. A sonata s  bela se tiver um fim. O que  perfeito deseja morrer. 

A "Morte me que faz dormir" est  nossa espera, ao final da sonata. No, ela no nos mata. Ela nos acolhe. Nos pega no colo. Como a Piet.  a morte amiga. No 
se deve lutar contra ela. O que se deve fazer  ajud-la a cantar a cano de ninar. Todo gesto mdico herico seria profanao. Do mdico s se espera uma presena 
silenciosa.















O PRESPIO

Menino, l em Minas, havia uma coisa, uma nica coisa que eu invejava nos catlicos: no Natal, eles armavam prespios e ns, protestantes, tnhamos rvores de Natal. 
Mas as rvores, por bonitas que fossem, no me comoviam como o prespio: uma cabaninha coberta de sap, Maria, Jos, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados 
com reis anjos e estrelas, numa mansa fraternidade, contemplando uma criancinha. A contemplao de uma criancinha amansa o universo. Os catlicos mais humildes tinham 
alegria em fazer os seus prespios. As pobres salas de visita se transformavam num lugar sagrado. As casas ficavam abertas para quem quisesse se juntar aos reis, 
pastores e bichos. E ns, meninos, ps descalos - os sapatos s eram usados em ocasies especiais - peregrinvamos de casa em casa, para ver a mesma cena repetida.

Ns, meninos, com inveja, tratvamos de fazer os nossos prprios prespios. Os preparativos comeavam bem antes do Natal. Enchamos latas vazias de goiabada com 
areia, e nelas semevamos alpiste ou arroz. Logo os brotos verdes comeavam a aparecer. O cenrio do nascimento do Menino Jesus tinha de ser verdejante. Sobre os 
brotos verdes espalhvamos bichinhos de celulide. Naquele tempo ainda no havia plstico. Tigres, lees, bois, vacas, macacos, elefantes, girafas. Sem saber, estvamos 
representando o sonho do profeta que anunciava um dia em que os lees haveriam de comer capim junto com os bois e as crianas haveriam de brincar com as serpentes 
venenosas. A estrebaria, ns mesmos a fazamos com bambus. E as figuras que faltavam ns as completvamos artesanalmente com bonequinhos de argila. Tinha tambm 
de haver um laguinho onde nadavam patos e cisnes. No importava que os patos fossem maiores que os elefantes. No mundo mgico tudo  possvel. Era uma cena "naif", 
primitiva, indiferente s regras da perspectiva. Um prespio verdadeiro tem de ser infantil. E as figuras mais desproporcionais nessa cena tranqila ramos ns mesmos. 
Porque, se construmos o prespio, era porque ns mesmos gostaramos de estar dentro dele. ramos adoradores do Menino, juntamente com os bichos, as estrelas, os 
reis e os pastores - no importando que estivssemos de ps descalos e roupa suja.

Eu sempre me perguntei sobre as razes por que essa cena, em toda a sua irrealidade onrica, mexe tanto e to fundo comigo. No sinto alegria ao contemplar a cena. 
Sinto uma tranqila beleza triste. Gosto dela.  uma ausncia aconchegante. O Drummond escreveu um poema chamado Ausncia. No sei a prpsito de qu - se era por 
causa de um amor perdido, de uma pessoa querida que estava longe - a saudade doa. E ele escreveu, para se explicar e consolar: "Por muito tempo achei que a ausncia 
 falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje no a lastimo./ No h falta na ausncia./ A ausncia  um estar em mim./ E sinto-a, branca, to pegada, aconchegada 
nos meus braos,/ que rio e dano e invento exlamaes alegres,/ porque a ausncia, essa ausncia assimilada,/ ningum a rouba mais de mim." 

 isso: a cena - presente diante dos meus olhos - faz acordar uma ausncia na minha alma. Da a minha tristeza mansa. O prespio me faz lembrar algo que tive e perdi. 
Essa ausncia tem o nome de "saudade". Eu no tenho saudade.  a saudade que me tem. Mora, dentro de mim, a "ausncia" de um prespio. Saudade  sentimento de quem 
ama e perdeu o objeto do amor. Quem no amou e no perdeu o objeto do amor no sente saudade. Pode ficar alegrinho. As muitas celebraes alegres - no revelaro 
elas que os celebrantes no sofrem de saudade? Celebram, talvez, porque na sua alma no mora a "ausncia" de um prespio. Mas o que eu quero, mesmo,  fazer como 
o Drummond: aconchegar minha saudade nos meus braos. Porque saudade  um estar em mim. Assim, por favor, no tentem me consolar.

Vou transcrever um texto de Octvio Paz.  um dos meus textos favoritos. Por isso quero pedir que voc o leia bem devagar. Contemple as vacas do prespio que ruminam 
sem pressa. Leia bovinamente, como quem rumina...

"Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim; todas as tardes nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado feito de tijolos e tempo urbano. De repente, 
num dia qualquer, a rua d para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tnhamos visto e agora ficamos espantados 
por eles serem assim: tanto e to esmagadoramente reais. No, isso que estamos vendo pela primeira vez, j havamos visto antes. Em algum lugar, onde nunca estivemos, 
j estavam o muro, a rua, o jardim. E  surpresa segue-se a nostalgia. Parece que recordamos e quereramos voltar para l, para esse lugar onde as coisas so sempre 
assim, banhadas por uma luz antiqssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Ns tambm somos de l. Um sopro nos golpeia a fronte. Estamos encantados... Adivinhamos 
que somos de um outro mundo." 

Octvio Paz est descrevendo uma experincia mstica: quando, de repente, as coisas banais do cotidiano se abrem como portas, e somos levados a um outro mundo. Pode 
ser um perfume indefinvel, pode ser uma fotografia que j vimos vezes sem conta, pode ser uma msica vinda de longe... De repente experimentamos "xtase" - estamos 
fora de ns mesmos, encantados - somos transportados para um mundo que nem sabemos direito o que seja. J estivemos l. No mais estamos. E vem a nostalgia. Quereramos 
voltar. A alma sempre deseja voltar. O mundo das novidades  o mundo do seu exlio.

O prespio faz isso comigo. Aconteceu de verdade? Foi desse jeito mesmo? As crianas sabem que isso  irrelevante. Elas ouvem a estria e so transportadas para 
ela. Pedem que a mesma estria seja repetida, do mesmo jeito. No querem explicaes. No querem interpretaes. A beleza da estria lhes basta. A beleza da estria 
 alimento para a sua alma. Os telogos - que fiquem longe do prespio. Suas palavras atrapalham.

A cena do prespio exige a repetio. H de ser as mesmas bolachas de mel, os mesmos bolos perfumados, as mesmas msicas... Comidas diferentes e msicas novas no 
tm nada a ver. So profanaes. No pertencem ao prespio. Houve um tempo em que eu tocava piano. Abandonei porque eu no tinha talento. Mas ainda me sobra uma 
tcnica de principiante. Fui ao teclado e brinquei com os hinos antigos. Alguns deles soam como caixinhas de msica, a serem cantados baixinho, como se para fazer 
uma criancinha dormir. "Pequena vila de Belm/ repousa em teu dormir/ enquanto os astros l no cu esto a refulgir...". A maravilhosa melodia tradicional Greensleeves, 
que aparece na letra "Quem  o infante que no regao da me, tranqilo dormita?" Depois, o mais querido: "Noite de paz, noite de amor! Tudo dorme em derredor..." 
E a berceuse "Sem lar e sem bero, deitado em capim..." E h os hinos triunfantes que exigem os sons triunfantes do rgo que enchem o universo: Adeste Fideles, 
"Surgem anjos proclamando..." 

A cena do paraso  tambm uma cena maravilhosa e inspirou muitos artistas plsticos. Mas ela no me comove como a cena do prespio. Talvez porque no Paraso no 
houvesse crianas. No existe nada mais comovente que uma criana adormecida. Quem contempla uma criana adormecida tem de ficar bom, tem de ficar manso. Uma criana 
adormecida no pede festas: pede silncio e tranqilidade.

O prespio nos faz querer "voltar para l, para esse lugar onde as coisas so sempre assim, banhadas por uma luz antiqssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. 
Ns tambm somos de l. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de um outro mundo." Dentro de ns existe um prespio. Na mangedoura, dorme uma criana. O nome 
dessa criana  o nosso nome. Dorme em ns o "Menino-Deus" (Caderno C, Campinas, 21/12/2003).

OS PSSAROS E OS URUBUS
- Uma parbola ecumnica - 

Muitos e muitos milnios atrs, Deus Todo Poderoso cansou-se da vida que estava levando nos cus. Era muito montono. As mesmas coisas de sempre. L todos andavam 
de maneira solene, falando baixo e curvando-se em reverncias e mesuras. Os coros dos anjos que jamais desafinavam s cantavam Te Deums e Requiems. Eram magnficos. 
Mas mesmo o bonito, se repetido sempre, fica montono que, como o nome indica, mono + tono,   "samba de uma nota s"... Deus pensou que seria muito aborrecido passar 
o resto da eternidade  nessa monotonia. Isso sem levar em considerao que eternidade no tem resto. Porque resto  uma coisa que acaba. E a eternidade no acaba. 
O que est para trs  do mesmo tamanho do que est para frente que, por sua vez,  do mesmo tamanho que a eternidade inteira, para confuso dos matemticos. A, 
de repente, Deus foi possudo pelo esprito de um menino brincalho. Resolveu mudar tudo. Como vocs sabem muito bem, Deus jamais faz o pior. Tudo o que ele faz 
 melhor. Assim, o que ele fez era muito melhor do que os cus que j existiam e eram sua morada. Sua primeira providncia foi fazer uma faxina geral. Jogou nos 
pores inferiores do universo uns livros enormes de contabilidade que, segundo se dizia, seriam usados em acertos futuros. E ps fogo. A fogueira dos ditos livros 
est queimando at hoje e pode ser vista diariamente ( menos nos dias de chuva ) redonda e vermelha, atravessando o firmamento.  o sol. 

"Ningum tem crdito, ningum tem dbito" :  isso que est escrito na entrada desse lugar, muito embora o famoso poeta Dante Alliguieri, tivesse dito equivocadamente 
que o que estava escrito era "Deixai toda esperana vs que entrais". Pobre Dante! Era mope e no via bem... 

De fato, pr que livro de contabilidade onde se anotam dbitos e crditos se criana no faz contabilidade? Criana esquece fcil. Criana gosta  de brinquedo. 
Assim Deus sonhou com uma brinquedoteca imensa e disse: "Haja brinquedos!" E foi assim que o universo veio a existir. O universo  a brinquedoteca de Deus.

O que Deus fez foi colocar um pedacinho dele mesmo ( ou ser "dela mesma"? ) em cada coisa que criou. Deus se ps nas flores, no arco-iris, nas nuvens, nos regatos, 
nos peixes,  nas rvores, nas frutas, no vento, nos perfumes, nos insetos, nas estrelas, s um pedacinho. Sabe aqueles vitrais maravilhosos das catedrais, feitos 
com milhares de pedacinhos de vidro colorido? Nenhum pedacinho, isoladamente, diz a beleza do todo.  preciso que todos os pedacinhos estejam juntos, nenhum  mais 
importante que o outro. 

E Deus criou os pssaros, deliciosos brinquedos de asas. Smbolos da liberdade, eles voam. Smbolos da beleza, eles so de muitas cores e muitos cantos. Smbolos 
da paz de esprito, eles no tm ansiedades. Jesus at disse que deveramos ser como eles...

H pssaro de todo jeito: "amarelos canarinhos, com sete cores as saras, pequeninas corruiras, escandalosos bem-te-vis, delicados colibris, pintassilgos e andorinhas, 
tico-ticos e rolinhas, pica-paus e cardeais, pssaros pretos e pardais, negros jacus e urubus.... "

Todos lindos. Lindos por serem diferentes. Nas cores e nos cantos. Se fossem todos iguais seria um tdio? Todos amarelos? Todos verdes? Todos brancos? 
Pois Deus, que  uno e mltiplo como o vitral da catedral,  Deus que ama as diferenas, criou pssaros de todas as cores para que eles, na sua diferena de cores 
e de cantos, formassem um vitral vivo em que a sua beleza aparecesse. 
Aconteceu, entretanto, que uma raposa trocista, ao passear pela mata, viu um pssaro negro assentado sobre um galho e resolveu provocar a sua vaidade.

- "Bom dia senhor Urubu. Que lindas so as suas penas, to negras! Confesso no haver visto outro pssaro que pudesse se comparar ao senhor em beleza. Se a beleza 
do seu canto se compara  beleza de suas penas o senhor  a Fnix dessas florestas, a revelao plena da beleza divina. Imagino que Deus diz aos seus ouvidos coisas 
que ele no diz aos ouvidos dos outros pssaros! Se Deus desejar falar aos mortais em linguagem de pssaro, estou certo de que o senhor ser o seu porta-voz!"

O Urubu ficou encantado ao ouvir as palavras da raposa. E  acreditou. Os vaidosos sempre acreditam nas palavras  dos aduladores.

"-  isso mesmo", o Urubu falou consigo mesmo. "Cada pssaro tem um pedacinho de Deus. S um pedacinho. Mas eu, Urubu, tenho a plenitude da beleza divina. Assim 
sendo, por que perder o meu tempo ouvindo  o canto do sabi, o canto do pintassilgo, o canto do canrio?... O canto deles  uma nota solta. O meu canto  a sinfonia 
inteira! E  at perigoso que eles fiquem por a, cantando livres pelas matas e jardins. Porque pode ser que um ouvinte tolo fique gostando do seu canto e assim, 
por amor  beleza pequena de uma nota, perca a beleza plena da sinfonia.  preciso que se saiba que o canto de todos os pssaros conduz ao meu canto! Para a glria 
de Deus!

E foi assim que os Urubus comearam uma operao de guerra contra os outros pssaros, sob a alegao de que o seu canto desviava os demais bichos do pleno conhecimento 
da beleza divina. Espalhou-se pela floresta a palavra de ordem: "Todos os pssaros devem cessar o seu canto. Todos os pssaros devem cantar como os urubus. Fora 
do canto dos Urubus no h salvao!"
A passarinhada morreu de rir. Sabis, pintassilgos e canrios comentavam: " Os Urubus devem ter enlouquecido..." E nem ligaram. Continuaram a cantar como Deus havia 
ordenado que cantassem. 

Os Urubus, enfurecidos com a arrogncia e presuno dos pssaros que no reconheciam a sua superioridade, reuniram-se em conclio e tomaram uma  deciso: "Se no 
cantam como ns,  porta-vozes  Deus, cantam contra ns, cantam contra Deus. E quem canta contra Deus no tem o direito de cantar". 

Mas que passarinho pode parar de cantar o seu canto? O pedacinho de Deus que mora em cada um no descansa. Quer cantar! E eles continuaram a cantar.
Os Urubus se puseram a campo em defesa da beleza divina e de sua prpria beleza.  

Comearam a perseguir os pssaros que se atreviam a cantar o canto que Deus lhes ensinara. Era a nica forma de faze-los calar. Alguns pssaros se calaram por medo 
de serem expulsos da floresta a bicadas. Foram ento colocados num regime chamado de "silncio obsequioso" pelos urubus. Ningum entendeu o que "silencio obsequioso' 
queria dizer. Mas ningum discutiu. Com Urubu no se discute.  Silncio, os pssaros sabiam o que era. Mas   "obsequioso" eles no entendiam. Segundo o dicionrio 
"obsquio" quer dizer "benefcio", "benevolncia".  Que benefcio ou benevolncia existe em obrigar um pssaro a  cessar o canto que Deus lhe deu? Ou ser que o 
tal "obsequioso" vem de "obsquias", que quer dizer "funeral"?  possvel. O fato  que muitos dos que insistiram em cantar o seu prprio canto foram entregues  
raposa que, como se sabe, adora a carne tenra das aves...

O resultado foi que os pssaros de muitas cores e de muitos cantos fugiram daquela floresta sinistra. Foram em busca de outras florestas onde no houvesse Urubus 
e onde pudessem cantar todos os seus cantos, ao mesmo tempo, e diferentes,  para que assim se ouvisse a Grande Sinfonia.

Quanto aos Urubus, ficaram sozinhos na sua floresta. Os bichos que moravam l se mudaram, porque  no agentavam mais ouvir todo dia o mesmo canto montono, sempre 
igual. sem variaes, sem contraponto, sem improvisaes. Quanto a Deus no  preciso dizer que floresta Ele ou Ela passou a freqentar...
* * *

Essa estria  um dos meus cantos, pssaro que sou, evadido  das florestas religiosas. Ela me apareceu quando lia o livro  Dirio de uma mulher catlica a caminho 
da descrena, escrito por Laura Ferreira dos Santos, uma brilhante intelectual portuguesa ( escreveu tambm um maravilhoso livro sobre Nietzsche e educao ). Visceralmente 
catlica, catlica de corao, vive um dilaceramento intelectual e afetivo ao pensar sobre a sua Igreja.  pgina 51 ela comenta a encclica  Dominus Iesus, que 
liquida qualquer possibilidade de dilogo ecumnico. Cito: "E para a Congregao da F, no h dvida de que a Igreja Catlica  superior a todas as outras igrejas, 
que o "seu" cristianismo tem o copyright da autenticidade, pois " a Igreja de Cristo, no obstante as divises dos cristos, continua a existir plenamente s na 
Igreja Catlica. Existe uma s "subsistncia" da verdadeira Igreja, ao passo que fora da sua composio visvel existem apenas "elementa Ecclesiae"  ( elementos 
da Igreja )  que (...) tendem e conduzem para a Igreja Catlica." 

Assim, no existe razo ou  possibilidade de dilogo entre diferentes expresses do Cristianismo. Porque o dilogo s existe se eu admito no ser dono da verdade 
toda, que o meu interlocutor sabe alguma coisa que eu no sei. Como contei na estria dos pssaros e dos urubus... (Caderno C, Campinas, 07/12/2003)





RECEITA PARA MILAGRE

Tenho a impresso de j haver dito. No tem importncia. Direi de novo. A vida no  feita com novidades.  feita com repeties. Como na msica. H aquele tema, 
refro que se repete, se repete, se repete - e a gente quer sempre ouvir de novo. 

 sobre religio. J me perguntaram por que escrevo tanto sobre religio. H duas razes. Primeiro, porque a alma humana me fascina. Ela  um cenrio fantstico, 
com abismos escuros cobertos de neblina, cavernas infernais onde habitam demnios, ao lado de picos altssimos contra o cu azul, onde crescem flores coloridas e 
pssaros cantam nas rvores cheias de frutos. Paraso e inferno num mesmo corpo... Esses cenrios fantsticos pertencem ao mundo da religio.  E como minha vocao 
 a de andarilho, eu gosto de caminhar pelas trilhas da alma. A outra razo  que tenho tambm a vocao de conversador. Gosto de conversar com as pessoas simples, 
sem diploma. De preferncia na cozinha. Conversar  jogar peteca com palavras. Acontece que as pessoas comuns jogam muito essa peteca chamada religio. A eu entro 
no jogo... Se eu quiser me comunicar com os russos ser intil que eu lhes leia um poema em portugus. Minhas palavras lhes sero, para usar a imagem do apstolo 
Paulo, "como o bronze que soa ou o cmbalo que tine"  - sons sem sentido. Para conversar  preciso falar a linguagem daquele com quem converso. Isso tem a ver com 
minha vocao de educador e comunicador. Eu quero entender as pessoas. Eu quero que elas me entendam. Gosto de falar a linguagem da religio por ser esse um jogo 
de petecas que jogo bem, modstia  parte...

Ento, se j disse: repito. H dois tipos de religio. Um deles  a religio que oferece frmulas para manipular o sagrado.  Manipular o sagrado! Esse  o mais antigo 
e o mais profundo sonho da alma humana. Atrelar os deuses aos nossos arados! Engaiolar o Pssaro Encantado e lev-lo por onde eu for! Engarrafar o Vento! Por sela 
e freio em Pgasso, o cavalo voador, e cavalg-lo! O homem que fizesse isso j no seria homem! Seria um deus... E como a Serpente, aquela do Paraso, psicloga 
conhecedora dos desejos do corao humano, sabia desse desejo,  foi bem nesse lugar ela tentou: "... e sereis como os deuses!"   

Poder  bom. Sem poder a gente morre. Sade  poder. A doena, ao contrrio,   um declnio de poder. Fraqueza. Fraqueza e morte andam prximas. J imaginaram a 
euforia do homem quando ele conseguiu domar o fogo? Que extraordinrios poderes novos o fogo lhe deu! A luz, na noite escura; o calor, na noite fria; o fogo e a 
culinria; o poder para derreter os metais, na fundio; o poder para endurecer o barro, na cermica... Sem o fogo no haveria civilizao. Se a tecnologia nos d 
poderes extraordinrios, que poderes muito mais extraordinrios nos sero dados se conseguirmos manipular o sagrado para os nossos propsitos, da mesma forma como 
manipulamos o fogo! Pois Deus no  fogo? Afinal de contas os deuses so onipotentes, podem todas as coisas! 

E  isso que esse tipo de religio promete: atrelar os deuses aos nossos desejos, para que eles faam a nossa vontade. A orao do Pai Nosso dessa religio  meio 
diferente, embora ningum reconhea. Ela reza: "Seja feita a minha vontade..." Pois, no  para isso que os deuses existem? Para fazer a nossa vontade? De que me 
valeria um deus que no faz o que desejo? No seria melhor  procurar um outro? No  por isso que as pessoas trocam de religio? Bem dizia Dostoivski que o que 
os homens desejam no  Deus,  o milagre. Milagre  quando do meu desejo se realiza!  A jovem linda d o seu carinho a um homem repulsivo. Por amor? No. Ela o 
beija porque ele  rico e pode fazer as suas vontades. No  o seu amor que ela busca. Ela busca o seu dinheiro. Assim os homens buscam a Deus no por am-lo mas 
pelo milagre que ele pode operar. A prostituio acontece tambm no mundo das religies. Do jeito preciso como aconteceu com o homem que achou a lmpada mgica onde 
mora um gnio.  s esfregar a lmpada para que ele aparea e pergunte: "Mestre, qual  o teu desejo para que eu o realize?" Na estria do gnio o truque   simples: 
basta esfregar a garrafa. Nessas religies o "esfregar da garrafa" assume uma variedade de formas diferentes, dependendo da barraca, na feira das religies, em que 
se vendem e se compram as arapucas para se prender o sagrado: frmulas mgicas, gestos,  rezas, amuletos, livros santos ( dizem que so poderosos como proteo para 
os relmpagos, em dias de tempestade),  colares ( pendurados nos carros evitam acidentes),  promessas ( os deuses vendem  os seus servios por favores), peregrinaes 
a lugares santos (pois  l o poder do sagrado est mais prximo), exorcismos, copos de gua  frente dos aparelhos de TV, alm dos despachantes sagrados de vrios 
tipos, sendo que um deles promete rapidez, milagres para o dia de hoje. Alega-se, inclusive, que um adesivo num carro, dizendo ser ele propriedade exclusiva de Jesus, 
afugenta os ladres. Um ladro religioso jamais se arriscaria a roubar um carro de Jesus. O castigo seria certo ... Boas relaes com Deus so garantias de sucesso. 
S  pobre quem quer. Coitados dos profetas! Certamente no tinham boas relaes com Deus. No tiveram sucesso. No souberam manipular o sagrado para que ele realizasse 
os seus desejos!

Esse tipo de religio  o que  mais procurado porque o que mais desejamos  a realizao dos nossos desejos - mesmo que sejam desejos tolos, embora nunca reconheamos 
que nossos desejos podem ser tolos.... O seu nome prprio seria magia. Porque magia so as tcnicas de que se lana mo para manipular o sagrado para a realizao 
dos nossos desejos. Os profetas do Antigo Testamento o chamavam de idolatria. O idlatra  a pessoa que pensa que o sagrado est preso num objeto, qualquer objeto, 
um santinho, um templo, uma relquia, um livro, uma frmula, uma comida, uma bebida, um rito.  Estando preso, o sagrado est sob o seu controle: Deus est engaiolado. 
 possvel lev-lo para onde quero. Posso us-lo para fazer a minha vontade. Mas um Deus engaiolado deixou de ser um Deus! 

O outro tipo de religio? Pena. O espao chegou ao fim. Conversaremos depois... 
Ao final da rua Joana de Gusmo, entre o restaurante R-chu e a floricultura  Florssima, havia uma pequena praa com rvores altas, completamente abandonada. A 
"Florssima" a adotou e a transformou num lindo jardim! Se empresas e moradores se dispusessem a "adotar" praas e ruas a cidade ficaria muito mais bonita!
Hans e Tomiko ( foi a Tomiko que me fez comprar o blazer vermelho...) se mudaram de So Paulo para Caldas, municpio onde est  Pocinhos, lugar de guas termais 
curativas. Esto felizes, no processo de criar um centro cultural para a populao local. Confessaram-me: H uma coisa de que tm muita saudade: a Rdio Cultura 
de So Paulo. Msica boa o dia inteiro.  Variada. Acorda-se pela manh, liga-se o rdio e pronto! Nunca vivi em So Paulo. Mas tive experincia semelhante em New 
York. Era uma delcia. A msica faz bem  alma. Tranquiliza. Pe as ondas Alfa em funcionamento. J sugeri a vrios prefeitos, por meio dessa  coluna, que conseguissem 
uma torre de retransmisso da Rdio Cultura.  Nunca obtive resposta. Nem sei se isso  possvel. Gostaria que algum entendido me esclarecesse. E gostaria que aqueles 
que aprovam a idia escrevessem para o jornal. (Caderno C, 30/11/2003)




SOBRE OS PERIGOS DA LEITURA

Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente da comisso encarregada da seleo dos candidatos ao doutoramento, o que  um sofrimento.
Dizer "esse entra, esse no entra"  uma responsabilidade dolorida da qual no se sai sem sentimentos de culpa. Como, em 20 minutos de conversa, decidir sobre a 
vida de uma pessoa amedrontada? Mas no havia alternativas. Essa era a regra.

Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. A tive uma idia que julguei brilhante. 
Combinei com os meus colegas que faramos a todos os candidatos uma nica pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trmulo e se esforando por 
parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: "Fale-nos sobre aquilo que voc gostaria de falar!".

Pois  claro! No nos interessvamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas tm boa memria. Interessvamo-nos por aquilo que ele pensava. 
O candidato poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procurvamos as idias que corriam no seu sangue!

A reao dos candidatos, no entanto, no foi a esperada. Aconteceu o oposto: pnico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse 
totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso, eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, 
a partir da infncia. Mas falar sobre os prprios pensamentos -ah, isso no lhes tinha sido ensinado!

Na verdade, nunca lhes havia passado pela cabea que algum pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabea que os seus 
pensamentos pudessem ser importantes.

Uma candidata teve um surto e comeou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta no era para valer. No 
era possvel que estivssemos falando a srio. Deveria ser uma dessas "pegadinhas" sdicas cujo objetivo  confundir o candidato. Por vias das dvidas, ela optou 
pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que havia lido a bibliografia. A eu a interrompi e lhe disse: "Eu j li esse livro. Eu sei o que est escrito nele. 
E voc est repetindo direitinho. Mas ns no queremos ouvir o que j sabemos. Queremos ouvir o que no sabemos. Queremos que voc nos conte o que voc est pensando, 
os pensamentos que a ocupam...". Ela no conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.

Parece que esse processo de destruio do pensamento individual  consequncia natural das nossas prticas educativas. Quanto mais se  obrigado a ler, menos se 
pensa. Schopenhauer tomou conscincia disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura.

O que se toma por bvio e evidente  que o pensamento est diretamente ligado ao nmero de livros lidos. Tanto assim que se criaram tcnicas de leitura dinmica 
que permitem ler "Grande Serto: Veredas" em pouco mais de trs horas. Ler dinamicamente, como se sabe,  essencial para se preparar para o vestibular e para fazer 
os clssicos "fichamentos" exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrrio: " por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de no ler  sumamente 
importante".

Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro, e  preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: "Quando lemos, outra pessoa pensa por ns: s repetimos o seu processo 
mental". Quanto a isso, no h dvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade no lemos. Nossa ateno no est no texto. Ele continua: "Durante 
a leitura, nossa cabea  apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Da se segue que aquele que l muito 
e quase o dia inteiro perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta prpria. Esse, no entanto,  o caso de muitos eruditos: leram at ficar estpidos. 
Porque a leitura contnua, retomada a todo instante, paralisa o esprito ainda mais que um trabalho manual contnuo".

Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos s faziam uma coisa: passar as pginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade 
de pensar por si mesmos. "Se no esto virando as pginas de um livro, eles no conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando, eles esto, na realidade, simplesmente 
respondendo a um estmulo -o pensamento que leram... Na verdade eles no pensam; eles reagem. (...) Vi isso com meus prprios olhos: pessoas bem-dotadas que, aos 
30 anos, haviam se arruinado de tanto ler. De manh cedo, quando o dia nasce, quando tudo est nascendo, ler um livro  simplesmente algo depravado..."

E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma nica coisa: o prazer de ler! Sobre isso falaremos... 



 









SOB O FEITIO DOS LIVROS

Nietzsche estava certo: "De manh cedo, quando o dia nasce, quando tudo est nascendo - ler um livro  simplesmente algo depravado".  o que sinto ao andar pelas 
manhs pelos maravilhosos caminhos da fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronmico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo que li nos livros.  preciso que a cabea 
esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualvel na difcil arte de ver. Dizia ele que "pensar 
 estar doente dos olhos". 

Mas meus esforos so frustrados. As coisas que vejo so como o beijo do prncipe: elas vo acordando os poemas que aprendi de cor e que agora esto adormecidos 
na minha memria. Assim, ao no pensar da viso, une-se o no-pensar da poesia. E penso que o meu mundo seria muito pobre se em mim no estivessem os livros que 
li e amei. Pois, se no sabem, somente as coisas amadas so guardadas na memria potica, lugar da beleza. 

"Aquilo que a memria amou fica eterno", tal como o disse a Adlia Prado, amiga querida. Os livros que amo no me deixam. Caminham comigo. H os livros que moram 
na cabea e vo se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa. Mas h os livros que moram no corpo. Esses so eternamente jovens. Como no amor, uma vez no 
chega. De novo, de novo, de novo... 

Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me. Gostei. Mas meu sorriso entortou quando disse: "Vo tambm cinco adolescentes...". Adolescentes 
podem ser uma alegria. Mas podem ser tambm uma perturbao para o esprito. Assim, resolvi tomar minhas providncias. Comprei uma arma de amansar adolescentes. 
Um livro. Uma verso condensada da "Odissia", de Homero, as fantsticas viagens de Ulisses de volta  casa, por mares traioeiros... 

Primeiro dia: praia; almoo; sono. L pelas cinco, os dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E antes que tivessem idias prprias eu tomei a iniciativa. Com 
voz autoritria, dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor: "Ei, vocs... Venham c na sala. Quero lhes mostrar uma coisa". No consultei as bases. Teria sido 
terrvel. Uma deciso democrtica das bases optaria por ligar a televiso. Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam? Peguei o livro e comecei a leitura. 
Ao espanto inicial seguiu-se silncio e ateno. Vi, pelos seus olhos, que j estavam sob o domnio do encantamento. Da para frente foi uma coisa s. No me deixavam. 
Por onde quer que eu fosse, l vinham eles com a "Odissia" na mo, pedindo que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso. 

Essa experincia me fez pensar que deve haver algo errado na afirmao que sempre se repete de que os adolescentes no gostam da leitura. Sei que, como regra, no 
gostam de ler. O que no  a mesma coisa que no gostar da leitura. Lembro-me da escola primria que frequentei. Havia uma aula de leitura. Era a aula que mais amvamos. 
A professora lia para que ns ouvssemos. Leu todo o Monteiro Lobato. E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: "Heidi", "Poliana", "A Ilha do Tesouro". 

Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo  que no havia provas ou avaliaes. Era prazer puro. E estava certo. Porque esse  o objetivo da literatura: 
prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer  transformar a literatura em informaes que podem ser armazenadas na cabea. Mas o lugar da literatura no  
a cabea:  o corao. A literatura  feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformaes alqumicas que deseja realizar. 
Se no concordam, que leiam Joo Guimares Rosa, que dizia que literatura  feitiaria que se faz com o sangue do corao humano. 

Quando minha filha estava sendo introduzida na literatura, o professor lhe deu como dever de casa ler e fichar um livro chatssimo. Sofrimento dos adolescentes, 
sofrimento para os pais. A pura viso do livro provocava uma preguia imensa, aquela preguia que Roland Barthes declarou ser essencial  experincia escolar. 

Escrevi uma carta delicada ao professor, lembrando-lhe que Jorge Luis Borges havia declarado que no havia razo para ler um livro que no d prazer quando h milhares 
de livros que do prazer. Sugeri-lhe comear por algo mais prximo da condio emotiva dos jovens. Ele me respondeu com o discurso de esquerda, que sempre teve medo 
do prazer: "O meu objetivo  produzir a conscincia crtica...". 

Quando eu li isso, percebi que no havia esperana. O professor no sabia o essencial. No sabia que literatura no  para produzir conscincia crtica. O escritor 
no escreve com intenes didtico-pedaggicas. Ele escreve para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler so formas de fazer amor.  por isso que os amores 
pobres em literatura ou so de vida curta, ou so de vida longa e tediosa... Parodiando as palavras de Jesus, "nem s de beijos e transas viver o amor, mas de toda 
palavra que sai das mos dos escritores...". Aprendiz, 27/01/2004




A ARTE DE SABER LER

Ela me olhou e disse: "Encontrei um lindo poema de Fernando Pessoa". Fiquei contente, porque gosto muito de Fernando Pessoa. A ela disse o primeiro verso. Fiquei 
mais contente ainda, porque era um poema que eu conhecia. Ato contnuo, ela abriu o livro e comeou a ler. Epa! Senti-me mal. As palavras estavam certas. Mas ela 
tropeava, parava onde no devia, no tinha ritmo nem msica. No, aquilo no era Fernando Pessoa, embora as palavras fossem suas.

Senti o mesmo que j sentira em audies de alunos principiantes que, via de regra, so um sofrimento para os que ouvem, o maior desejo sendo que a msica chegue 
ao fim e que a aflio termine. Percebi, ento, que a arte de ler  exatamente igual  arte de tocar piano ou qualquer outro instrumento.

Como  que se aprende a gostar de piano? O gostar comea pelo ouvir.  preciso ouvir o piano bem tocado. H dois tipos de pianistas. Alguns, raros, como Nelson Freire, 
j nascem com o piano dentro deles. Eles e o piano so uma coisa s. O piano  uma extenso dos seus corpos. 

Outros, aos quais dou o nome de "pianeiros", so como eu, que me esforcei sem sucesso para ser pianista (consolo-me pensando que o mesmo aconteceu com Friedrich 
Nietzsche. Atreveu-se at mesmo a enviar algumas de suas composies ao famoso pianista Hans von Bllow, que as devolveu com o conselho de que ele deveria se dedicar 
 filosofia).

Diferentemente dos pianistas, que nascem com o piano dentro do corpo, os "pianeiros" tm o piano do lado de fora. Esforam-se por pr o piano do lado de dentro, 
mas  intil. As notas se aprendem, mas isso no  o bastante. Os dedos esbarram, erram, tropeam, e aquilo que deveria ser uma experincia de prazer se transforma 
numa experincia de sofrimento no s para quem ouve mas tambm para quem toca.

Um pianista, quando toca, no pensa nas notas. A partitura j est dentro dele. Ele se encontra num estado de "possesso". Nem pensa na tcnica. A tcnica ficou 
para trs,  um problema resolvido. Ele simplesmente "surfa" sobre as teclas seguindo o movimento das ondas. Pois  precisamente assim que se aprende o gosto pela 
leitura: ouvindo-se o artista -o que l- interpretar o texto. 

No estou usando a palavra "interpretar" no sentido comum de dizer o que o autor queria dizer, mas no conseguiu, coisa que se tenta fazer nas aulas de literatura 
(o que  que o autor queria dizer? Ele queria dizer o que disse. Se quisesse dizer uma outra coisa, ele teria escrito essa outra coisa). Estou usando "interpretar" 
no sentido artstico, teatral. O "intrprete"  o possudo.  ele que faz viver -seja a partitura musical silenciosa, seja o texto teatral ou potico, silencioso 
na imobilidade da escrita.

Disse William Shakespeare no segundo ato de Hamlet: "No  incrvel que um ator, por uma simples fico, um sonho apaixonado, amolde tanto a sua alma  imaginao 
que todo se lhe transfigura o semblante, por completo o rosto lhe empalidea, lgrimas vertam dos seus olhos, suas palavras tremam, e inteiro o seu organismo se 
acomode a essa mesma fico?". Tenho a impresso de que, se os jovens no gostam de ler,  porque no tiveram a experincia de ouvir a leitura feita por um possudo.

Uma lembrana feliz que tenho do meu irmo Murilo, j encantado, era que ele lia para mim, menino, livros de aventura: "Nufragos de Borno", com um enorme gorila 
na capa, "Prisioneiros dos Pampas", com dois homens lutando  faca na capa. Isso aconteceu h 63 anos, e no esqueci. Ainda posso ouvir a sua voz possuda pela emoo. 
 a experincia de ouvir que nos faz querer dominar a tcnica da leitura para poder penetrar na emoo do texto.

H de se dominar a tcnica da leitura da mesma forma que se domina a tcnica do piano. Acontece que o domnio da tcnica  cansativo e freqentemente aborrecido. 

Antigamente, o aprendiz de piano tinha de gastar horas nos montonos exerccios de mecanismo do Hannon. Mas mesmo os grandes pianistas que j dominaram a essncia 
da tcnica tm de gastar tempo e ateno debulhando as passagens complicadas que no podem ser pensadas ao ser tocadas. Todo pianista tem de dominar os estudos de 
Chopin, de dificuldades tcnicas transcendentais, maravilhosos.

Mas s tm pacincia para suportar o aborrecimento da tcnica aqueles que foram fascinados pela beleza da msica. Estuda-se a tcnica por amor  interpretao, que 
 o evento orgistico de possesso.

Por isso eu tenho sugerido a escolas e prefeituras que promovam "concertos de leitura" para seduzir os ouvintes  beleza da leitura. No custam nada. Uma nica coisa 
 necessria: o artista, o intrprete... 

Um concerto de leitura poderia se organizar assim: primeira parte, poemas da Adlia Prado ( impossvel no gostar dela...); segunda parte, "O Afogado Mais Lindo 
do Mundo", conto de Gabriel Garca Mrquez; terceira parte, haicais de Bash. Acho que todo mundo gostaria e sairia decidido a dominar a arte da leitura. 17/02/2004

 





COMO ENSINAR O PRAZER DE LER

No se pode ensinar as delcias do amor com aulas de anatomia e fisiologia dos rgos sexuais. Se assim fosse, o livro "Cntico dos Cnticos", que est na Bblia, 
nunca teria sido escrito. No se pode ensinar o prazer da leitura com aulas sobre as cincias da linguagem. O conhecimento da gramtica e das cincias da interpretao 
no faz poetas. Noel Rosa sabia disso e cantou: "Samba no se aprende no colgio...". 

Tomei o livro de poemas de Robert Frost e li um dos seus mais famosos poemas. "Os bosques so belos, sombrios, fundos. Mas h muitas milhas a andar e muitas promessas 
a guardar antes de poder dormir. Sim, antes de poder dormir."

Li vagarosamente. Porque cada poema tem um andamento que lhe  prprio. Como na msica. Se o primeiro movimento da "Sonata ao Luar", de Beethoven, que todos j ouviram 
e desejam ouvir de novo, "adagio sostenuto", fosse tocado -exatamente as mesmas notas!- como "presto", rapidamente a sua beleza se iria. Ficaria ridculo. Porque 
o "presto"  incompatvel com aquilo que o primeiro movimento est dizendo. O tempo de uma pea musical pertence  sua prpria essncia.

J sugeri que os escritores deveriam imitar os compositores, que, como medida protetora da beleza, colocam, ao incio de uma pea, uma informao sobre o tempo em 
que ela deve ser tocada: grave, andante, "vivace", "maestoso", alegro. Cada texto literrio tem tambm o seu prprio tempo.

H textos que devem ser lidos ao ritmo de uma criana pulando corda e dando risadas. Como o poema "Leilo de Jardim", de Ceclia Meireles: "Quem me compra um jardim 
com flores? Borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos, ovos verdes e azuis nos ninhos?". O poema inteiro  marcado por essa alegria infantil, saltitante. 
Quando se passa para a sua "Elegia", escrita para a sua av morta, o clima  outro. H uma tristeza profunda. H de se ler lentamente, com sofrimento: "Minha primeira 
lgrima caiu dentro dos teus olhos. Tive medo de a enxugar: para no saberes que tinha cado".
 
Li vagarosamente. O poema pede para ser lido vagarosamente. Terminada a leitura, no me atrevi a dizer nada.  preciso que haja silncio. A msica s existe sobre 
um fundo de silncio.  no silncio que a beleza coloca os seus ovos.  no silncio que as palavras so chocadas.  no silncio que se ouve aquela outra voz mencionada 
por Fernando Pessoa, voz habitante dos interstcios das palavras do poeta.

(Por isso fico profundamente irritado quando algum fala enquanto a msica  tocada.  como se estivesse a ver uma partida de futebol enquanto faz amor...)

Passados alguns momentos de silncio (como o silncio que existe entre os dois movimentos de uma sonata), pus-me a ler o mesmo poema de novo, com a mesma msica. 
E a, ento, no silncio que se seguiu  segunda leitura, ouvi um soluo no fundo da sala. Uma jovem chorava. Jamais me passaria pela cabea que ela estivesse chorando 
por causa do poema. Embora ele me comova muito, minha comoo nunca chegou ao choro. Pensei que se tratasse de um sofrimento de sua vida privada. Diante de um soluo, 
tudo pra. Agora, o que importava no era o poema, era aquele soluo.

"O que aconteceu?", perguntei. "No sei, professor. Esse poema me deu uma tristeza imensa." Eu quis entender: "Mas o que, no poema, lhe deu tristeza?". "No sei, 
professor. S sei que esse poema me faz chorar..." Lembrei-me de Fernando Pessoa: "E a melodia que no havia, se agora a lembro, faz-me chorar". Grande mistrio, 
esse: o que no h e que provoca o choro.

Como disse Paul Valry, vivemos pelo poder das coisas que no existem. Por isso, os deuses so to poderosos... (Essa jovem, que assim me marcou de forma inesquecvel, 
pouco tempo depois morreu num desastre de carro. Espero que ela, no outro mundo, tenha visitado os bosques "belos, sombrios e fundos" de Robert Frost.)

Houve beleza e mistrio porque eu no me meti a interpretar o poema. E, no entanto, a interpretao de textos parece ser uma das obsesses dos programas escolares. 
Se o meu propsito fosse interpretar o poema de Frost, para aproveitar o tempo, eu o teria lido um pouco mais depressa, teria desprezado o silncio e no teria repetido 
a leitura.

Essas coisas nada tm a ver com a interpretao. A interpretao acontece a partir daquilo que est escrito -se devagar ou depressa, no importa. Minha primeira 
pergunta teria sido: "O que  que Robert Frost queria dizer?".

Toda interpretao comea com essa pergunta.  a pergunta que surge numa zona de obscuridade: h sombras no texto. O intrprete  um ser luminoso. No suporta sombras. 
Ele traz suas lanternas, suas idias claras e distintas, e trata de iluminar os bosques sombrios... No percebe que, ao tentar iluminar os bosques, dele fogem as 
criaturas encantadas que habitam as sombras. Esquecem-se do que disse Gaston Bachelard: "Parece que existem em ns cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante...". 
O inconsciente  um bosque sombrio... (Continuamos a conversa ms que vem...) Folha Sinapse, 30/03/2004




INTERPRETAR  COMPREENDER

"Hoje vamos interpretar um poema", disse a professora de literatura. "Trata-se de um poema mnimo da extraordinria poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen", 
continuou. "O seu ttulo  'Intacta Memria'. Por favor, prestem ateno." E com essas palavras comeou a leitura.
"Intacta memria -se eu chamasse
Uma por uma as coisas que adorei
Talvez que a minha vida regressasse
Vencida pelo amor com que a sonhei."

Ela tira os olhos do livro e fala: "O que  que o autor queria dizer ao escrever esse poema?". Essa pergunta  muito importante. Ela  o incio do processo de interpretao.

Na vida estamos envolvidos o tempo todo em interpretar. Um amigo diz uma coisa que a gente no entende. A gente diz logo: "O que  que voc quer dizer com isso?". 
A ele diz de uma outra forma, e a gente entende. E a interpretao, todo mundo sabe disso,  aquilo que se deve fazer com os textos que se l. Para que sejam compreendidos. 
Razo por que os materiais escolares esto cheios de testes de compreenso. Interpretar  compreender.
 claro que a interpretao s se aplica a textos obscuros. Se o meu amigo tivesse dito o que queria dizer de forma clara, eu no lhe teria feito a pergunta. Interpretar 
 acender luzes na escurido. Lembra-se do poema de Robert Frost, que diz: "Os bosques so belos, sombrios, fundos..."? Acesas as luzes da interpretao na escurido 
dos bosques, suas sombras desaparecem. Tudo fica claro. 

"O que  que o autor queria dizer?" Note: o autor queria dizer algo. Queria dizer, mas no disse. Por que ser que ele no disse o que queria dizer? S existe uma 
resposta: "Por incompetncia lingstica". Ele queria dizer algo, mas o que saiu foi apenas um gaguejo, uma coisa que ele no queria dizer...

A interpretao, assim, se revela necessria para salvar o texto da incompetncia lingstica do autor... Os poetas so incompetentes verbais. Felizmente, com o 
uso dos recursos das cincias da linguagem, salvamos o autor de sua confuso e o fazemos dizer o que ele realmente queria dizer. Mas, se o texto interpretado  aquilo 
que o autor queria dizer, por que no ficar com a interpretao e jogar o texto fora?

 claro que tudo o que eu disse  uma brincadeira verdadeira.  preciso compreender que o escritor nunca quer dizer alguma coisa. Ele simplesmente diz. O que est 
escrito  o que ele queria dizer. Se me perguntam "O que  que voc queria dizer?", eu respondo: "Eu queria dizer o que disse. Se eu quisesse dizer outra coisa, 
eu teria dito outra coisa, e no aquilo que eu disse".

Estremeo quando me ameaam com interpretaes de textos meus. Escrevi uma estria com o ttulo "O Gamb Que No Sabia Sorrir".  a estria de um gambazinho chamado 
Cheiroso, que ficava pendurado pelo rabo no galho de uma rvore. Uma escola me convidou para assistir  interpretao do texto que seria feita pelas crianas. Fui 
com alegria. Iniciada a interpretao, eu fiquei pasmo! A interpretao comeava com o gamb. O que  que o Rubem Alves queria dizer com o gamb? Foram ao dicionrio 
e l encontraram: "Gamb: nome de animais marsupiais do gnero Didelphis, de hbitos noturnos, que vivem em rvores e so fedorentos. So onvoros, tendo predileo 
por ovos e galinhas". Seguiam descries cientficas de todos os bichos que apareciam na estria. Fiquei a pensar: "O que  que fizeram com o meu gamb? Meu gambazinho 
no  um marsupial fedorento".

Octavio Paz diz que a resposta a um texto nunca deve ser uma interpretao. Deve ser um outro texto. Assim, quando um professor l um poema para os seus alunos, 
deve fazer-lhes uma provocao: "O que  que esse poema lhes sugere? O que  que vocs vem? Que imagens? Que associaes?". Assim o aluno, em vez de se entregar 
 duvidosa tarefa de descobrir o que o autor queria dizer, entrega-se  criativa tarefa de produzir o seu prprio texto literrio.

Mas h um tipo de interpretao que eu amo.  aquela que se inspira na interpretao musical. O pianista interpreta uma pea. Isso no quer dizer que ele esteja 
tentando dizer o que o compositor queria dizer. Ao contrrio. Possudo pela partitura, ele a torna viva, transforma-a em objeto musical, tal como ele a vive na sua 
possesso. Os poemas assim podem ser interpretados, transformados em gestos, em dana, em teatro, em pintura. O meu amigo Laerte Asnis transformou a minha estria 
"A Pipa e a Flor" num maravilhoso espetculo teatral. Pela arte do intrprete -o Laerte, palhao-, o texto que estava preso ao livro fica livre, ganha vida, movimento, 
msica, humor. Com isso, a estria se apossa daqueles que assistem ao espetculo. E o extraordinrio  que todos entendem, crianas e adultos. Eu chorei na primeira 
vez que o vi.

O que  que a Sophia de Mello Breyner Andresen queria dizer com o seu poema? No sei. S sei que o seu poema faz amor comigo.

Rubem Alves, 70,  educador e escritor, autor de "Quando Eu Era Menino" (Papirus), "Lies de Feitiaria" (Loyola), "Pai Nosso" (Paulus) e "Ao Professor com Meu 
Carinho" (Verus), entre outros. Atualmente, dedica-se s releituras de "Zorba, o Grego", de Nikos Kazantzakis, "Cem Anos de Solido", de Gabriel Garcia Mrquez, 
e "Grande Serto: Veredas", de Joo Guimares Rosa. F Sinapse, 27/04/2004


BAGUNA

Voc me pergunta sobre o que fazer para curar-se de uma terrvel doena chamada baguna. A baguna cria situaes terrveis: livros perdidos, objetos desaparecidos, 
cartas no respondidas, aniversrios e casamentos esquecidos, contas no pagas. Quando a baguna s machuca a gente, o sofrimento  suportvel.  s a gente que 
sofre as consequncias. Mas quando tem a ver com compromissos no atendidos, paira sempre a certeza, na cabea de quem foi vtima, de que foi falta de ateno, grosseria. 
Eu poderia lhe indicar uma lista de livros com conselhos prticos do tipo " cada coisa em seu lugar, um lugar para cada coisa"; anote tudo numa agenda, etc. Mas 
eu lhe asseguro: esses conselhos so inteis. Acho mesmo que baguna  doena incurvel.
Minha me fracassou como educadora. Ou eu fracassei como aprendiz. Enquanto eu morava na casa dela, ela lutou. Argumentou. Ficou brava. Inutilmente. Vez por outra 
eu me enchia de vergonha e de boas intenes e dizia: "Vou por tudo em ordem". As boas intenes duravam por poucos dias. Logo eu me via de novo afogado - isso mesmo, 
afogado; o bagunado vive afogado por sua prpria baguna - esforando-me por me manter  tona da confuso das minhas coisas. 
Recebi, faz tempo, um presente de uma mulher que desconheo. Veio embrulhado em papel bonito. Abri. Era um quadrinho bordado a ponto de cruz. Est pendurado  minha 
frente: "Deus abenoe esta baguna". Ela nunca havia entrado no meu escritrio - mas  claro que ela suspeitava...
Baguna de idias no  coisa m. O inconsciente  uma baguna infernal, idias e imagens danando o tempo todo numa orgia de desordem incontrolvel.  dessa baguna 
que nasce a literatura. Quem l nem imagina! V as idias organizadas, bonitinhas, uma atrs da outra. No tem a mnima idia do caos de onde nasceram. Para meu 
consolo Nietzsche dizia que o segredo da criatividade  ser rico em contradies. Os textos sagrados dizem que no princpio era o caos; foi do caos que nasceu a 
beleza. Com Deus, tudo bem, porque ele no se esquece de nada. Mas o problema  com a gente. Esquecemos - e com o esquecimento ferimos sem querer pessoas que amamos. 
A psicanlise tem a mania de explicar todo esquecimento como ato de uma vontade inconsciente. A gente esquece porque, no fundo, "quis" esquecer. Quando o paciente 
se esquece da sesso de anlise ou se esquece do que ia dizer, o psicanalista diz logo: "Aha! Se voc esqueceu e porque queria esquecer!" Discordo. Nem tudo pode 
ser explicado psicanaliticamente. Como se sabe Freud era um fumador inveterado de charutos. Sandor Ferenczi, seu discpulo e colega, ficava incomodado com o hbito 
fedorento do mestre, e se punha a fazer interpretaes psicanalticas orais-flicas do charuto, ao que Freud respondia: "Sandor, por vezes um charuto  s um charuto..."
Por vezes o esquecimento no esconde nem desateno e nem grosseria:  apenas um resultado dessa doena que se chama baguna. 
Comigo mesmo acaba de acontecer uma coisa muito ruim. A "Escola de Educao Bsica e Educao Profissional "N. S. das Dores"", de Artur Nogueira, preparou um espetculo 
de ginstica e dana sobre um livro meu, o "Navegando". Enviaram-me convite para estar presente. Eu tinha de estar presente. Coloquei o convite da escola na pilha 
sempre crescente de cartas que se encontra  esquerda da minha escrivaninha. Pensei: vou fazer as coisas urgentes que tenho de fazer imediatamente, e logo responderei. 
Afinal de contas, havia tempo bastante. Ao mesmo tempo, eu estava comprimido no preparo de falas que deveria dar em Portugal. Enquanto isso, a pilha continuava a 
crescer. E o convite ficou submerso. E eu me esqueci. No respondi. No compareci. No pude sentir alegria. No pude agradecer. A escola tem todo o direito de pensar 
que foi desateno. Um convite como aquele no pode ser esquecido. Mas eu me esqueci. Me esqueci por causa dessa doena incurvel chamada baguna. Estou, ento, 
publicamente, pedindo perdo por um ato que no pode ser perdoado: o esquecimento de um convite de amor. 
E vem voc, me pedindo conselhos sobre como curar a sua baguna. Depois que eu curar a minha lhe passarei a receita. Mas, para dizer a verdade, acho que essa doena 
no tem cura...





DIPLOMA NO  SOLUO

Vou confessar um pecado: s vezes, fao maldades. Mas no fao por mal. Fao o que faziam os mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres 
passavam no pensamento dos discpulos. Eles sabiam que s se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu gosto de passar rasteiras em certezas 
de jovens e de velhos... 

Pois o que eu fao  o seguinte. L esto os jovens nos semforos, de cabeas raspadas e caras pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no 
vestibular. Esto pedindo dinheiro para a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "No vou dar dinheiro. Mas vou dar um conselho. Sou professor 
emrito da Unicamp. O conselho  este: salvem-se enquanto  tempo!". A o sinal fica verde e eu continuo.

"Mas que desmancha-prazeres voc !", vocs me diro.  verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente 
a isto: eles esto enganados.

Esto alegres porque acreditam que a universidade  a chave do mundo. Acabaram de chegar ao ltimo patamar. As celebraes tm o mesmo sentido que os eventos iniciticos 
-nas culturas ditas primitivas, as provas a que tm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram 
de ser crianas. Agora so adultos, com todos os seus direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem dizer: "Deixei 
o cursinho. Estou na universidade".

Houve um tempo em que as celebraes eram justas. Isso foi h muito tempo, quando eu era jovem. Naqueles tempos, um diploma universitrio era garantia de trabalho. 
Os pais se davam como prontos para morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da vida; 2) a filha tirava 
o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso no casasse; 3) o filho entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.

O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma no precisava trabalhar com as mos, como os mecnicos, pedreiros e carpinteiros, 
que tinham mos rudes e sujas.

Para provar para todo mundo que no trabalhavam com as mos, os diplomados tratavam de pr no dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profisses: 
mdicos, advogados, msicos, engenheiros. At os bispos tinham suas pedras.

(Ah! Ia me esquecendo: os pais tambm se davam como prontos para morrer quando o filho entrava para o seminrio para ser padre -aos 45 anos seria bispo- ou para 
o exrcito para ser oficial -aos 45 anos seria general.)

Essa iluso continua a morar na cabea dos pais e  introduzida na cabea dos filhos desde pequenos. Profisso honrosa  profisso que tem diploma universitrio. 
Profisso rendosa  a que tem diploma universitrio. Cria-se, ento, a fantasia de que as nicas opes de profisso so aquelas oferecidas pelas universidades.

Quando se pergunta a um jovem "O que  que voc vai fazer?", o sentido dessa pergunta  "Quando voc for preencher os formulrios do vestibular, qual das opes 
oferecidas voc vai escolher?". E as opes no oferecidas? Haver alternativas de trabalho que no se encontram nos formulrios de vestibular?

Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso 
mesmo, de pessoas desejosas de diplomas e prontas a pagar o preo. Enquanto houver jovens que no passam nos vestibulares das universidades do Estado, haver mercado 
para a criao de universidades particulares.  um bom negcio.

Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, ento, a multido de jovens com diploma na mo, mas que no conseguem arranjar emprego. Por uma razo aritmtica: 
o nmero de diplomados  muitas vezes maior que o nmero de empregos.

J sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre" que freqentam, um ofcio: marceneiro, mecnico, cozinheiro, jardineiro, 
tcnico de computador, eletricista, encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofcios possveis  imenso. Pena que, nas escolas, as crianas e os 
jovens no sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais rendosas.

Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade,  posio de reitor de um grande colgio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posio 
porque era obrigado a fazer discursos. E ele tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicaes. Voltou com a famlia para o seu pas, os 
Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o Fulano?". Respondeu-me: "Felicssimo.  motorista de um caminho gigantesco que 
cruza o pas!". 25/05/2004 -  Folha Sinapse




11 de Setembro de 2004

Queridos amigos: Bem-vindos  minha casa. No prximo dia 15 eu estarei "desfazendo" 71 anos de vida. Nunca imaginei que viveria tanto! Lembro-me de quando meu pai 
completou 60 anos. Eu, jovem, olhava para ele com compaixo pensando: " O fim est prximo..." Mas eu, aos 71 anos, ainda me sinto meio como um adolescente. Gosto 
de viver. No tenho medo de morrer. Tenho  tristeza. Lembro-me de uma velhinha, l em Minas. J havia ultrapassado os 90. Estava cega, na cama. Sua filha lhe lia 
a Bblia - coisa que ela muito amava. Mas, de repente, ela fez um gesto, interrompeu a leitura e disse: "Filha, sei que a hora est chegando. Que pena! A vida  
to boa!" No quero presentes. Tenho muito mais do que necessito. Estou fazendo um esforo para me livrar das coisas que tenho. Se vocs quiserem me dar um presente, 
dem uma contribuio a alguma instituio que se dedica s crianas. Ou plantem uma rvore. Ou leiam um poema. Os pssaros j me deram o melhor presente. Veja esse 
texto de Bachelard: " Ergo suavemente um galho; um pssaro est ali chocando os ovos. No levanta vo. Somente estremece um pouco. Tremo por faz-lo tremer. Tenho 
medo que o pssaro que choca saiba que sou um homem, o ser que deixou de ter a confiana dos pssaros. Fico imvel Lentamente se acalma - imagino eu! - o medo do 
pssaro e o meu medo de causar medo. Respiro melhor. Deixo o galho voltar ao seu lugar. Voltarei amanh. Hoje, trago comigo uma alegria: os pssaros fizeram um ninho 
no meu jardim."  O mesmo aconteceu comigo. Um casal de sabis fez um ninho num vaso de avenca  entrada do meu escritrio. Fico comovido vendo os olhos da fmea 
assentada sobre seus filhotes. Nasceram trs. E s a me chegar para que eles abram seus bicos e gritem pedindo comida. Nada sabem sobre a vida. Mas j sabem que 
 preciso comer. Olhai as aves dos cus... Vai, como presente de aniversrio, esse poeminha do Alberto Caeiro: " Sejamos simples e calmos como os regatos e as rvores, 
e Deus amar-nos- fazendo de ns belos como as rvores e os regatos, e dar-nos- verdor na sua primavera, e um rio aonde ir ter quando acabemos..."  Se me enviarem 
e-mails eu ficarei feliz. Mas no prometo responder. No dou conta. A vida  curta. A arte  longa. Um abrao do Rubem Alves 
Estou com o corpo cheio de pequenas feridinhas, pontos vermelhos. Nada grave. Marcas de micuins. Micuins so carrapatos to pequenos que so praticamente invisveis. 
Numa caminhada pelos campos de Pocinhos devo ter esbarrado num cacho dos ditos. Eles se espalham invisivelmente e a gente s os vai sentir depois de eles estarem 
agarrados na pele. Coceira.  Olhando para as feridinhas pensei que foi isso que aconteceu com o Busch. Ele no sabia que o deserto era um ninho de micuins. Agora 
ele e os Estados Unidos esto sofrendo dessa coceira que no tem fim. 
A propsito dos sabis lembrei-me do que Manoel de Barros escreveu sobre eles: "A cincia pode classificar e nomear os rgos de um sabi mas no pode medir os seus 
encantos. A cincia no  pode calcular quantos cavalos de fora existem nos encantos de um sabi. Quem acumular muita informao perde o condo de adivinhar: divinare. 
Os sabis divinam.  ( Manoel de Barros, Livro sobre nada  ) 
Para celebrar o aniversrio  do Bairro Escola Aprendiz ( link), a pedido do Gilberto Dimenstein eu escrevi, com a ajuda de um punhado de conspiradores, o livro Aprendiz 
de Mim - Um bairro que virou escola. Vo transcritas a ltima capa do livro, escrita pelo Gilberto, e a primeira orelha, escrita por mim. Esse projeto baguna as 
idias tradicionais do que  uma escola. Ao invs de uma escola em um lugar limitado de um bairro,  o bairro inteiro que vai se transformando em escola. Deveria 
ser lido por educadores, alunos e pais. ( Transcrever a ltima capa e a primeira orelha). ( Papirus Editora ) 
Os trs reis: Acaba de sair essa estria, com lindas ilustraes das bordadeiras Antnia Zulma Diniz, ngela, Marilu, Martha e Svia, sobre desenhos de Demstenes. 
Sei que voc j deve ter visto muitos bordados. Esquea os bordados que voc j viu. Os bordados dessas mulheres, me e filhas, so diferentes de tudo o que eu vi 
em minha vida. J ilustraram livros do Ziraldo, do Carlos Brando, do Manoel de Barros e meus. E agora, de novo! Livro pra crianas, livro pra adultos. Edies Loyola. 
(Site R Alves)

















SOBRE CINCIA E SAPINCIA

Muitas pessoas no gostam do que escrevo. Dizem que o que eu fao no  cincia,  literatura.  verdade. Faz tempo que me mudei da caixa de ferramentas para a caixa 
de brinquedos. O que me aborrece  que esses que no gostam do que escrevo pensam que somente a cincia tem dignidade acadmica. Houve mesmo o caso de uma candidata 
a mestrado que teve seu projeto recusado por me citar demais e por propor um assunto que no era cientfico. Psicloga e pedagoga, ela sabia por experincia prpria 
do poder do olhar.
H tantos olhares diferentes! H olhar de desprezo, de admirao, de ternura, de dio, de vergonha, de alegria... A me encosta o filhinho na parede e, a um metro 
de distncia, lhe estende os braos e diz sorrindo: "Vem". Encorajada pelo olhar, a criana, que ainda no sabe andar, d seus primeiros passos. H olhares que do 
coragem. E h olhares que destroem. Por exemplo, aquele olhar terrvel da professora que encara a criana de um certo jeito, sem nada dizer. Mas a criana entende 
o que o seu olhar est dizendo: "Como voc  burra...".

H olhares que emburrecem. Voltando  metfora do pnis, h olhares que o tornam impotente, tanto no sentido literal como no sentido metafrico. Acho que era isso 
que a Adlia Prado tinha em mente quando escreveu maliciosamente: "E o meu lbio zombeteiro faz a lana dele refluir".

O olhar  real.  real porque produz efeitos reais. O olho  tambm real. Sobre ele, pode-se ter conhecimento cientfico. H uma cincia dos olhos. H uma especialidade 
mdica que se dedica a eles: a oftalmologia. Mas, por mais que procuremos nos tratados de oftalmologia referncias ao olhar, no encontraremos nada. O olhar no 
 objeto de conhecimento cientfico. Nem tudo o que  real pode ser pescado com as redes metodolgicas da cincia. H objetos que escapam pelos buracos de suas malhas.

Ser possvel fazer uma cincia dos olhares? Trat-los estatisticamente? No tem jeito. A a proposta de uma tese sobre o olhar foi rejeitada sob a justa alegao 
de que no era cientfica. E no era mesmo. Mas o fato  que os olhares so reais! O estudo dos olhos  tarefa da cincia. E por isso eu sou agradecido. Neste momento, 
estou usando culos para escrever. Sem eles, eu s veria borres. Mas eu me dedico ao olhar, para que meus olhos sejam sbios. O olhar  uma msica que os olhos 
tocam. Coisa de poeta...

So os poetas que falam sobre os olhares. (Eu escrevi "So os poetas que sabem sobre os olhares", mas logo corrigi. Todo mundo sabe sobre os olhares. Todo mundo 
observa atentamente os olhares, porque so eles, e no os globos oculares, que sinalizam a vida e, especialmente, o amor. Mas s os poetas sabem falar sobre eles.) 
Escrevo para mudar olhares. Isso no  cincia.  arte.

H olhos perfeitos que so armas mortferas. Jesus se referiu a esses olhos e sugeriu que deveriam ser arrancados. Os olhos, eles mesmos, so estpidos. Eles no 
tm o poder para discriminar as coisas dignas de serem vistas das coisas no-dignas de serem vistas. Para eles, tanto faz ver um programa idiota de televiso ou 
uma tela de Johannes Vermeer. A capacidade de discriminar no pertence aos olhos. Pertence ao olhar. Mas isso exige uma luz interior.

Se os olhos no serviram como metforas, falarei sobre pianos. Mais precisamente, sobre os pianos Steinway, os mais perfeitos, que esto nas grandes salas de concerto 
do mundo. Os pianos Steinway so produzidos de forma absolutamente rigorosa e cientfica. Tudo neles tem de ter a medida exata. Todos tm de ser absolutamente iguais, 
para que o pianista no estranhe. Mas um piano, em si mesmo,  estpido. Falta-lhes o poder de discriminao. Os pianos obedecem tanto ao toque de um macaco, de 
um louco ou do Nelson Freire. Os pianos no so fins em si mesmos. So ferramentas. So construdos para tornar possvel a beleza da msica.

Mas a beleza no  um objeto de conhecimento cientfico. Ningum pode ser convencido a gostar de Bach por meio de raciocnios cientficos. E no me consta que algum 
dos especialistas em construo de pianos da fbrica Steinway jamais tenha dado um concerto. Cincia eles tm. Mas falta-lhes a arte. Para que o piano produza beleza, 
h os pianistas. Mas os pianistas nada sabem sobre a cincia da construo dos pianos. O que eles sabem  tocar piano, coisa que no  cientfica... Os fabricantes 
de piano moram na caixa de ferramentas. Os pianistas, na caixa de brinquedos.

A diferena est entre "cincia" e "sapincia". Os telogos medievais diziam que a cincia era uma serva da teologia. Parodiando, eu digo que a cincia  uma serva 
da sapincia. A cincia  fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo. A sapincia usa o fogo da cincia para transformar o mundo em comida, objeto de deleite. 
Sbio  aquele que degusta. Mas, se o cozinheiro s conhecer os saberes que moram na caixa de ferramentas,  possvel que o excesso de fogo queime a comida e, eventualmente, 
o prprio cozinheiro... Folha Sinapse, 28/09/2004






REVISTA NOVA ESCOLA - MAIO/2002 


"Ensinar  uma tarefa mgica, capaz de mudar a cabea das pessoas, bem 
diferente de apenas dar aula" 


No escritrio onde Rubem Alves trabalha como psicanalista e escreve seus 
livros e crnicas existem duas tabuletas de madeira penduradas nas portas. 
Na primeira l-se a inscrio latina Tempus Fugit (o tempo passa). Formado 
em Filosofia pela Universidade de Princeton (EUA) e professor emrito da 
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o inquieto autor e 
conferencista leva a srio a mensagem. A segunda inscrio, porm, revela 
outra faceta: Carpe Diem (aproveite o dia). Com efeito, apenas uma pessoa 
sem pressa, atenta aos detalhes, pode assombrar-se com uma casca vazia de 
caramujo e produzir textos que mesclam sabedoria, irreverncia e lirismo. 
Quem j leu suas bem-traadas linhas, em livros, crnicas (publicadas nos 
jornais Folha de S.Paulo e Correio Popular) ou palestras sente-se 
estranhamente sacudido. Como se fosse necessrio e possvel aproveitar 
melhor o tempo e o dia. Fiel s duas tabuletas, Rubem Alves recebeu o editor 
especial Ricardo Prado em Campinas para falar sobre a perda de tempo nos 
programas curriculares escolares e sobre como transformar pequenos assombros 
em aulas produtivas. 

NOVA ESCOLA> Ns vivemos uma poca de muita violncia, com atentados e 
guerra l fora e assassinatos e seqestros aqui no pas. Como o professor 
pode trabalhar essa questo? 

Rubem Alves< Nossos professores so de matrias e a violncia no faz parte 
de nenhum currculo; ento, ele diz: "Isso no est no programa e ns 
precisamos cumpri-lo". Essa  uma das aberraes do nosso sistema 
educacional. Tudo vai depender da sensibilidade do profissional, de sua 
capacidade de pensar outras coisas que no sejam os contedos. Se ele for 
extremamente competente s na sua disciplina, ser incapaz de responder s 
questes provocadas pela onda de violncia. A grande pergunta  a seguinte: 
ns estamos formando educadores com competncia para lidar com situaes no 
previstas? Conhecer o programa  fcil; complicado  conhecer a vida. 

NE> O senhor acha que os programas so muito limitadores? 

Alves< Sim. Se algum que leciona Matemtica dissesse que sua cabea s sabe 
pensar nmeros estaria fazendo uma declarao de incompetncia humana para 
viver. A Matemtica  apenas uma pequena ferramenta para lidar com certos 
problemas. Sou a favor de acabar com os programas. Estou voltando de 
Alagoas, onde fiquei observando uns meninos lidando com pescadores. Andando 
pela praia comecei a pensar o currculo que eu montaria para estudar com 
aqueles garotos a estrutura das pedras, das conchas, as guas-vivas, os 
peixes, as redes, os barcos, o vento, a meteorologia. Se voc chega l e diz 
"hoje vamos estudar anlise sinttica", no tem nada a ver com a vida deles, 
eles no vo se interessar. Por esse mesmo motivo, sou contra laboratrios 
dentro de escolas. Na verdade, eles so uma boa maneira de enganar os pais, 
que ficam impressionados com os aparelhos, as luzes etc. Mas contam uma 
mentira, porque cincia no se faz dentro de um quartinho; se faz em todas 
as situaes da vida, com crebro e olho. Aquele monte de instrumentos e 
frascos s tem a funo de melhorar o olho, mais nada!  preciso que os 
aprendizados estejam ligados s situaes vividas, caso contrrio tudo  
esquecido. 


"Nosso sistema de educao d a faca e o queijo, mas no desperta a fome nas 
crianas" 


NE> Os pais colocariam seus filhos num colgio com um modelo de ensino 
baseado em situaes vividas, como o senhor defende? 

Alves< Os pais, muitas vezes, so os piores inimigos da educao. A maioria 
no est interessada no aprendizado dos filhos. S querem que eles passem no 
vestibular. Eu at compreendo, porque eles so movidos pela iluso de que 
entrando na universidade seus filhos tero um diploma e isso vai garantir 
uma sobrevivncia econmica digna - o que, alis, no  verdade. O 
Ministrio da Educao registra o aumento de matrculas nas universidades. 
Por qu? Porque educao  um negcio muito bom, todo mundo quer ter 
educao, ganhar dinheiro. S que no h emprego para todo esse pessoal que 
est se formando. Veja o caso dos mdicos aqui na regio de Campinas, onde 
existem cursos na PUC Campinas, Unicamp, Universidade de Bragana e Jundia. 
Por ano, elas devem colocar no mercado uns 400 mdicos - e eles no 
encontraro trabalho. 

NE> Voltando  questo da aprendizagem, como ns descartamos aquilo que  
intil? 

Alves< Eu costumo brincar que o corpo  muito mais inteligente que a cabea 
e ele carrega duas caixas. Uma  a "caixa de ferramentas", com tudo de que 
precisamos para resolver questes prticas. S carregamos as ferramentas 
necessrias para as situaes que estamos vivendo. Por exemplo,  idiotice 
um sujeito levar um furador de gelo para o deserto. Ento, o corpo seleciona 
o que  realmente til. Na segunda caixa esto os brinquedos, tudo aquilo 
que, no sendo til, nos d prazer e alegria: msica, poesia, literatura, 
pintura, culinria, a capacidade de contemplar a natureza, de identificar a 
beleza nos jardins. Essas coisas no servem para nada, mas compem a 
felicidade humana. Quem no as tem  uma pessoa bruta, estpida, sem 
sensibilidade. Tudo o que no  ferramenta nem brinquedo  esquecido. Isso 
faz parte da sabedoria do corpo. 

NE> Nossos professores trabalham mais com a "caixa de ferramentas"? 

Alves< Eles nem sequer fazem a seleo correta das ferramentas. Como a gente 
aprende a lidar com elas? Eu aprendi a manejar um canivete porque vi meu pai 
descascando uma laranja e tive inveja daquilo. Ele ento me ensinou a fazer 
o mesmo. Quando voc busca ferramentas como resposta para problemas vitais, 
elas so maravilhosas e necessrias - e voc percebe que no pode viver sem 
elas. Na escola, porm, o aluno entra numa oficina e dizem para ele: "Vamos 
aprender o que  martelo, serrote e prego". As ferramentas so apresentadas 
de maneira abstrata e divorciada da vida e isso  chato. 

NE> Se a "caixa de ferramentas"  mal trabalhada, que dizer da "caixa de 
brinquedos"? Ela poderia trazer mais alegria  aprendizagem? 

Alves< Na realidade, nossa educao d ateno praticamente zero  "caixa de 
brinquedos". Mas note que a alegria no est s nela.  uma delcia saber 
usar uma ferramenta. Quando a gente era pequeno achava maravilhoso bater um 
prego na madeira. Usar o martelo com competncia dava alegria. Um cozinheiro 
quando corta uma cebola chora, mas se sente feliz porque est usando com 
competncia uma ferramenta. Nietzsche dizia que todos ns temos desejo de 
poder e isso no significa querer ser um general ou o presidente da 
Repblica. Ele est dizendo que o homem quer ter habilidades para controlar 
a vida. E quanto mais voc domina o poder, mais pode viver. As ferramentas 
do esse poder e, sendo assim, so fonte de alegria. Mas eu preciso desejar 
fazer a coisa. Se for obrigado, no terei prazer. 

NE> Essa alegria nascida da manipulao do conhecimento pode ser tambm 
fsica ou  apenas intelectual? 

Alves< O filsofo francs Gaston Bachelard tem um texto que diz que somos 
uma civilizao ocular. Trabalhamos e conhecemos com os olhos, no com as 
mos. s vezes eu brinco que os pensamentos comeam com as mos, esto 
ligados quilo que a gente faz. As escolas, porm, esto concentradas apenas 
em atividades cerebrais. Falam em construtivismo, mas no o praticam. Alis, 
todo mundo acha que isso  uma novidade, mas o Giambattista Vico, um 
filsofo do sculo 16, j falava que s podemos conhecer aquilo que 
construmos, com as mos ou com a cabea. Se a questo  essa, eu devo 
construir no s intelectualmente mas tambm de forma prtica.  isso que 
desenvolve o prazer de fazer as coisas. 


"A escola insiste em estragar a leitura. Ela deve ser uma coisa solta, 
vagabunda, sem relatrios" 


NE> Uma boa aula comearia, ento, com um enigma? 

Alves< Antes de mais nada  preciso seduzir. Eu posso iniciar uma aula 
mostrando uma casca vazia de caramujo. Normalmente ningum presta ateno 
nela, mas  um assombro de engenharia. Minha funo  fazer com que os 
alunos notem isso. Os gregos diziam que o pensamento comea quando a gente 
fica meio abobalhado diante de um objeto. Eles tinham at uma palavra para 
isso - thaumazein. Nesse sentido, a resposta  sim, pois aquele objeto 
representa um enigma. Voc tem a mesma sensao de quando est diante de um 
mgico, ele faz uma coisa absurda e voc quer saber como ele conseguiu 
aquilo. Com as coisas da vida  o mesmo. Ficamos curiosos para entender a 
geometria de um ovo ou como a aranha faz a teia. Estou me lembrando da 
Adlia Prado, que diz assim: "No quero faca nem queijo, eu quero fome".  
isso: a educao comea com a fome. Acontece que nossas escolas do a faca e 
o queijo, mas no do a fome para as crianas. 

NE> O hbito da leitura  um "estimulante de apetite"? 

Alves< Eu digo que a educao teria completado sua misso se conseguisse 
despertar o prazer de ler. Por que os alunos no gostam de leitura? Primeiro 
porque a escola faz questo de estrag-la. E a leitura deve ser uma coisa 
solta, vagabunda, sem ter de fazer relatrio. Ler um texto s para responder 
a um questionrio de compreenso  horrvel, estraga tudo. Eu tenho 
aconselhado as prefeituras e as instituies a desenvolver concertos de 
leitura, como existem os de piano. Para um concerto, todos tm de saber o 
texto praticamente de cabea e para isso tm de ensaiar. Lendo, aprendem a 
gostar. 

NE> Certa vez o senhor fez uma metfora entre culinria e texto, mostrando 
que tem gente que presta mais ateno no prato lascado do que no sabor da 
comida. Isso vale para os professores? 

Alves< Essa coisa que eu contei do sujeito que prestava ateno na lasca do 
prato e no no sabor da comida  verdade. Tem uma pessoa aqui em Campinas 
cujo esporte preferido  escrever longas cartas para os cronistas de jornal 
corrigindo os erros de portugus. Para mim, a questo da grafia certa ou 
errada  acidental. Penso como o Patativa do Assar, que diz: "Eu acho 
melhor falar errado dizendo a coisa certa do que falar certo dizendo a coisa 
errada". A grande preocupao de quem educa deve ser o aluno, no a 
disciplina. E ele deve estar atento no s palavras, mas ao movimento do 
pensamento da criana. Mas esse negcio de prestar ateno no vo do 
pensamento me leva a outra questo. Nossas autoridades educacionais acham 
que vo melhorar a qualidade do ensino com cursos de capacitao que, 
sistematicamente, do mais conhecimento para os professores. O que  preciso 
mudar  a cabea deles. Nietzsche, meu filsofo favorito, dizia que a 
primeira tarefa da educao  ensinar a ver. Ou seja, o educador  parte de 
uma tarefa mgica, capaz de encantar crianas e adolescentes, o que  bem 
diferente de simplesmente dar aula. Dar aula  s dar alguma coisa. Ensinar 
 muito mais fascinante. 





ONDE MORA O AMOR

"Amor  a coisa mais alegre. / Amor  a coisa mais triste./  Por causa dele falo palavras como lanas. /  Amor  a coisa mais alegre. /  Amor  a coisa mais triste./ 
Amor  coisa que mais quero. / Por causa dele podem entalhar-me,/ sou de pedra sabo. / Alegre ou triste, / amor  a coisa que mais quero."  (Adlia Prado)

Concordo.  Que coisa melhor poder haver?

Mas o danado - coisa estranha -  como o vento.  Uma hora vem, outra hora vai, e no h artes no mundo que o possam agarrar.  Como dizia o Fernando Pessoa:  "Leve, 
leve, muito leve, / um vento muito leve passa, / e vai-se, sempre muito leve..."

Onde  que mora para que possamos busc-lo?  Sei que mora em algum lugar, mas l no se pode chegar...At se pode, mas o jeito ficou desacreditado.  E quase ningum 
(acho que s os poetas) o procuram l.  Amor mora no pas das palavras.  Palavras - no so elas "pontes e arco-ris que se estendem sobre coisas eternamente separadas?" 
Melhor que uma ponte de palavras, arco-ris onde nunca se chega,  um anel da H. Stern.  Di-amante.  Dizem que so eternos.  Por isso mesmo, coitados, no combinam 
com o amor, que "no  eterno. posto que  chama".  O que  eterno  como o vento.  Diamantes ao contrrio, so bons para cortar vidro, duros, impenetrveis.  Valem 
pelo que custam.  

Mas amor no custa nada.  Quem pensa que o amor custa e compra anel da H. Stern  porque ou no o tem ou no entende o que ele .  Diamante no dedo, anel, est garantido, 
s se investe tanto dinheiro no que se ama, bom investimento, como casa e automvel.  

No dedo, para no sair nunca mais.   Mas o amor no  assim.  Vai e vem.  E  por isso que di tanto.  Quando vem  a coisa mais alegre.   Quando vai  a coisa mais 
triste.  Pr-de-sol.  Mais se parece com uma gota de chuva numa folha de couve, o raio de sol se decompondo nas sete cores do arco-ris.  Mas, tente peg-la...Tente 
coloc-la no anel.  No anel s ficam coisas duras e mortas.  Quem pega perde.  Vento engarrafado no serve para empinar pipas e nem faz o cabelo voar...Gota de chuva 
brilhando em folha de couve a gente s pode olhar e se extasiar.  Alguns pensam que o casamento faz o milagre, que  capaz de por a gota de chuva no anel.  Que ele 
consegue engaiolar o vento.  E at inventaram esta palavra terrvel que vamos repetindo sem nos lembrar do que significa:  conjugal, com-jugo, sob a mesma canga, 
como parelha de bois amarrados...Tanta festa com vdeo, todos iguais, diferena s na cor das roupas, a noiva est linda (todas), salgadinhos e champanhe, discurso 
de padre que ningum ouve, os fotgrafos, irreverentes, atrapalhando tudo, o importante  mostrar o lbum colorido, depois.  Mas toda a mgica no adianta.  A gota 
de chuva ri, o vento dana...
       
O amor mora num outro lugar:  as palavras.  Por isso que o Milan Kundera diz que comeamos a amar uma mulher no momento em que ligamos seu rosto a uma metfora potica. 
Amamos uma pessoa pela poesia que vemos escrita no seu corpo.  Bem diz a Adlia Prado que "ertica  a alma".  Estranho isso, porque se pensa que o amor mora  no 
corpo e at se d o nome de "fazer amor"  unio de dois corpos.  Mas o corpo  como a flauta, o rgo, o violo, o violino - coisa que s fica bonita quando dele 
sai msica.  Amamos um corpo pela msica que nos faz ouvir.  Conheo muito piano fechado, desafinado, importado, que ningum sabe tocar, mas que d um toque de elegncia 
ao ambiente.  Quem tem um piano deve ser sensvel.  E, no entanto, no se sabe distinguir um acorde maior de um menor.
       
Amamos uma pessoa pelas palavras que a ouvimos dizer, por vezes em silncio.  Mesmo quando se est "fazendo amor" - muito bom, prazer enorme no corpo.  At os bichos 
sabem disso e ficam alucinados quando o corpo berra.  Mas logo se esquecem depois do prazer.  Certo:  s vezes tambm ns somos bichos.  Mas o prazer (curto) se 
transforma em alegria quando alm do prazer que o corpo sente, a alma ouve as palavras que moram dentro dos olhos:  "Como  bom que voc existe.  O universo inteiro 
fica luminoso, por sua causa.  Vou chorar quando voc se for.  Terei saudades.  Ficarei com um pedao arrancado de mim.  Ser triste.  Tristeza que no abandonarei 
por nada, pois ela marca a sua presena, que se foi.".  No, no  o prazer que se sente no corpo,  a alegria que se sente na alma.  A gente se sente bonito.  O 
outro  um espelho onde nos contemplamos, e nos seus olhos a nossa imagem se transfigura, e  como se fssemos deuses.  No h prazer no corpo que resista a um espelho 
mau.
       
Mas, a, sem que se saiba por que, a gota de chuva cai, o vento se vai, e ficamos de mos vazias.  E s nos resta esperar.  Como esperamos que o ip floresa de 
novo.  As flores desapareceram, mas voltaro.  Amor  isto:  a dialtica entre a alegria do encontro e a dor da separao.  E neste espao o amor s sobrevive graas 
a algo que se chama fidelidade:  a espera do regresso.  De alguma forma, a gota de chuva aparecer de novo, o vento permitir que velejemos de novo, mar afora.  
Morte e ressurreio.  Na dialtica do amor, a prpria dialtica do divino.  Quem no pode suportar a dor da separao no est preparado para o amor.  Porque o 
amor  algo que no se tem nunca.   evento de Graa.  Aparece quando quer, e s nos resta ficar  espera.  E quando ele volta a alegria volta com ele.  E sentimos 
que valeu a pena suportar a dor da ausncia, pela alegria do reencontro.





"VEJA COMO ESTO AGRADECIDAS..."
       
       
Quando chovia depois de muito sol quente, meu pai gostava de ficar na janela da casa velha, l em Minas, vendo as plantas no quintal, cada uma delas fazendo os gestos 
que sabia.  Os tomateiros, hortels e manjerico, exalando seus perfumes.  As folhas de couve e espinafre, brincando de juntar gotas d'gua, grandes e brilhantes. 
As rvores e arbustos executando seus passos de dana, balanando as folhas, sob os pingos que caam...
       
Ele olhava, sorria, baforava o seu cachimbo e dizia:
       
"Veja como esto agradecidas..."
      
Como se cada ervilha se parecesse conosco e tivesse, secretamente, alegria de viver.  Da sua gratido perfumada, brincalhona, danarina, sob a chuva...Ele via nos 
movimentos das plantas no quintal, gestos litrgicos, celebraes do puro prazer de se estar vivo.
      
Sei que parece estranho.  Nossos olhos foram desencantados, faz muito.  Aquele poder mgico/ potico descrito por Blake, de ver o infinito num gro de areia, j 
no sabemos o que . . As plantas de quintal deixaram de ser companheiras nossas, e as conhecemos apenas como coisas semi-mortas, cortadas, silenciosas, nos balces 
de feira, nos sacos de plstico.  Mas eu no consegui esquecer:  continuo a viver no mundo mgico da minha infncia.  As plantas so as minhas irms e companheiras 
e amam a doura da vida tanto quanto ns.  No sei se isso  verdade.  Mas sei que  belo...E tambm a vida fica mais bonita; pensar que no estamos sozinhos, que 
no somos os nicos seres que importam, que este mundo maravilhoso em que vivemos  misterioso, todas as coisas vivas ligadas umas s outras, partes de um mesmo 
corpo...               
       
O meu corpo no termina na minha pele.
       
Ele se estende pelo espao sem fim.
       
Lembro-me de Jorge Lus Borges dizendo que "vamos andando solidamente e de repente vemos um pr-de-sol, e estamos perdidos de novo".   porque o pr-de-sol no  
apenas uma coisa que acontea l fora.  Ele  metfora potica que mora em mim.  E quando as suas cores vo se metamorfoseando pelo amarelo, o abbora, o vermelho, 
o marrom, o roxo, at perderem-se na noite,  dentro de ns que isso acontece.  Da a tristeza.  Tudo o que vemos so pedaos arrancados do nosso corpo.  O ar, a 
gua, a comida so extenses de ns mesmos.  Mas isso no chega.  No basta viver.   preciso que haja beleza.  Uma gota de orvalho no me faz viver ou morrer.  
Mas sua magia me enche de gratido, e penso que valeu a pena o universo ter sido criado por causa daquele milagre fugaz.  Olho os cus estrelados.  L est Sirius, 
a estrela mais brilhante.  Sua luz no me faz viver ou morrer.  Afinal, ela est to longe...Mas, ela desperta no meu corpo, pensamento sobre eternidades que j 
passaram, e sobre o tempo em que eu terei passado, e ela continuar a brilhar.
       
Como  belo este mundo!
       
Dizem que os poemas sagrados que o Criador, depois de terminada a sua obra, parou e, com os olhos extasiados, disse: 
      
"Que lindo..."
       
 por isso que, s vezes,  eu sinto uma terrvel tristeza, uma vontade de no partir.  Queria ser como a Fnix, ressurgir sempre das cinzas.  Que no me consolem 
com promessas de imortalidade da alma.  Sou um ser deste mundo.  Meu corpo precisa dos cheiros, das cores, dos gostos, dos sons, das carcias...Poderia por acaso 
haver um caqui espiritual, ou um mar que no fosse gua?  Lembro-me de Ceclia Meirelles:  "Pergunto se este mundo existe, e se, depois que se navega, a algum lugar 
se chega...O que ser, talvez, mais triste.  Nem barca, nem gaivota:  somente sobre-humanas companhias...."  No, no quero partir.  Meu corpo pertence a este mundo. 
E  este o nico sentido que encontro nesta linha metafrica da Pscoa, quando a vida volta da morte, teimosamente para o corpo.  No sei se  verdade.  Mas o poema 
 belo e diz a verdade do meu desejo.  Quero eternamente ressurgir para o encanto simples do mundo e poder continuar a repetir, para as plantas que brincam sob a 
chuva:
       
"Veja como esto agradecidas..." Extrado do livro Tempus Fugit. 





A COMPLICADA ARTE DE VER
Ela entrou, deitou-se no div e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus 
prazeres  cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentes _ uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo 
que j fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto 
uma cebola. Aqueles anis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impresso de estar vendo a roscea de um vitral de catedral gtica. De repente, 
a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior  que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentes... Agora, 
tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnstico. Eu me levantei, fui  estante de livros e de l retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode  Cebola" 
e lhe disse: "Essa perturbao ocular que a acometeu  comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual quela que lhe causou assombro: 'Rosa de 
gua com escamas de cristal'. No, voc no est louca. Voc ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver  muito complicado. Isso  estranho porque os olhos, de todos os rgos dos sentidos, so os de mais fcil compreenso cientfica. A sua fsica  idntica  
fsica ptica de uma mquina fotogrfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na viso que no pertence  fsica.

William Blake sabia disso e afirmou: "A rvore que o sbio v no  a mesma rvore que o tolo v". Sei disso por experincia prpria. Quando vejo os ips floridos, 
sinto-me como Moiss diante da sara ardente: ali est uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ip que florescia 
 frente de sua casa porque ele sujava o cho, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos no viam a beleza. S viam o lixo.

Adlia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e no viu uma pedra. A pedra que ele viu 
virou poema.

H muitas pessoas de viso perfeita que nada vem. "No  bastante no ser cego para ver as rvores e as flores. No basta abrir a janela para ver os campos e os 
rios", escreveu Alberto Caeiro, heternimo de Fernando Pessoa. O ato de ver no  coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira 
tarefa da educao  ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade  uma busca da experincia chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". 
No sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato  que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

H um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discpulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles no o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: 
ao partir do po, "seus olhos se abriram". Vincius de Moraes adota o mesmo mote em "Operrio em Construo": "De forma que, certo dia,  mesa ao cortar o po, o 
operrio foi tomado de uma sbita emoo, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, faco_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operrio, um 
operrio em construo".

A diferena se encontra no lugar onde os olhos so guardados. Se os olhos esto na caixa de ferramentas, eles so apenas ferramentas que usamos por sua funo prtica. 
Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ao. O ver se subordina ao fazer. Isso  necessrio. Mas  muito pobre. Os olhos no 
gozam... Mas, quando os olhos esto na caixa dos brinquedos, eles se transformam em rgos de prazer: brincam com o que vem, olham pelo prazer de olhar, querem 
fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas so os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianas. Para ter olhos brincalhes,  preciso 
ter as crianas por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do cu, tornado outra vez criana, eternamente: 
"A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que h nas flores. Mostra-me como as pedras so engraadas quando a gente as 
tm na mo e olha devagar para elas".

Por isso _porque eu acho que a primeira funo da educao  ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada 
teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua misso 
seria partejar "olhos vagabundos"... Folha sinapse, 26/10/2004




NELSON FREIRE 
O poeta Manoel de Barros escreveu: "O artista  um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito". Escreveu bem. O normal da natureza  produzir coisas parecidas, 
diferentes umas das outras, mas no muito. Por vezes, entretanto, a sua mesmice engripa e a surgem coisas assombrosas e inexplicveis, como  o caso dos artistas. 
No concordo com o Manoel de Barros. Minha explicao  outra. Acho que  coisa dos deuses... Mais parecidos com os deuses gregos que moravam no Olimpo que com o 
sizudo Deus cristo, vez por outra eles exageram no vinho, ficam bbedos e nesse estado descem  terra e fazem amor com as mulheres.  assim que nascem espantos 
como Fernando Pessoa, Guimares Rosa, Monet, Mozart e Nelson Freire. 
Para falar sobre o Nelson Freire  preciso voltar a uma pequena cidade do sul de Minas, Boa Esperana. Murilo Mendes, mineiro de Juiz de Fora, descreveu a sua cidade 
como a cidade dos pianos. Isso tanto  verdade que meus avs enviaram minha me adolescente para l para se aperfeioar no dito instrumento. Sendo a cidade de muitos 
pianos seria de se esperar que muitos pianistas nascessem l. Mas isso no aconteceu. Aconteceu com Boa Esperana, cidade onde nasci, desconhecida que ficou famosa 
por causa de uma cano que o Lamartine Babo escreveu para se curar de uma paixo que morreu antes de nascer: Serra da Boa Esperana. Boa Esperana no era cidade 
dos pianos. Pianos, l, eram coisa rara. 
J contei o que aconteceu com o piano que minha me ganhou do meu av, como presente de casamento. Importado da Europa, ele l chegou nem sei por que meios, causando 
alvoroo na cidade. Contratou-se um marceneiro para proceder ao desencaixotamento do mesmo, sob os olhos dos curiosos que se ajuntaram  frente da casa. O marceneiro, 
imagino que ele teria ouvido que pianistas usam casacas quando vo tocar piano. Ele no deixou por menos. Compareceu vestido de fraque... Isso tudo para mostrar 
que pianos no eram o forte de Boa Esperana, embora houvesse alguns onde as mocinhas tocavam valsas romnticas. 
Mas os deuses, bbados, perderam a noo dos lugares exatos, e o fato  que l nasceu um menininho, filho temporo do farmacutico Jos Freire e de da. Augusta, 
Nelson. Eles tinham um piano. Minha me, pianista, dava aulas para a Nelma, filha adolescente do casal. Pois aconteceu que, um dia, da. Augusta estava na cozinha 
e ouvia a Nelma tocar um exerccio provavelmente do Czerny, errando sempre numa passagem mais complicada. Veio um silncio. Da.Augusta pensou: a Nelma desanimou. 
Mas, de repente, o espanto: a Nelma tocou a passagem sem tropear! Da. Augusta foi  sala para parabeniz-la. Mas a Nelma no estava na sala. Quem estava ao piano 
era o Nelson, com 3 anos de idade. 
Aos 4 anos ele deu o seu primeiro concerto. O maestro Fernandez, de Varginha, seu primeiro professor, ao cabo de seis meses disse que no tinha nada mais a ensinar 
ao menino. A famlia se mudou para o Rio, para que o Nelson pudesse estudar piano. Minha famlia tambm se mudara para o Rio, por outras razes. E eu queria ser 
pianista (pobre de mim, que no fora concebido por deuses bbedos!). Tinha quinze anos. Estudava piano quatro horas por dia. J fazia uns meses que eu estava tentando 
dominar a sonata Pattica, de Beethoven. Eram trs da tarde. Eu estava estudando piano. Toca a campainha. Eram Da. Augusta e um pirralho de sete anos, o Nelson. 
Entram. O Nelson no deu bola para ningum. Viu a partitura aberta, assentou-se ao piano e tocou a sonata. A eu compreendi que os deuses so injustos! Bem que tem 
aquele salmo que diz: "Intil te ser levantar de madrugada e trabalhar o dia todo porque Deus, queles que ama, ele d enquanto esto dormindo." 
Tem o ditado que diz: "Deus ajuda a quem cedo madruga". Mentira. O ditado certo : "Os que so amados por Deus no precisam madrugar." Conclu que Deus no me amava. 
Ele amava o Nelson. Intil me seria madrugar e estudar o dia todo. Eu nunca seria um pianista. (Descobri depois que Deus me amava de outro jeito. Me ensinou a compor 
msica com palavras...).
A vida de pessoas como o Nelson se recobre de mitos e lendas. Nunca se sabe ao certo... Pois vou contar esse incidente que deve ser verdadeiro. O Nelson, meninote, 
terminara um recital no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O pblico, de p, aplaudia furiosamente. Em meio a todo aquele entusiasmo havia um senhor indiferente, 
que no batia palmas. S olhava. O vizinho ficou indignado. "Mas o senhor no se entusiasma com esse menino?" Ao que ele respondeu: "Sou o pai dele..."
Ele era bem jovem ainda e j merecia uma pgina inteira da revista "TIME", nos Estados Unidos. O Nelson estava em Nova Iorque e iria tocar o concerto n. 1 de Brahms, 
com orquestra. No dia seguinte um outro pianista iria tocar o concerto n. 2, tambm de Brahms. So duas peas dificlimas. Pois o pianista do concerto n. 2 ficou 
doente. Em desespero o regente telefonou para o Nelson. Ser que ele poderia substituir o outro pianista, com aviso de 24 horas? Ele tocou os dois concertos. Para 
quem no faz idia,  como correr duas maratonas uma imediatamente depois da outra.
O Nelson faz coisas que outros pianistas no tm coragem de fazer. Um critico confessou que sentia grande ansiedade ao ouvi-lo interpretando os scherzos de Chopin. 
Ele ficava pensando: "Ele no vai conseguir, ele no vai conseguir!". E arrematou: "Mas ele consegue sempre..."
Ouvir o Nelson , um primeiro lugar, uma experincia esttica, de beleza. Depois,  uma experincia de assombro. Fico a pensar: Como  isso? Donde vem isso? Vale 
para ele o dito de Guimares Rosa: "O que vou saber sem saber eu j sabia". O Nelson j nasceu sabendo. Os professores, na tradio de Scrates, nada lhe ensinaram. 
S foram parteiras que ajudaram a vir  luz o piano que j existia dentro dele. Ele e o piano so a mesma coisa. Eles fazem amor, brincam um com o outro, sem precisar 
se esforar... Os pianos sorriem de felicidade quando ele se aproxima. Os estudos op. 25 de Chopin, o preldio de Bach-Siloti, a Totentanz de Liszt, o Carnaval de 
Schumann: a msica flui to fcil quanto a respirao. 
No funcionaria com violino, com violoncelo. Com violino ou violoncelo  provvel que o Nelson fosse to medocre quanto eu, ao piano... Outros nasceram com violinos 
e violoncelos dentro deles. Para esses o piano no funcionaria. Que mistrio  esse? Ser que os pianos, violinos e violoncelos so seres que existem num outro mundo 
e que descem  terra dentro dos corpos de anjos escolhidos? Os artistas sero anjos que Deus, com d da gente, nos envia para que experimentemos a alegria da beleza 
perfeita? Tenho, como um trofu, um CD com suas gravaes de Schumann, que ele me enviou com uma dedicatria.
Mas estou triste. Ele deu um recital com a Martha Argerich, dois pianos, na Sala So Paulo, dias 20 e 21. Corri para comprar um ingresso. Mas j estava tudo vendido. 
Bobeei. O que vou fazer para consolar-me da minha frustrao? Vou ficar sozinho, no meu apartamento, ouvindo sua gravao da sonata n. 3 de Chopin e dos estudos 
opus 25... Que bom que haja CDs! 
PS: . O Nelson me enviou um bilhete de presente!
. Voc poder comprar um DVD sobre o Nelson Freire na FNAC. Na verdade, dois DVDs que incluem a ntegra do concerto n. 2 de Rachmaninoff.
. Acaba de sair o meu livro Os trs reis, com ilustraes das bordadeiras de Braslia. Est muito bonito. 
. Estar brevemente nas livrarias meu novo livro Caindo na Real - Cinderela e Chapeuzinho Vermelho para o tempo atual. Pela Papirus. www.aprendiz.com.br


DAIANE DOS SANTOS
"Moa com brinco de prolas"  um filme que est passando no cine Jaragu.  sobre uma tela do pintor holands Vermeer, do sculo XVII. No tem mistrio, mortes, 
suspense, ao rpida. Tudo  devagar. A vida  devagar. Depressa, s a morte.  uma aprendizagem de ver. Trata-se de uma estria provocada pela viso dessa tela 
singela, o rosto de uma jovem com um brinco de prolas. Como disse Bachelard "o que se v no pode se comparar ao que se imagina." Vale, numa tela, a imaginao 
que ela provoca. Por isso muitas pessoas de vista perfeita nunca viram realmente um quadro, embora o tenham visto. Falta-lhes imaginao.O autor da estria viu a 
tela "Moa com brinco de prolas" e sua imaginao voou. Se me der na telha vou publicar de novo a estria que inventei ao meditar sobre uma outra tela de Vermeer. 
"Mulher lendo uma carta". As telas de Vermeer pem paz ma minha alma. Elas me reconduzem a um mundo de intimidade tranqila, de sombra e luz, de cores quentes, que 
no existe mais.  nesse mundo que mora a minha alma. Acostumados  ao rpida  altamente provvel que os jovens no consigam ficar at o fim. Eles vivem num mundo 
que no  o meu. No so culpados. Fico triste por no poder compartilhar com eles o mundo da minha alma. Sugesto: V a uma livraria boa e compre um livro com telas 
de Vermeer da coleo "Taschen".  barato. Quem sabe seu filho ou filha vai se encantar...  
As Olimpadas so um evento assombroso. Comea com aquela festa linda, comovente, festa de fraternidade e paz. Norte americanos e iraquianos desfilaram no mesmo 
desfile sem que o Bush tentasse matar os atletas do Iraque, como terroristas disfarados. Ele estava jogando golfe. O grande smbolo: uma oliveira cheia de folhas! 
Dizem os poemas sagrados que a pomba que No soltou ao final do dilvio voltou com um ramo de oliveira no bico. Que bom seria se aquela oliveira anunciasse o fim 
do dilvio de loucuras blicas que est destruindo o mundo! Algumas dessas festas ficam inesquecveis. Lembro-me do ursinho que marcou as olimpadas de Moscou. No 
encerramento o ursinho chorou: lgrimas escorriam pelo seu rosto. Sei muito bem que urso no tem rosto, urso tem  focinho, mas seria feio dizer "lgrimas escorriam 
pelo seu focinho". Do jeito como as coisas vo, em breve se dir que os bichos tm rosto e os homens tm focinho. 
A chega o primeiro dia. Vai-se a fraternidade. Agora  briga. Briga pelo pdio. O pdio  motivo de briga. Todo pdio  motivo de briga. Nas Olimpadas no h lugar 
para fraternidade porque fraternidade significa todo mundo junto brincando de roda e nas Olimpadas no h cantigas de roda. No pdio s cabem trs. Cada atleta 
quer mesmo  que o outro se dane. Ah! A suprema felicidade do velocista dos 100 metros quando sabe que o recordista baixou hospital acometido de uma sbita clica 
renal, na vspera das finais. E as ginastas rezam, enquanto as adversrias executam os seus nmeros: "Tomara que ela escorregue..." 
Havia na UNICAMP um professor visitante na Faculdade de Educao Fsica, Manoel Srgio, que era muito contra ao atletismo. Ele perguntava: "Voc conhece algum atleta 
longevo?" E concluia: "Quem vive muito so essas velhinhas que se encontram ao fim da tarde para tomar ch com bolo..." J viu cavalo treinando os 1.500 metros? 
S quando dominados por homens. As Olimpadas no so uma manifestao de sade. So uma exaltao do desejo de ser o maior. Prova disso so os doppings. Os atletas 
sabem que a coisa faz mal  sade. Pode matar. Mas uma morte prematura bem vale um lugar no pdio! Aquela mquina de correr, uma negra norte-americana, me esqueci 
de nome dela, s msculos, morreu subitamente de um ataque cardaco.  Assim no pensem que os atletas tm boa sade, que praticam hbitos saudveis de vida. Lembram-se 
da corredora sua, ao final da maratona? Era a imagem de um corpo torturado pela dor. Penso nas nadadoras. Elas me assustam. No se parecem mulheres. Aqueles ombros 
enormes! Acho que meus braos no conseguiriam abraar uma delas. E nem eu quereria. E acho que nem ela quereria. Abrao  perda de tempo.  preciso aproveitar o 
tempo lutando contra a gua. Inimigas da gua. Isso mesmo. Porque uma pessoa que passa dez anos de sua vida treinando seis horas por dia no por prazer mas para 
sair da piscina um centsimo de segundo na frente da marca  olmpica s pode ter dio da gua. A gua  o inimigo a ser vencido. Compare com as crianas. Elas amam 
a gua. Elas no querem sair da gua. A gua  sua companheira de brincadeiras. As nadadoras, ao contrrio, no brincam com a gua. Lutam contra ela. Tocada a borda 
da piscina, para onde olham as nadadoras? Elas olham para o placar onde aparece o tempo.  isso.  o tempo que elas amam. Quanto mais depressa melhor! O perigoso 
 que elas apliquem essa doideira em outras coisas da vida onde o que vale  "quanto mais devagar melhor". 
Estou velho. Sofro do mal dos velhos: repito coisas que j disse. Por vezes repito por esquecimento. Outras vezes porque quero repetir. Contador de piada repete 
piada sabendo que j a contou dezenas de vezes. No grupo de poesia que se rene comigo s 3as. feiras repetimos poemas porque eles so belos. Nas festas de aniversrio 
repetimos o chatssimo "parabns pr voc" e estupidamente sopramos as velinhas, smbolos da morte. Pois vela que se apaga no  smbolo da morte? E a me vieram 
alguns badulaques  cabea. Suspeitei que j os tivesse mostrado. Conferi. De fato, eu j os mostrei. Mas vou mostrar de novo porque eles se aplicam bem ao momento 
olmpico que estamos vivendo. 
H um famosssimo, badaladssimo conferencista que anuncia suas conferncias com a afirmao: "Seu lugar  o pdio". Esse  o sonho de todo atleta que vai para as 
Olimpadas. Mas logo ele descobre que a verdade no  aquela anunciada pelo conferencista mas uma outra, muito mais sbria, enunciada por Jesus: "Muitos so os chamados 
mas poucos os escolhidos." No pdio s h lugar para trs. Os outros atletas no aparecem. Na vida tambm  assim. Se o lugar de todo mundo fosse o pdio, se todos 
seguissem os conselhos do dito conferencista, todos ganhariam a medalha de ouro. J pensaram nisso? Todos com medalhas de ouro no peito? Tantos pdios quantos so 
os atletas? Que coisa maravilhosa nas Olimpadas! Que coisa maravilhosa na vida! Todos os problemas do pas estariam resolvidos. Os pobres andariam de BMW e os famintos 
comeriam camaro na moranga. Governo burro esse que temos! Por que no nomeia o dito conferencista como Ministro da Educao para que todos subam no pdio? E no 
 s ele que anuncia o evangelho do pdio. Tem uma seita, entre as milhares que prometem milagres que diz: "Voc est destinado ao sucesso". Com Jesus o primeiro 
lugar nas Olimpadas est garantido! E na vida! Teologia maravilhosa essa: Jesus Cristo morreu na cruz para que ns tivssemos sucesso! Para que ganhssemos a medalha 
de ouro! Corolrio: se voc no est no pdio, se voc no tem sucesso  porque voc est longe de Deus. Pecador miservel! Arrepende-te dos teus pecados, entrega 
o teu corao a Jesus, no para ir para os cus, mas para ir para o pdio... 
Mas h um jeito de todo mundo ter medalha e j o escrevi aqui. A idia foi de Lewis Carroll, autor de Alice no Pas das Maravilhas, que todo mundo leu e no prestou 
ateno. Porque o verdadeiro ato da leitura no est na leitura mas na ruminao.  preciso ler bovinamente, ruminantemente. Tratava-se de uma corrida. Alice queria 
saber as regras. O Pssaro Dodo explicou: "Primeiro marca-se o caminho da corrida, num tipo de crculo, ( a forma exata no tem importncia), e ento os participantes 
so todos colocados em lugares diferentes, ao longo do caminho, aqui e ali. No tem nada de "um, dois, trs, j". Eles comeam a correr quando lhes apetece, ou abandonam 
quando querem, o que torna difcil dizer quando a corrida termina." Assim a corrida comeou. Depois que  haviam corrido por mais ou menos meia hora  o Pssaro Dodo 
gritou: "A corrida terminou!" Todos se reuniram ao redor de Dodo e perguntaram: "Quem ganhou?" "Todos ganharam", disse Dodo. E todos devem ganhar prmios."  (Correio 
Popular, Caderno C, 21/08/2004.)


RUBEM ALVES ENTREVISTA MAX NUMA CERVEJARIA
Pensei, inicialmente, que uma variao sobre o prazer, a  ser composta por economistas, banqueiros e homens de negcios, deveria ser executada tendo como instrumento 
musical as caixas registradoras, das antigas e das modernas. As antigas, por seus sons metlicos e suas teclas que nos fazem lembrar de rgos, cravos e pianos. 
Tambm as manivelas, que um lutier habilidoso poderia transformar numa  "viela de roda", instrumento medieval que no mais se usa,  mas que pode ser visto em museus 
e em telas de  Brueghel. As caixas registradoras modernas e  seus sons  eletrnicos fariam inusitados   duetos com as vielas medievais, atestando assim o fato de 
que o dinheiro possui os atributos da divindade: ignora o tempo,  eterno. Tudo isso acompanhado por  pandeiros, cujos sons fazem lembrar o tilintar do dinheiro... 
E os ritmos seriam sincopados e rpidos,  como contraponto s extra-sstoles e taquicardias que  marcam o mundo das bolsas de valores. 
Pensei que isso estaria em harmonia com a esttica dos economistas. A maioria, de fato, concordou comigo. Mas houve um que protestou: era  um velho de cabeleira 
e barba imensas, que fazia  lembrar Walt Whitman. Encontrei-o, por acaso,  assentado sozinho  mesa de um bar que eu freqentava. Bebia cerveja e fumava charuto. 
O fato de estar sozinho sugeria que se tratava, provavelmente, de um  intelectual decadente ou aposentado. Assentei-me  sua mesa. Ele  comeou a falar. 
Contou-me que seus discpulos  o haviam abandonado.   comum que os filhos venham a se envergonhar dos pais. Isso acontece quando os pais,  com o passar dos anos, 
vo ficando velhos. Com a velhice vem a verdade:  com o enfraquecimento dos mecanismos de censura os pais, outrora recatados e pudicos,   comeam a revelar um erotismo 
jamais imaginado, para vergonha dos filhos. Velhos no devem ter erotismo.  Os filhos, ento, no mais querem saber da sua companhia. 
s vezes acontece o contrrio: os filhos se envergonham  daquilo que os pais j foram, e tratam de separar o seu presente respeitvel do seu passado duvidoso. Alguns 
chegam ao extremo de queimar arquivos fotogrficos. 
" - Voc est enganado sobre a economia", ele me disse em voz baixa. Parecia temer que algum o ouvisse, como se estivesse dizendo uma heresia.  " A economia no 
 a cincia das caixas registradoras, do dinheiro. Sei que, para muitos,  isso que ela . Mas para mim  uma outra coisa:   a cincia do prazer. Dizer que a economia 
 a cincia do dinheiro  o mesmo que dizer que a culinria  a cincia das panelas. Alguns pensam que sou um economista como os outros  porque dediquei grande parte 
da minha vida ao estudo do maior jogo de dinheiro jamais havido na histria. Mas, se eu o fiz, foi porque eu queria decifrar os descaminhos do prazer. Estudei a 
panela para saber o que estava acontecendo de errado com a comida. Eu acho que o objetivo da vida  o prazer. Isto est inscrito em  nossos prprios corpos. Nossos 
corpos no so mquinas produtivas - no pertencem inteiros a " Feira das Utilidades". Sim,  claro, trabalhamos, produzimos. Mas somos diferentes  dos animais. 
"Os animais constroem somente de acordo com as padres e necessidades da espcie. Os homens constroem tambm de acordo com as leis da beleza (Marx's concept of man, 
Erich Fromm, New York, Frederick Ungar Publishing Co.,  1964, "Manuscritos econmicos e filosficos", p. 102 ). 
Gostamos dos livros, mesmo quando no derivamos de sua leitura nenhum resultado prtico. O corpo contm  uma certa exigncia de "prazer intil" - sem valor econmico. 
Desde jovem sonhei  com uma condio em que o trabalho,  semelhana daquilo que acontece com os artistas, pudesse ser um motivo de prazer. O trabalho no apenas 
como meio de vida, mas o trabalho como brinquedo. As crianas brincam por puro prazer. Imaginava uma situao em que os homens, ao terminar o seu  trabalho, sorririam 
de felicidade, e veriam o seu prprio rosto refletido em sua obra, da mesma forma  como Narciso via o seu rosto refletido na gua da fonte.  ( Ibid. p.102 ) 
Veja, por exemplo, os sentidos! Que prazeres extraordinrios eles nos do!  verdade que em sua condio bruta os sentidos somente atendem s necessidades elementares 
da sobrevivncia. Um homem faminto no  capaz de fazer distines sutis entre gostos refinados: angu ou lagosta -  tudo a mesma coisa. Saindo dessa condio bruta 
de existncia, entretanto, os sentidos se refinam, desenvolvem-se, tornam-se sensveis a prazeres que at ento lhes eram desconhecidos.  O grande trabalho da histria, 
at agora, tem sido a educao dos sentidos. A histria impulsiona o corpo humano na direo de uma exuberncia dos sentidos cada vez maior. A histria conspira 
para que os homens sejam cada vez mais felizes.  "O cultivo dos cinco sentido  o trabalho de toda a histria passada" .  ( Ibid. p. 134 ) 
Eu entendo que a economia  a cincia dos meios necessrios  realizao ertica dos homens. Como tal, ela pertence  "Feira das Utilidades". A economia  um instrumento 
para que os homens cheguem  " Feira da Fruio".  
O que atormenta o meu pensamento", ele continuou, "  uma contradio: a  economia  explica a riqueza das naes. Mas ela  no consegue dar uma explicao aceitvel 
para a  misria e a pobreza  dos homens.  
Meu pensamento oscilava: num momento eu  sonhava  os sonhos mais loucos e utpicos: eram esses sonhos que eu queria ver realizados. Imaginava que os homens, um dia, 
conseguiriam arrebentar as correntes que os prendiam, e que podereiam ento colher a flor viva da vida, , to prxima das suas mos. (Que ningum nos oua: eu procurava 
o caminho de volta ao  Paraiso. Como  poderia  eu  me esquecer do grande mito com que a Torah, livro sagrado do meu povo, se inicia?) 
Num outro momento meu pensamento deixava de sonhar e se voltava para as condies materiais da produo da histria. No que eu me esquecesse dos meus sonhos. Eu 
procurava a cincia como meio para a sua realizao. Estudava as panelas e o fogo por amor  moqueca... Voltei-me para a histria por acreditar que, sendo nela que 
a pobreza e a misria dos homens era produzida,  seria nela que elas seriam superadas. Se os problemas dos homens so criados na histria, teria de ser nela que 
eles seriam resolvidos. Para se desfazer o n  preciso saber como ele foi produzido. A atividade dos homens para produzir a sua vida - a isso eu dei o nome de praxis. 
Dei-me conta de que a teologia e as religies, ao pregar que a histria acontece pela atividade de Deus, impedia que os homens a compreendessem como resultado de 
sua prpria atividade. As religies, assim, tm um duplo efeito. O primeiro  a paralisia da inteligncia dos homens. Se tudo acontece pela vontade de Deus ento 
 intil tentar entender a histria como produto das aes dos homens. O segundo  a paralisia moral. Se tudo acontece pela vontade de Deus, tudo  sagrado. E eu 
via os miserveis operrios sacralizando a sua misria com o dito conformado: " Deus quis..." 
A histria no se faz s com sonhos. Quem sonha com um  banquete h de dominar  a cincia das panelas e dos fogos.  Tornei-me inimigo dos sonhadores ingnuos que 
pensavam que bastaria que os homens mudassem as suas idias para que o mundo mudasse tambm. Moquecas no se fazem s com idias e intenes.  Quem quer mudar o 
mundo tem de ser um especialista no uso do fogo. Na histria, esse uso do fogo tem o nome de poltica... 
No estranhe o meu uso das imagens culinrias. S me atrevo a fazer uso delas longe dos intelectuais, nessa mesa de bar... Em um contexto acadmico eles diriam que 
eu devo estar bbado ou senil.  Aqui eu posso me dar ao luxo de falar como um  poeta. Aprendi muito com eles.  Durante um certo tempo, inclusive,  eu convivi com 
um intelectual maldito  ( ah! como os malditos so maravilhosos!). Sua filosofia tinha a beleza da poesia. L-lo era um deleite. O inslito dos seus conceitos se 
misturava com a beleza das suas imagens. Foi ele que chamou a minha ateno para a importncia dos sentidos. O seu nome j tinha algo de culinrio, fogo, "Ribeiro 
de Fogo", Feuer / bach.  E  culinria tambm era a sua metafsica, pois que se comprazia  em dizer que " somos o que comemos".  Na minha juventude fui seu discpulo, 
e  sob a sua influncia escrevi  textos saborosos... O que, para os intelectuais,  sempre um pecado. Eles pensam que a verdade deve ser inspida. 
Essa  relao, depois que envelheci, passou a ser um motivo de embarao para os meus seguidores.  Causava-lhes mal-estar imaginar que eu havia sido influenciado 
por ele.  Trataram, ento, de queimar o arquivo. Desqualificaram os textos que eu escrevera, sob a alegao de  que, ao escrev-los,  eu era jovem demais,  imaturo, 
ainda no descobrira o caminho da  cincia, e  falava com as  palavras  imprecisas da filosofia.  Espalharam, ento, que tal fase perturbada havia terminado com 
uma tal "cesura epistemolgica"  expresso que, traduzida, quer dizer: de repente, como uma  cigarra que passa por uma metamorfose e deixa a casca, ele  deixou a 
sua casca filosfica em algum lugar e se ps a voar com as asas da cincia.  Era de um jeito,  ficou de outro. Falava sobre os homens, passou a falar sobre estruturas. 
Era humanista, virou estruturalista. E chegaram mesmo a dizer que, para ler os meus escritos, era preciso ter sempre em mente um rigoroso anti-humanismo metodolgico. 
Estruturalista! Sim,  verdade que o capital funciona como uma estrutura. Como se fosse uma mquina, com suas leis prprias.  Mas se eu assim o estudei,   porque 
eu queria desvendar o segredo dessa cozinha perversa onde os cozinheiros ficavam sempre com fome. 
Com essas palavras ele bebeu o que restava na caneca, enxugou a espuma do bigode, pediu outra cerveja, reacendeu o charuto que se apagara, enfiou a mo no bolso 
do palet zurrado, tirou de l um livrinho e me deu com estas palavras: " A alegria  a prova dos nove. Esse livrinho fala sobre isso... " Manuscritos Econmicos 
e Filosficos de 1844: esse era o ttulo. Autor: Karl Marx. 
Fez-se silncio. Comecei a l-lo.  medida que virava as pginas eu no conseguia evitar as tradues culinrias que o texto me sugeria. Era como se a conversa no 
tivesse acabado, como se ele ainda continuasse ali, ao meu lado, falando. 
Primeiro manuscrito: " O Trabalho Alienado":  " Mas que histria  esta? O trabalhador faz a comida e  um outro que come tudo,  s lhe sobrando a raspa da panela?" 
Segundo  manuscrito: "Propriedade Privada":  " Mas claro! Tem de ser assim. O operrio come a raspa porque ele no  o dono da panela. Quem  dono come a comida. 
Quem no  dono come o que sobra." 
Terceiro manuscrito: "Que perversa transformao esta cozinha opera sobre os que comem da sua comida! Os homens so roubados dos seus sentidos, perdem a capacidade 
de sentir prazer!" 
Perguntem  Babette qual  o fim da culinria... Ela responder: " O prazer, a alegria!" E, para dar prazer e alegria ela  gastou tudo o que tinha. Ficou mais pobre 
de dinheiro. Ficou mais rica humanamente! 
Perguntem ao dono do restaurante qual  o fim da culinria. Ele responder: " O lucro". Claro que mesmo nos restaurantes capitalistas se serve o prazer dos sentidos. 
Mas a mola propulsora do "negcio" no  o prazer da comida;  o prazer da caixa registradora. Ah! Como  maravilhosa aos ouvidos do proprietrio  a sua msica! 
V a um banco, v a uma bolsa de valores! L, por acaso se fala sobre os prazeres gastronmicos? De forma alguma. L se fala sobre o prazer que se tem num jogo abstrato 
que se joga sobre a lgica do verbo "ter". 
A ele interrompeu a minha leitura e continuou. 
"Veja: eu no estou dizendo que os indivduos no mais sintam prazer. H, no capitalismo, prazeres refinados, e muitos. Estou dizendo outra coisa: que dentro da 
sua lgica, dentro da "razo capitalista", os prazeres no contam. Eles no so tomados em considerao, no so pensados como ponto de chegada da viagem. Para o 
capitalismo o objetivo da viagem  um s: o lucro. E, assim, dentro da lgica do sistema, os restaurantes e as fbricas de armas esto no mesmo nvel, so pees 
do mesmo jogo de xadrez. Ningum, no prego da bolsa de valores, se pergunta sobre quais aes esto ligadas s empresas que do mais prazer. Quem fizer isso logo 
ficar pobre. A lgica  do jogo do dinheiro exige que os prazeres dos sentidos sejam desconsiderados. Esse jogo perverso nos tornou " to estpidos e parciais que 
somente consideramos nosso um objeto quando o possuimos,  quando ele  utilizado de alguma forma. Assim, todos os sentidos fsicos e espirituais so substituidos 
pela simples alienao de todos esses sentidos, ou seja, pelo sentido da posse(...) Quanto menos voc comer, beber, comprar livros, for ao teatro,  aos bailes, s 
boates, quanto menos voc pensar, amar, teorizar, cantar, pintar, tanto mais voc ser capaz de economizar e tanto maior ser o seu tesouro. Quanto menos voc for, 
tanto mais voc ter..."  ( Ibid. p. 132 ). 
O capitalismo s conhece as coisas passveis de serem transformadas em mercadorias, isto , coisas que podem ser fabricadas, vendidas e compradas. Mas o prazer no 
 dado automaticamente pelo ter. Posso ter o mais fantstico aparelho de som e a maior coleo de CDs. O prazer depender de uma qualidade espiritual minha, do meu 
ser, uma sensibilidade para a msica, que no pode ser comprada por dinheiro.  preciso que os sentidos sejam educados!  O prazer e a alegria crescem de uma relao 
ertica com o objeto, isso que se chama amor. E essa relao no pode ser comprada.  Cresce de dentro. 
O esprito do capitalismo dominou de tal forma a cabea das pessoas que at mesmo aqueles que se dizem meus discpulos foram enganados. Veja o caso da educao. 
Os professores de "esquerda" tm medo dessa palavra "amor", e a julgam babaquice romntica. De fato, "amor"  coisa que a cincia no consegue pensar. Preferem, 
os professores, considerar-se "trabalhadores" que ganham pelas "mercadorias intelectuais" que produzem de forma competente, sob a forma de um saber. Como professor 
produzo tal mercadoria que vale tanto. Ignoram que isso  o que sempre detestei! Ao assim pensarem o ensino, eles o inserem na perversa lgica dos "valores de troca". 
Valor de troca  uma "quantidade abstrata" que mora tanto num revolver quanto num jantar, e que permite essa equao horrenda, base de todo o jogo econmico: "X" 
jantares = "Y" revlveres. O prazer e a morte so a mesma coisa... 
E em qual escola se gasta tempo na educao dos sentidos? Bobagem. Isso  coisa da " Feira da Fruio" - no circula no sistema. O que importa  a " Feira das Utilidades" 
- seus saberes teis, transformveis em mercadoria, passveis de circular no mercado de trabalho. Por que gastar tempo no desenvolvimento das inteis potencialidades 
do ser, na educao dos sentidos para os prazeres inteis, insignificante do ponto de vista econmico, se os corpos podem ser transformados em unidades de produo. 
O que  um profissional?  um corpo, outrora portador de sentidos, que se transformou em ferramenta, utilidade. " Quanto menos voc for, mais voc ter..." 
Mas o que me entristece  que meus discpulos no entenderam nada do que eu disse.  Acharam que prazer  coisa burguesa - como se os trabalhadores no gostassem 
de comida boa,  de cerveja e de transar. Droga!  Ficaram mais prximos do papa do que de mim.  Meus discpulos ficaram com medo de que eu fosse considerado um babaca 
romntico. Transformaram-me num rigoroso economista. Um economista, de fato, vale muito mais  como "mercadoria" que um poeta romntico. Num "curriculum vitae" se 
pode escrever:  "Profisso: economista". Mas s um louco colocaria " poeta romntico". Romnticos no so mercadorias, no arranjam empregos... Estudei a panela 
por causa da moqueca. Estudei o violo por causa da msica. Estudei o trabalho por causa da felicidade. Estudei o capitalismo por causa do prazer. 
Aquela sua idia de tocar a economia com caixas registradoras e pandeiro,  msica tocada em movimentos rpidos e ritmos sincopados, a performance acontecendo em 
bancos e bolsas de valores: isso no tem nada a ver comigo. O dinheiro tem de ser subordinado ao prazer, a utilidade tem de estar a servio da alegria. Ser que 
isso  possvel? Ou ser s um sonho? Bem sei que os experimentos fracassaram. E nem poderia ser de outra forma. Os novos cozinheiros no me entenderam:  s trocaram 
o formato das panelas e o livro de receitas, substituindo o poder abstrato do dinheiro pelo poder sem face da burocracia. Minha esperanca era de que nesse caldeiro 
chamado histria, fervente ao fogo da dialtica, se consumasse o preparo do prato escatolgico do prazer: a educao dos sentidos e a produo do banquete, para 
todos. 
O sonho no morreu. Ele continuar, para sempre. Pensei que ele morasse no corao da histria. Pensei que a histria tivesse corao. Talvez eu tivesse me enganado. 
Os sonhos s moram no corao dos homens. Somos incuravelmente romnticos.  Os homens havero sempre de sonhar com o prazer e a felicidade. 
Por isso, eu preferiria que a "variao" que me cabe fosse tocada suavemente, ao violino, como fundo para um jantar  luz das velas, onde o amor e o prazer so servidos 
gratuitamente, e o corpo, embriagado de alegria, se pusesse a sonhar... Os membros do partido e as esquerdas vo me reprovar, e  dizer que isso no combina com minha 
conhecida solidariedade operria. Eles no entendem. Pensam que ser solidrio com pobre  gostar de pobreza. Ser solidrio com pobre  sofrer a pobreza deles e sonhar 
sonhos de prazer e riqueza.  Os sonhos so sempre a subverso da realidade. Trabalhador no sonha com  ang e feijo - no  preciso sonhar, para isto basta abrir 
os olhos. Trabalhador sonha  com coisas bonitas e gostosas.  Bem que gostariam de comer o que comem os patres, e no s a raspa da panela.  Est l dito pelo Vincius, 
no "Operrio em Construo". Porque, como disse muito bem o Joozinho Trinta, "quem gosta de pobreza  intelectual. Pobre mesmo, gosta  de riqueza..." 
Ditas essas palavras ele esvaziou a caneca de cerveja, apagou o charuto fedorento no cinzeiro, e se foi.


RUBEM ALVES ENTREVISTA NIETZSCHE TOCANDO FLAUTA
"O meu nome  Zaratustra, e me espanto de que voc me tenha pedido  para tocar uma "variao filosfica" na minha flauta.  Com certeza voc no me conhece. Sou msico. 
Mas a msica que toco no agrada aos filsofos.  Basta que eu comece a tocar para que os filsofos comecem a correr. 
A  flauta que tenho na mo  a flauta de Dionsio, o deus grego  da alegria. Ela tem poderes mgicos, semelhantes aos da  flauta do flautista de Hamelin. Quem ouve 
a sua msica fica alegre e se pe a danar. (FN III, p.(II) 1146; Ecce Homo, " O Caso  Wagner", #1). 
Por isso os filsofos correm:  eles tm medo de que eu, com minha msica,  os faa danar.  A dana  o que mais os amedronte. Porque dana  coisa que se faz com 
o corpo inteiro. Mas os filsofos no tm corpo. Eles s tm cabea e olhos.   dos seus olhos que nascem os seus pensamentos. No sabendo danar, nem mesmo pensar 
eles sabem. Porque pensar  danar com os pensamentos. Os pensamentos dos filsofos no danam. Eles marcham, como soldados em ordem unida. 
Por muitos sculos esta flauta esteve enterrada.  Desde Scrates, quando a razo  triunfou sobre o instinto.  Foi nesse momento, quando a flauta de Dionsio foi 
enterrada,  que a decadncia  do mundo grego  comeou. (FN-III (II) p. 1109, Ecce Homo, Prefcio, 2 ). 
Essa flauta tem o poder mgico de acordar  o instinto. Aqui j aparece o  meu conflito com os filsofos: falei em magia. Para os filsofos magia  superstio. Os 
filsofos no  acreditam que as palavras tenham o poder de criar.  As palavras so, para eles, apenas "ferramentas"  na oficina da razo. Eles "usam" as palavras. 
Suas palavras pertencem ao mundo da "utilidade". Mas magia , precisamente,  criar pelo poder da palavra. 
Em oposio aos filsofos, as palavras para mim so  msica. Eu as uso como quem toca um instrumento, porque elas so belas, porque elas so difanas pontes coloridas 
sobre coisas eternamente separadas, pelo prazer que  me do. As palavras fazem amor.  Minhas palavras pertencem ao mundo do deleite, da fruio. 
Fao isso no s por puro prazer, mas porque acredito que a beleza e a alegria so  divinas. So elas  que do ao homem o poder de contemplar e viver  a tragdia 
sem serem destrudos por ela. Foi assim que os gregos triunfaram sobre a tragdia: eles a transformaram em beleza. E ainda h alguns que me acusam de impiedade, 
de no acreditar em Deus. Como dizer isso, se a beleza existe? Acredito em deus, sim, num deus que dana... 
         *[  "Eu poderia crer somente num deus que danasse. E quando vi o meu demnio eu o encontrei srio, rigoroso, profundo e solene: era o esprito da gravidade 
- por ele todas as coisas afundam. No se mata por meio do dio. Mata-se por meio do riso. Venham, vamos matar o esprito de gravidade! Agora estou leve! Agora eu 
vo! Agora um deus dana atravs do meu corpo." ( FN II ( II ) p.307 , Assim falou Zaratustra, "Sobre o ler e o escrever" ]* 
 verdade que, vez por outra, eu uso as palavras como ferramentas, por vezes como diapaso, para testar a afinao, s vezes como fogo, havendo alguns que chegaram 
a me acusar de incendirio, como martelos  e marretas, para destruir e at mesmo como pimenta.... 
Mas, se fao isso, eu o fao da mesma forma como o cozinheiro usa a faca e os fogos, da mesma forma como o escultor usa o martelo e o cinzel, da mesma forma como 
o jardineiro usa as cavadeiras e as enxadas, da mesma forma como o parteiro usa os forceps: para que uma coisa nova, bela e alegre possa nascer. Todo criador tem 
de ser um destruidor. 
*[ "Entre as condies para a tarefa dionisca esto, de uma forma decisiva, a dureza do martelo, a alegria mesmo em destruir. ... Todos os criadores so duros... 
( FN  III (II), p. 1140. Ecce Homo, "Assim falou Zaratustra", #8) ]* 
No  assim que os filsofos usam as palavras. A oficina deles s tem instrumentos de tica: culos dos mais variados tipos, lentes, microscpios, telescpios, prismas, 
velas, lanternas, lmpadas, holofotes,  e especialmente espelhos. Muitos espelhos. Os filsofos desejam ser espelhos, espelhos de cem olhos. Todos os outros instrumentos 
existem por causa dos espelhos. A filosofia deseja ser um reflexo, um reflexo apenas. A isso os filsofos do o nome de verdade. ( PN II ( II ) p. 652,  Assim falou 
Zaratustra  ). 
Stendhal descreveu com preciso o carter  do filsofo. "Para se ser um bom filsofo", ele disse, " preciso ser seco, claro,  sem iluses. Um banqueiro que fez 
fortuna tem uma parte do carter exigido para se fazer descobertas em filosofia, ou seja, para ver com clareza dentro daquilo  que ".  ( FN-III, (II)p. 603; Alm 
do Bem e do Mal, 40). 
Houve um outro pensador  que disse que a nica coisa que os filsofos profissionais queriam era interpretar o mundo. Ora, interpretar  refletir, produzir uma imagem. 
Mas at mesmo as mulheres vaidosas que passam o dia contemplando a sua imagem nos espelhos o fazem para ver se h formas de ficarem mais belas. De forma alguma se 
conformariam com uma imagem feia. O mundo pede para ser transformado.  
 O deserto deseja ser um  jardim.  "Faa amor comigo!", diz o mundo. A que o filsofo responde: "Isso eu no posso. Para isso falta-me o rgo apropriado... Mas 
trago comigo uma cmera fotogrfica. Que tal, ao invs do  amor, uma foto colorida?" 
Os filsofos desejam ver. Mas a minha alma  de msico. O mundo, para mim,  um instrumento csmico onde dormem as mais belas melodias.  Os filsofos dizem que esto 
em busca da verdade. Mas a verdade, para eles,  o que . Mas aquilo que  no pode  no pode ser a verdade. A verdade do piano no  o piano: so as msicas  que 
ele pode tocar. A verdade  o possvel. Onde estava a sonata antes de ser tocada no piano? Estava no sonho do compositor. A verdade do universo est nos  coraes 
dos homens, no lugar dos seus sonhos. " Todos aqueles que tiveram de criar tiveram tambm os seus sonhos profticos e sinais astrais - e f na f." Quem s reflete, 
como espelho, sem sonhar,  estril. ( FN - II - (II), p. 378) Em que lugar do mundo se encontram as peas de Schumann, para serem refletidas? Em lugar algum.  Da 
minha tristeza, ao contemplar os meus contemporneos. Escrevi, para eles, palavras amargas e tristes. 
*[ "Esta, na verdade,  a amargura das minhas entranhas, que eu no posso suportar vocs nem ns e nem vestidos, vocs, homens de hoje. Tudo o que  sinistro no 
futuro e tudo o que jamais fez pssaros fugitivos  tremer  certamente mais confortvel e familiar que a sua "realidade". Pois assim vocs falam: " Somos reais, 
inteiramente, sem crenas ou supersties." E assim vocs estufam os peitos - mas eles so cos! (...). Nos seus espritos todas as eras tagarelam umas contra as 
outras; mas os sonhos e a tagarelice de todas as eras so mais reais que a sua viglia. Vocs so estreis: essa  a razo por que vocs no tm f. Porque todos 
os que tiveram de criar tambm tiveram seus sonhos profticos e sinais astrais - e tiveram f na f. Vocs so portas semi-abertas onde os coveiros esperam. E essa 
 a sua realidade: " Tudo deve perecer".]* 
A evidncia de que o possvel foi atingido, ainda que num momento fugaz, est na experincia de alegria. Na alegria o corpo, encantado, est dizendo: "  isso mesmo! 
Assim , assim deve ser!"* 
         
Tive essa experincia muitas vezes. Com a flauta de Dionsio eu desejo acordar o possvel, fazer o mundo vibrar, como msica. No me basta ver sem tocar. Quero sentir 
o mundo estremecer de amor, ao sentir o toque mgico das minhas palavras. 
 isso que me separa dos filsofos: sou um amante. Tenho uma caso de amor com o universo... 
Eu toco  a flauta de Dionsio  para acordar o instinto.  Instinto  a  fonte transbordante de vida que borbulha  dentro do corpo.   Foi a, nessa fonte de vida, 
dentro do corpo que encontrei  a flauta de Dionsio.  
Mas no salte para concluses precipitadas, imaginando que eu perteno ao rebanho dos psicanalistas.   verdade que tambm eles  descobriram os instintos. Mas, tendo 
vergonha de  tocar a flauta  de Dionsio, por medo de que os filsofos os acusassem de feitiaria,   ao se aproximarem da fonte borbulhante de vida  as suas palavras 
agitam o lodo, e a gua cristalina fica suja.  Basta que falem para que as flores se transformam em esterco e a felicidade se transforme em  infelicidade. 
Nisto eles revelam seu parentesco com seus ancestrais, os sacerdotes que, como disse o poeta William Blake,  semelhana das  lagartas que escolhem as folhas mais 
belas para nelas botar os seus ovos, escolhem as nossas alegrias mais belas para nelas botar suas maldies ( William Blake,  The Portable Blake, p. 254). 
Comigo  diferente: quando eu toco a minha flauta  os monstros se pe a rir. Eu gostaria que os psicanalistas  ouvissem o  que eu disse de dipo, o seu heroi:  "Ele 
subjugou monstros, decifrou enigmas: mas  preciso que ele redima ainda os  seus prprios monstros e enigmas, transformando-os em crianas celestiais. At agora 
o seu conhecimento no aprendeu a sorrir e a ser sem inveja; at agora a sua paixo torrencial no encontrou a tranquilidade da  beleza." ( FN II (II), p. 374;  
Assim Falou Zaratustra, II, " Sobre aqueles que so sublimes"). 
Concordamos, os psicanalista e eu,  em que o  corpo  um mar e   " a conscincia  a superfcie" ( FN-III - p.(II)1095; Ecce Homo # 9).  Mas, em  oposio s suas 
funduras sinistras,  " o fundo do meu mar  tranquilo: quem poderia imaginar que nele vivem monstros brincalhes?  Minhas profundezas so imperturbveis. Mas elas 
cintilam  com enigmas e risos nadantes." (FN-II (II) p.372; Assim Falou Zaratustra, II, " Sobre aqueles que so sublimes"). 
Dentro de  todos os abismos eu ainda levo comigo o meu "Sim" abenoante... - Mas isso, de novo,  o conceito de Dionsio. ( FN -III, . (II), p. 1136). 
Os psicanalistas desconfiam dos instintos e chegam mesmo a falar de um instinto de morte. Para eles o instinto  burro, irracional, s quer prazer. Da o nome de 
"princpio do prazer" que o fundador da psicanlise deu ao princpio mais fundo da alma humana. 
Eu concordo: o prazer, em si mesmo,  burro e irracional. Mas, para mim, o que se encontra no fundo da alma humana, ali no lugar onde brotam as fontes das guas 
da vida, no  o desejo do prazer mas o desejo da alegria. A alegria est ligada  beleza. A alegria  a marca da beleza.  A alegria  a prova dos nove...Sempre 
que se tem alegria pode-se saber que a beleza se mostrou. Freud falou no "princpio do prazer". Eu digo "princpio da beleza"... 
Ah! Voc pede uma imagem...  assim. Prazer  a  experincia do orgasmo puro. Pode ser produzido at por masturbao. Alegria  o que sente o amante na simples memria 
do rosto da pessoa amada. O orgasmo, como todas as experincias de prazer, uma vez acontecido,  esgota-se. No se deseja mais. Prazer  descarga.  A alegria, ao 
contrrio, no se cansa. A alegria, pela simples  memria do rosto da pessoa continua suavemente. A alegria  a experincia de unio com objeto amado.  O prazer 
tem a ver com o corpo s. A alegria, ao contrrio,  uma experincia de amor: o corpo em harmonia com o mundo. Tambm eu desejo a razo. Mas, por oposio queles 
que pensam que a razo  um espelho do real, eu afirmo que a razo  um artista que toma o real como matria prima para transform-lo, de sorte a produzir a beleza 
e a alegria.  "A nica felicidade est na razo. Mas a razo mais alta est na obra do artista, ( que em tudo se assemelha) a  gerar e educar um ser humano" ( The 
Portable Nietzsche  p. 50). 
Vou fazer uma confisso que no deveria fazer, porque sei que os "filsofos" vo us-la contra mim. Foi num longo perodo de doena que a minha filosofia nasceu. 
Foi ento que "eu descobri de novo a vida,  inclusive a mim mesmo. Foi ento que provei  todas as coisas boas, mesmo as pequenas, de uma forma que os outros no 
podem provar com facilidade. Transformei ento a minha vontade de sade, a minha vontade de vida, numa filosofia". (FN-III, p. (II) 1072;  Ecce Homo, " Por que eu 
sou to sbio" #2.). " Somente a minha doena me trouxe  razo"  (FN - III,  (II) p. 1072;  Ecce Homo,  p.(II)1086, " Por que eu sou to esperto" # 2). 
 preciso estar  na iminncia de perder as coisas para tomar conscincia delas. A possibilidade de perder agua a capacidade de sentir o gosto. Assim aconteceu comigo. 
Minha filosofia, assim, nasceu da mais alta afirmao da vida, "da abundncia, da exuberncia, do Sim sem reservas, mesmo ao sofrimento, mesmo  culpa, mesmo a tudo 
aquilo que  questionvel e estranho na existncia" ( FN-III- (II) p. 1109, Ecce Homo, " O Nascimento da Tragdia" # 2). 
Isso foi coisa que aprendi com os Gregos: para se enfrentar o trgico  preciso que o corpo esteja possudo pela Beleza. 
A doena, com a possibilidade da perda, transformou os meus olhos. No me bastava espelhar o mundo dentro dos meus olhos.  Eu queria possu-lo, sentir o seu gosto 
bom. Isso que digo me apareceu "num sonho, no ltimo sonho da manh... 

" ... eu me encontrava ao p das colinas - alm do mundo;  tinha uma balana nas minhas mos e pesava o mundo... Com que certeza  meu sonho olhava para esse mundo 
finito -  no  fazendo perguntas, no querendo possuir,  sem medo, sem mendigar...  - era  como se uma ma inteira se oferecesse  minha mo,  ma madura e dourada, 
de  pele fresca, macia, aveludada,  assim esse mundo se ofereceu a mim...   - como se uma rvore me acenasse,  galhos  longos,  vontade forte, curvada como um apoio, 
lugar mesmo de descanso para o caminhante cansado, assim estava o mundo ao p das minhas  colinas; 
-como se mos delicadas me trouxessem um escrnio, um escrnio aberto para o deleite de olhos tmidos, olhos que adoram,  assim o mundo se ofereceu hoje a mim; -no 
um enigma que assusta o amor humano, no uma soluo que faz  dormir a sabedoria humana: uma coisa boa, humana: assim o mundo foi, para mim, hoje, embora tanto mal 
se fale dele..." ( FN- II, (II),p. 435). 
Mas aqui  preciso ter cuidado. Nem todos aprenderam o segredo  da alegria. "A vida  uma fonte de alegria; mas ali, onde a plebe tambm bebe, todas as fontes ficam 
envenenadas" ( (FN-II- (II)  p. 346; Assim falou Zaratustra, II,  "Sobre a Compaixo"). A estes,  os mais desprezveis,  plebe, incapazes de dar  luz uma estrela, 
solo onde nenhuma rvore alta cresce -  a estes eu apelidei  de  " os ltimos homens" (FN II (II) p.284; Assim falou Zaratustra, I, #5). 
Eles dizem  haver inventado a felicidade. Pensam que felicidade  ficar assentados num charco, onde os naufrgios so impossveis. Pensam que felicidade  conforto. 
Sonham com a  "terra da Cocanha", a terra onde o vinho corre no leito dos rios, as paredes das casas so feitas de bolo, e os leites e aves assados correm para 
a boca dos preguiosos. Engordam, indolentes  e estreis,  sob a sombra das  rvores, incapazes de ficar grvidos e dar  luz Jamais sobem as montanhas;  jamais 
se arriscam pelos desertos; jamais navegam por  mares desconhecidos.  
Minha felicidade  outra.  "Voc nunca viu  a vela que entra no mar, redonda, tensa e trmula com a violncia do vento? Como aquela vela, tremendo com a violncia 
do esprito, a minha sabedoria  entra no mar - minha sabedoria selvagem". ( FN-II-(II) p.362; Assim falou Zaratustra, II, " Sobre os Sbios Famosos"). 
H uma felicidade que s se experimenta quando se vive "como os ventos fortes, vizinhos das guias, vizinhos da neve, vizinhos do sol: assim vivem os ventos fortes. 
E como um vento forte eu desejo soprar..." (FN-II (II) p.356; Assim falou Zaratustra, II, "Sobre a Plebe")]*. "O segredo da maior fertilidade e do maior gozo da 
existncia : vivam perigosamente! Construam  as suas cidades debaixo do Vesvio! Enviem  os seus navios aos mares desconhecidos! Vivam  em guerra com seus iguais 
e com vocs mesmos! Sejam ladres e conquistadores...!" (FN-II-(II) p. 166; CA ( Cincia alegre), # 283).) 
Aos filsofos bastam os reflexos num espelho.  Mas eu preciso de risos, de dana, de beleza.  Por isso  eu conto parbolas, fao aforismos, escrevo com sangue. ( 
FN-II- (II) p. 305) 
Concordo com  Kierkegaard, filsofo que nunca li:  a verdade do corao, morada da alegria,  no se encontra na letra; ela se encontra na msica, alm das palavras. 
Ensinar a alegria:  isso que eu desejo. 
Escrevi que os sacerdotes so meus inimigos. "E, no entanto, meu sangue est ligado ao  deles, e eu desejo saber que o meu sangue  honrado mesmo no deles"  ( FN-II- 
(II) p. 348; Assim falou Zaratustra, II, "Sobre os Sacerdotes") 
Pois eles  usavam boas palavras para falar dos mistrios dos seus sacramentos, sem saber que sacramentos so parbolas. Diziam que o po e o vinho eram acidentes 
onde se escondia uma substncia sagrada, o corpo de Deus. Digo o mesmo dos meus sacramentos: os  meus saberes so apenas acidentes; a  substncia divina  alegria, 
o corpo de Deus que mora neles.  Nessa eucaristia eu acredito. Essa eucaristia eu celebro. Os saberes so  taas que transbordam   de alegria.   A minha escrita 
so as minhas mos que se estendem,  procura de amigos. 
Desejo aqueles para quem escrevo. Quero que eles dancem ao som da flauta de  Dionsio, que   o smbolo da afirmao incondicional  da vida, mesmo  com todo o seu 
sofrimento e terror.   assim que entendo as palavras, meus brinquedos.  "Palavras e sons: que so eles seno  difanas pontes iridescentes  entre coisas eternamente 
separadas?" ( " sind nicht Worte und Tne Regenbogen und Schein-Brcken zwischen Ewig-Geschiedenen?") " No foi para isso que os nomes e os sons foram inventados, 
para que o homem encontrasse refrigrio nas  coisas?  Falar  uma deliciosa loucura;  por meio da fala o homem dana  sobre todas as coisas. Que adorvel  toda 
fala  e o engano dos sons! Por meio dos sons o nosso amor dana sobre arcor-iris coloridos..."  ( FN-II-(II) p.463); Assim falou Zaratustra, III, " O Convalescente" 
# 2) . 
"Da minha beleza cresce uma fome...Dentro de mim h algo insacivel, que deseja poder ser dito.  Um desejo de amor est  mim, desejo que  fala a linguagem do amor" 
( FN-III, (II) p. 1137), Ecce Homo, "Assim Falou Zaratustra", # 7)]* 
. E o que ela diz   que   "  vida  uma fonte de alegria", " e que o nosso pecado original  que temos tido muito pouca alegria.  (FN-II-p.(II) p.354, 346) Para 
isso eu escrevo: para ensinar a  alegria. 
Porque escrevo para fazer rir,  para   brincar, para mostrar a  beleza, filsofo no sou. Sou bufo, sou criana, sou poeta..." 
"Assim,  para fora 
da minha verdade-loucura 
eu mergulhei, 
para fora da minha nostalgia pelo dia, 
-cansado do dia, doente da luz,- 
mergulhei para o fundo, 
para a noite, 
para a sombra, 
-queimado pela verdade, 
e sedento: 
Tu te lembras ainda,- te lembras, corao ardente,- 
de como tinhas sede? 
Que eu seja exilado 
de toda a verdade, 
somente um tolo! 
Somente um poeta! ( FN II ( II) p.  810,  Assim falou Zaratustra ) 

Ditas essas palavras ele se ps a rir. Tomou a flauta de Dionsio, comeou a tocar e,   medida  que tocava, foi  ficando leve, leve, at que flutuou, danante, 
no ar...  
         
BAIXOU O ESPRITO DO DRUMMOND
Carlos Drummond de Andrade, um homem manso. A mansido est naquele rosto triste, que me faz lembrar os farmacuticos das cidades do interior de Minas Gerais. Est 
na sua voz baixa, quase rouca, que desconhece argumentos e eloqncia, voz que s deseja dizer os seus poemas. Est nos seus poemas, sem arroubos, sem pressa, fotografias 
das coisas simples do cotidiano. Manso. Qualquer perturbao de raiva seria impensvel na imagem do Drummond. 
Mas... Eu j disse que o corpo  um albergue. Nele moram muitas verses de mim mesmo. H uma verso oficial, pblica, o dono do albergue, aquele que se v sempre. 
Mas nos quartos do albergue moram muitos outros,  todos eles com o mesmo rosto, mas diferentes por dentro. Em mim moram o Rubem escritor, o educador, o falador, 
a criana, o velho, o mstico, o palhao, o deprimido e um outro. Sim, um outro... 
Dentro do Drummond tambm morava um outro. Procurei nas minhas coisas um texto desse outro que eu conheo. Queria transcrev-lo inteiro. No o encontrei no meio 
das minhas bagunas. Texto que  um urro de uma fera encurralada pelos caadores. Texto fria. As palavras so navalhas. O texto inteiro  um grito. No me enviem 
poemas, no me enviem textos pedindo que eu os leia e d minha opinio. O que querem  elogios. Mas no sou crtico literrio. Quero ler o que eu quero ler e no 
aquilo que querem que eu leia. Quero  viver quieto a minha vida de poeta. Quero  ter tempo para os meus poemas. E as crianas? To bonitinhas. L vou eu caminhando 
pela calada de Copacabana. Quero sentir o vento e ver o mar. Mas l vm elas. Por detrs delas, as professoras! Agarrem o velho urso, elas dizem! Vm com papel 
e lpis na mo. Queremos entrevist-lo. Quando foi que o senhor nasceu? Qual foi o poema que mais gostou de escrever? No. Eu no nasci. Desisti de nascer quando 
vi que no poderia viver em paz! 
Essas palavras no so de Drummond. So minhas. Mas eu as tirei das memrias confusas e duras que tenho do seu texto, o texto do Outro. 
Ah! Poeta mal educado! Se lhe enviam poemas e textos  porque o admiram,  porque o amam.  assim que voc reage a esses gestos de amor? E as crianas? Para um escritor 
poder haver felicidade maior que se ver cercado de crianas que amam os seus poemas? E, no entanto, voc reage com fria e grosseria a esses gestos de amor! Mal 
agradecido. Grosseiro. Cara de manso, fingido! 
A verdade  triste: so os que dizem amar que provocam a raiva. Os que no amavam o Drummond e no lhe enviavam poemas e textos no o perturbaram. Os caminhantes 
da praia que no o conheciam o deixaram em paz na sua caminhada. Acho que Albert Camus deve ter tido experincia parecida porque  escreveu no seu dirio que a melhor 
coisa no mundo  ser desconhecido. Isso no  verdade. Os que no so conhecidos gostariam de s-lo. E  bom ser conhecido. Mas h um momento em que o ser conhecido 
se transforma em maldio. O dito amor dos admiradores rouba da pessoa o seu direito de viver a sua prpria vida e de fazer o que lhe apraz. O amor tira a liberdade. 
Penso que Sartre estava com coisa parecida na cabea quando escreveu que " o inferno  o outro". 
 assim que acontece quando o amor no conhece a sabedoria da amizade. Aprendi um ditado que achei fantstico: Amigo no empata amigo. Isso mesmo. E at vou repetir: 
Amigo no empata amigo. A amizade cuida da liberdade do outro. Um amigo  um mestre em escutar, um mestre em adivinhar e um mestre em guardar silncio. Um amigo 
conhece o sentido da palavra "No". O "no"  a palavra que estabelece os meus limites, limites que no podem ser invadidos, nem mesmo com a desculpa do amor. 
Lembro-me de algo que me aconteceu, faz vrios anos. Eu deveria fazer uma palestra numa certa cidade, na sexta-feira e outra, numa cidade prxima, no sbado. A 
recebi um telefonema amoroso na vspera da minha viagem para a primeira cidade. "Professor Rubem Alves, ns queremos traz-lo at nossa cidade no sbado.  to pertinho..." 
Respondi: "Bem que gostaria, mas j tenho um compromisso no sbado..." A voz, do outro lado, argumenta " O senhor cancela o seu compromisso! Ns gostamos tanto do 
senhor..." E assim o dilogo foi comendo os minutos, nesse impasse irresolvvel entre a minha impossibilidade e o desejo daquela pessoa que teimava porque gostava 
de mim. Era precisamente esse gostar que a impedia de ouvir o que eu estava dizendo. Compreendi que o impasse no se resolveria pela razo. Perdi a pacincia. Um 
Rubem grosseiro saiu do seu quarto no albergue, arrancou-me o telefone das mos e assumiu o controle: "Percebo que a senhora no fala portugus." Resposta espantada: 
" Como assim?" O Rubem grosseiro concluiu com uma navalha: " A senhora no entende o sentido das palavras. A senhora no sabe o sentido da palavra no." 
Parece que o amor torna as pessoas incapazes de entender o no. Seria to simples! O no exprime o meu limite, o meu desejo naquele momento. No posso. No quero. 
Se a pessoa que diz amar tivesse aprendido a lio da amizade responderia simplesmente: "Que pena! Mas haveremos de nos encontrar numa prxima vez." A eu ficaria 
feliz por haver uma pessoa assim to amiga, to respeitadora dos meus limites. 
Eram muitas as cartas que chegavam. Todas com letrinha de criana. Todas da mesma cidade. Todas de uma mesma escola ( estava escrito no remetente ). Deliciosas cartas 
de crianas. Por vezes cinqenta de uma vez. Que coisa boa ser assim amado pelas crianas! As cartas eram resultado de um trabalho competente e amoroso de professoras. 
Elas haviam lido algumas das minhas estrias infantis, as crianas haviam gostado, e elas sugeriram que as crianas escrevessem para mim. S tenho louvor a essas 
professoras. Se no fosse por um pequeno detalhe: todas as cartas pediam respostas individuais... Isso  covardia. Cinqenta crianas escrevendo para um escritor. 
Um escritor escrevendo para cinqenta crianas. No justo. No  possvel. 
As crianas no me haviam interrompido na minha caminhada, hbito do Drummond.( Entre parntesis: o que mata a caa no  a arma. O que mata a caa  o hbito. Porque 
a caa tem hbitos, o caados se pe  espera, no lugar onde ela vai passar. E eis um animal vivo transformado em churrasco... Para no virar churrasco  preciso 
no ter hbitos. Sabedoria do bruxo D. Juan. ). O Drummond era caa fcil. Meu caso foi diferente. Elas entraram diretamente na minha toca, amoravelmente, sem pedir 
licena... As culpadas eram os professoras. Por amor. Imaginaram a felicidade que eu iria sentir. Mas no imaginaram o resto... Freqentemente as pessoas pensam 
que um escritor  um ser areo, separado dos problemas prticos da vida, com um tempo vazio imenso,  sua disposio. As professoras, por amor, criaram expectativas 
na cabea das crianas. Cada uma delas receberia uma longa carta do escritor. Uma expectativa impossvel de ser cumprida. Porque o escritor, ser limitado, tem outras 
coisas para fazer. Inclusive vagabundear, ler, escutar msica. O escritor tambm tem direitos individuais. Lembro-me de um dia, eu com o mao de cartas na mo, sem 
saber o que fazer, irritado. Senti ento um objeto estranho numa das cartas. Uma criana colocara dentro do envelope uma bala de hortel. No chupei a bala porque 
ela me atravessou o corao... 
O problema com as pessoas que amam  que elas acham o seu amor to bonito e to puro que dele s podem sair coisas boas. O amor, s amor, s se pensa. No pensa 
o outro.  o caso do marido apaixonado que deseja fazer amor com a sua esposa. Para ele o seu amor  a coisa mais pura e linda do mundo. Mas ela lhe diz sorrindo, 
esperando ser respeitada: "Meu bem, eu no estou com vontade..." Ele argumenta de novo, fazendo poemas sobre o seu amor. Ela responde repetindo o seu desejo: " No 
estou com vontade..." O desentendimento vai se estendendo at que ela perde a esperana de fazer-se entendida pelo marido e diz: "Est bem, faa o que voc quer 
fazer. Mas saiba que estarei odiando voc..." 
Aconteceu isso comigo esta semana. O dito amor insistia do lado de l, eu respondia do lado de c. No posso. Estou muito cansado. Preciso ter tempo para mim mesmo. 
Mas o lado de l, lado do amor que no aprendeu da amizade, no me ouvia, no me entendia, e repetia a mesma coisa: "Mas ns gostamos tanto do senhor." Chegou um 
momento em que compreendi que as minhas razes era inteis. Elas no importavam. Importava apenas que o outro tivesse o seu desejo realizado. A o esprito do Drummond 
baixou sobre mim... 
Essa semana passada teve momentos de grande felicidade. Encontro de velhos amigos, promovido pela editora VERUS. O Leonardo Boff, o Luiz Carlos Lisboa e eu. Estvamos 
lanando livros. O Boff, Novas fronteiras da igreja. O Luiz Carlos Lisboa, O som do silncio. E eu, Se eu pudesse viver a minha vida novamente.  Publicado no Correio 
Popular (20/06/2004)



NOSSAS VERDADES SO S PALPITES 
Encontrar amigos  sempre uma alegria. Especialmente se fazia muito tempo que os amigos no se encontravam. Amigos se encontrando, no  preciso explicar. Amigos 
se entendem sem precisar falar. Pois nos encontramos na semana passada, o Leonardo Boff, o Luiz Carlos Lisboa e eu. O Leonardo e eu j ramos amigos h muitos anos. 
Em razo de sofrermos, ambos, de uma doena incurvel: uma relao de dio e fascnio teologia. Essa doena d grande coceira nas idias, coceira que chega sangrar. 
Eu, de tradio protestante, ele de tradio catlica. Mas sempre andamos juntos alegremente, jogando frescobol com palavras. Teologamos duetos, piano e violino, 
juntos e diferentes, sem confuso, sem separao, sempre em harmonia, de acordo com as definies do conclio de Calcednia sobre as duas naturezas de Cristo. Concordamos 
em que Deus no entregou os seus negcios para serem administrados por uma instituio chamada igreja. Como Jesus mesmo disse, Deus faz sua chuva cair sobre mais 
e bons, e o sol brilhar sobre justo e injustos. A gua da chuva, todo mundo sabe o que . O calor do sol, todo mundo sabe o que . A confuso sobre Deus - chuva 
e sol - comea quando religies afirmam que pr se molhar na chuva e se aquecer ao sol  preciso ter idias certas sobre a chuva e o sol, idias que s elas tm, 
e que se chamam dogmas. Essas religies pensam que conseguiram engaiolar Deus. Deus s existe dentro delas. Religies so gaiolas vazias. No. No esto vazias. 
Dentro delas h um pssaro empalhado.  Mas Deus  um pssaro em vo... H um ditado judeu que diz: "Os homens pensam. Deus ri." Ele se ri das bobagens que pensamos 
sobre ele - ou ela, no estou bem certo. O mar tambm se riria de ns... 
O Luiz Carlos Lisboa, eu j era amigo dele antes de conhec-lo pessoalmente. Eu li, faz muitos anos, o seu livro Nova Era. Li e percebi que, sem nunca nos termos 
visto, ramos amigos. Quis comprar outros exemplares para dar de presente aos meus filhos. Mas a edio estava esgotada. O remdio foi fazer cpias xerox. To sbio 
e to potico que o li com o meu grupo de poesia. O que encanta nos seus textos , em primeiro lugar, a sabedoria mansa. Depois, os textos so curtos, menos que 
uma pgina. Finalmente, a msica da sua escritura. Kierkegaard dizia que a verdade mora no na letra do texto mas na msica que existe nos interstcios das palavras. 
Fernando Pessoa tambm sabia disso. Escreveu a um poeta (talvez ele mesmo ): "... e a melodia que no havia se bem me lembro faz-me chorar..." Na folha de papel 
estavam as palavras do poema. Mas no eram elas que faziam chorar. O que fazia chorar no eram as palavras mas uma melodia que saia das entrelinhas... Todos os terapeutas 
deveriam prestar ateno nessa lio. Prestar menos ateno no que a pessoa est falando e mais na msica que ele no sabe que est fazendo. 
Vou transcrever dois textos que se encontram no seu livro O som do silncio, publicado pela VERUS: "Um brinquedo, uma roupa, a pequena cama - os objetos que cercam 
a vida de uma criana conservam a sua energia quando ela se ausenta para ir  escola ou viajar. H naquelas coisas uma vibrao que se percebe  no ar. Aqueles que 
amam costumam tambm imantar tudo o que tocam, e assim deixam um rastro perfumado por onde passam."  "Ah, o desperdcio de falar, quando h tanta coisa a ouvir de 
quem no tem nada a dizer. s vezes somos como o grito de uma serraria, escondendo o solo  perfeito de um violino. S  preciso prestar ateno e ficar em silncio, 
para escutar a msica que vem do mundo. Nela esto as respostas que procuramos, e nela est a certeza de que todas as perguntas so fteis quando somos felizes.' 
Que lindo presente para uma pessoa querida! Quem d um livro como esse est dizendo: "Acredito que voc  uma pessoa inteligente e sensve". 
 noite estivemos na FNAC, para conversar com quem quisesse. Havia muita gente. Para comear, uma surpresa que no estava no programa. Entrou no palco o grupo "Serenata 
Brasileira", em roupas dos anos vinte ou trinta, no sei bem. Eles cantam os antigos sucessos das tradicionais serenatas numa afinao absoluta. Eu estava assentado 
 mesa, de frente para o pblico. Tive dois prazeres: o da msica e o dos rostos que eu via Todos sorriam. Sorrisos diferentes. O sorriso dos jovens era s sorriso. 
O sorriso dos velhos estava misturado com  saudade. Teve gente que chorou. Eu, quase... Todo mundo ficou triste quando a msica acabou. A msica tem um poder de 
ligar as pessoas que as palavras no tm (exceto a dos poetas). E ns trs teramos de falar porque, se fssemos cantar, sairia tudo desafinado, muito embora o poeta 
tenha dito que no peito dos desafinados tambm mora um corao... 
Como cantar ns no sabemos, por causa da desafinao, passamos a fazer o que sabemosr: pensar, conversar, rir. Que os temas fossem dados pelas perguntas do pblico! 
Ficou logo claro que todos estavam curiosos com o ttulo do livro do Leonardo, Novas fronteiras da igreja. Especialmente porque, como se sabe, ele  um herege. Em 
outros tempos ele j teria sido queimado num edificante Auto de F, numa das fogueiras da Inquisio. Que ele  herege no  difamao minha. Foi ele mesmo que confessou 
publicamente, at com um certo sorriso... Contou-nos de um jantar de homenagem que lhe ofereceram Darci Ribeiro e Oscar Niemeyer, ambos ateus confessos, para celebr-lo 
como o primeiro herege brasileiro O que  um herege?  uma pessoa que anda na direo contrria.  algum que diz o que foi proibido dizer. O pecado dos hereges 
no  moral. Ningum e herege por ser um assassino ou fornicador. Esses so pecados de que se pode arrepender, e que so resolvidos no confessionrio. O pecado dos 
hereges, ao contrrio, no  pecado de ao.  pecado de pensamento. E no h formas de se arrepender daquilo que se pensa. Ele pensa aquilo que  proibido pensar. 
S h um jeito de curar um herege: queimando-o na fogueira. 
Pois o Leonardo, j h algum tempo, tem estado dizendo coisas proibidas. Por elas foi levado ao Santo Ofcio e interrogado pelo guarda da f, o Cardeal Ratzinger. 
O Leonardo diz, brincando: "Tive a honra de me assentar na mesma cadeira em que se assentou Galileu..." Galileu tambm foi herege por afirmar uma coisa proibida, 
que a terra no era o centro do universo. Ah! Como as religies afirmam coisas confusas! Felizmente se arrependem delas, passados quinhentos anos... Outro herege 
famoso foi Jesus Cristo que andava pela Palestina negando aquilo que sempre tinha sido dito: "Ouvistes o que foi dito aos antigos, eu, porm, vos digo... A heresia 
do Leonardo tem a ver com aquilo que ele pensa sobre a igreja. Para ele Jesus jamais imaginou uma igreja hierrquica, burocrtica, dotada de poder ( houve um perodo 
em que ela chegou a ter exrcitos ) e que pretende ser a nica detentora da verdade, a verdade inteira. Essa pretenso torna impossvel o ecumenismo oficial. Porque 
se uma instituio possui a verdade toda, ela no precisa ouvir ningum. Seria uma perigosa perda de tempo. O pensamento do outro s pode ser mentira.  o outro 
que tem de ouvi-la. Ela  "mater et magistra" - me e mestra. Para o Leonardo, ao contrrio, a igreja  formada por todos aqueles que sonham o mesmo sonho,  o sonho 
que est contido na poesia do Pai Nosso: um mundo de fraternidade, sem misrias, sem vinganas, sem violncia. 
Perguntaram ao Luiz Carlos Lisboa - que ama o Rio de Janeiro, cidade mais linda no h - sobre essa estranha coincidncia: o Rio de Janeiro  uma das cidades mais 
religiosas do Brasil e  a cidade mais violenta do Brasil. Qual  a relao que existe entre religio e violncia? Ele lembrou que, na histria do Ocidente, as religies 
sempre estiveram ligadas  violncia. Os maiores horrores j foram perpetrados por causa de dogmas religiosos. Agora mesmo, para justificar a guerra contra o Iraque, 
o presidente Bush declarou que conversava com Cristo todas as manhs. A loucura tem fortes relaes com a religio institucionalizada. Os loucos pensam que suas 
idias so as idias de Deus. Pensa-se que a violncia criminal vai se resolver com a violncia policial. Mas onde se encontram as razes da violncia? Elas no 
se encontram dentro de ns mesmos? A violncia s vai ser resolvida quando os homens aprenderem a ser mansos. Mas isso exige uma transformao espiritual. Era assim 
que pensavam Jesus Cristo, So Francisco de Assis e Gandhi...  
Foi uma conversa gostosa, honesta, por vezes com um pouco de pimenta, que era logo eliminada com o humor. 
O que  necessrio compreender  que ningum tem a verdade. Ns s damos palpites. No momento em que os indivduos compreenderem que suas verdades no passam de 
palpites eles ficam mais tolerantes. E  gostoso conversar mansamente, cada um ouvindo honestamente o que os outros tem a dizer. (Correio Popular, Caderno C, 27/06/2004.)

Rubem Alves




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Silvana Poll

Rubem Alves

Silvana Poll
